Deus é feliz. Ele é, na verdade, por natureza, a felicidade perfeita. Esta é uma afirmação que parece surpreendente, numa era que está muito acostumada a conceber Deus como um controlador, ou mesmo como um ditador concebido por homens maus apenas para dominar as massas ignorantes. Mas Deus é assim, e é assim que Tomás nos apresenta a ele, no início de sua resposta sintetizadora.

De fato, Deus é feliz por natureza, ou seja, a felicidade não é algo que ele viesse a conquistar de algum modo; ele é a própria felicidade, e a felicidade, para toda criatura, é ele e apenas ele.

Mas, se a felicidade é um atributo natural em Deus, nas criaturas ela deve ser conquistada. E assim voltamos ao centro da discussão: os anjos alcançam-na em razão de algum tipo de merecimento? A felicidade, para os anjos, é um objetivo que eles devem conquistar, que eles devem merecer?

Nós sabemos que Tomás concebe as quatro causas aristotélicas como maneira de compreender o mundo criatural. Destas, está em questão aqui a causa final, que é aquilo que marca o caminho, o processo que as criaturas fazem para atingir a sua perfeição plena. E há, aqui, uma pequena distinção a ser feita, importantíssima:

1) Para Deus, a felicidade plena não é um fim, mas um modo natural de ser.

2) Para as criaturas, existem aqueles fins que elas são capazes de atingir naturalmente. Neste caso, elas o atingem e pronto. Uma vaca fica adulta, reproduz, dá leite, come grama, muge e morre. Um ser humano cresce, desenvolve suas virtudes, engaja-se socialmente, constitui família, pratica sua filantropia e destaca-se em algum campo de atuação. Torna-se, assim, uma pessoa realizada no plano natural, e portanto, ninguém pode negar, uma pessoa satisfeita, por suas próprias forças. Feliz, portanto, naturalmente feliz.

3) Existe, no entanto, uma felicidade ainda mais completa, eterna, perfeita e plena. É a felicidade de Deus, que está além das forças humanas ou angélicas (ou de qualquer criatura). Neste caso, esta felicidade é, para a criatura, algo que ela recebe de fora, um adendo. Nenhuma criatura o alcança por forças próprias.

Com relação ao modo pelo qual atingimos os fins para os quais precisamos de meios, ou seja, de elementos que nos auxiliem a chegar até eles, Tomás faz, também aqui, uma distinção interessante:

1) Quando o próprio meio faz alcançar o fim, não falamos em nenhum mérito envolvido. O exemplo que São Tomás dá, aqui, é o da pessoa doente: o médico prescreve o remédio e o próprio remédio trará a saúde almejada. O médico não precisa questionar se o doente que tomou corretamente o medicamento merece ou não a saúde: o próprio ato de submeter-se ao tratamento gera o fim, ou seja, a saúde almejada.

2) Há casos em que o meio não produz logo o fim, porque o fim está além do poder do agente. O exemplo, aqui, seria o da medalha de honra a ser concedida a um soldado: num pelotão, vários soldados podem ter lutado com bravura, mas depende do comandante, e não dos próprios soldados, discernir quais deles merecerão a medalha. Neste caso, o fim almejado, que é a medalha de honra, depende de uma avaliação do mérito por parte de um terceiro, para ser atingido.

A graça de Deus, portanto, não funciona como o remédio descrito no item 01, mas como a medalha de honra descrita no item 02. Ou seja, ela possibilita que possamos lutar, como estar no exército possibilita que o soldado lute. Mas o atingimento do respectivo fim, que é a glória eterna, ainda depende da avaliação do mérito do agraciado, por parte de Deus. É certo que ele não poderia acumular nenhum mérito se não estivesse na graça, mas também é certo que a salvação não vem como efeito próprio da graça mesma, senão pelos méritos que, usando a graça, a criatura adquiriu. Trata-se, portanto, de uma realidade sinérgica, sujeita ao juízo de Deus, mas na qual a graça é pressuposto e condição, e o esforço humano é consequência, é decorrente, mas não é irrelevante. Nenhum tipo de pelagianismo existe aqui, portanto. Podemos, tranquilamente, dizer que tanto anjos quanto seres humanos chegam a merecer a salvação porque receberam sem mérito a graça e, em seguida, por ela, colaboraram meritoriamente com a própria salvação.

Assim, se admitimos (como Tomás admite) que os anjos receberam a graça simultaneamente com sua criação mesma, temos que admitir que a glória lhes chegou porque, a juízo de Deus e usando bem a graça que receberam, eles a mereceram de algum modo.

Tomás nos lembra, porém, que existem aqueles que defendem que os anjos não foram criados já em graça; neste caso, se eles não tinham a graça que os capacitava a colaborar no caminho para a glória, teríamos que admitir que eles recebem a glória, ou seja, a bem-aventurança final, de modo absolutamente gratuito, sem nenhum merecimento; os anjos, para estes teólogos, receberiam a glória da salvação de modo análogo àquele pelo qual os seres humanos recebem a graça que os encaminha à justificação primeira: sem mérito, por pura concessão divina. Tomás não concorda com isto, e nos explicará porque.

A felicidade final, consistente na bem-aventurança de ser admitido à presença de Deus, tem a natureza de prêmio, ou seja, decorre do bom uso da graça. Assim, seria ilógico admitir que os anjos o recebessem sem merecimento, como os seres humanos recebem a graça. Os humanos recebem a graça para que possam merecer o prêmio da glória. Não faria sentido, pois, que o prêmio da glória fosse, para os anjos, gratuito. Isto significaria admitir que a existência de demônios decorreria de uma imputação de Deus, por escolha dele, ao deixar de dar a alguns anjos, arbitrariamente, a salvação que deu a outros. Imputar culpa a Deus pelo pecado dos anjos decaídos seria absurdo.

Por outro lado, alguns poderiam dizer que os anjos atingem a glória em razão da previsão dos merecimentos que virão a ter ao recebê-la. Mas isto não faz sentido, porque implicaria admitir uma inversão: aquilo que é prêmio pelos méritos passaria a ser pressuposto de méritos, e estes méritos não seriam pressuposto de prêmio algum. Se o mérito é o meio para o fim que é a salvação, não teria sentido dizer que os anjos receberam a salvação para que pudessem ter méritos. Não faz sentido pleitear que se deve merecer aquilo que já se tem.

Por fim, há quem defenda, diz Tomás, uma espécie de solução pelagiana para os anjos: os anjos adquiririam mérito para a salvação não em razão de alguma graça, mas pelo bom uso natural do livre arbítrio. Mas isto não pode ser, diz Tomás. De fato, o livre-arbítrio natural, não informado pela graça, não é suficiente para alcançar Deus, porque isto implicaria admitir que os anjos podem alcançar a visão beatífica naturalmente, sem o auxílio da graça. É neste sentido que dizemos que o livre arbítrio natural, não informado pela graça, jamais pode gerar méritos para a salvação: ele não tem forças para isto, porque a natureza não pode, por si mesma, alcançar Deus.

Por outro lado, como já vimos, não poderíamos admitir que o livre arbítrio possa gerar merecimento , e a graça final, que é a glória, já não gera merecimento. Logo, o livre arbítrio tem que ser informado pela graça santificante, ainda no caminho para a salvação, para que possa ser fundamento do merecimento da salvação.

Assim, conclui Tomás, o anjo é criado e recebe a graça santificante; com ela, pode vir a merecer a salvação ou não. Se a merece, recebe a bem-aventurança na glória da presença final de Deus. Se não a merece, entra no número dos decaídos, ou seja, perde-se.

Colocados os termos da resposta sintetizadora, ele passa a revisitar os questionamentos iniciais.

O primeiro argumento diz que qualquer merecimento só é conquistado quando alguém enfrenta uma tarefa árdua, difícil. Mas agir bem não é nada difícil para os anjos, e portanto não poderia ser fundamento para qualquer merecimento. Disto o argumento deduz que não é por merecimento que os anjos alcançam a salvação final.

O que está em jogo aqui, diz Tomás, não é a facilidade nem a dificuldade intrínseca no agir natural dos anjos, mas o fato de que a natureza dos anjos simplesmente não está apta a, por si mesma, encontrar a glória final da presença definitiva e total de Deus. Assim, recebida a graça santificante, o mérito encontra-se em agir livremente em conformidade com ela, o que possibilita alcançar méritos sobrenaturais e atingir, por estes méritos, a própria glória.

É nesta mesma linha a segunda objeção. Ela diz que aquilo que nos é natural não pode ser fonte de merecimento. Como comer ou fazer necessidades fisiológicas não podem ser fonte de merecimento entre humanos. Assim, converter-se a Deus, diz o argumento, é natural para os anjos. Logo, conclui, não há, aqui, nenhum merecimento envolvido.

Tomás reafirma que converter-se a Deus, no sentido próprio de escolher a sua presença maravilhosa, não é natural a nenhuma criatura, porque depende sempre da graça preveniente e santificante, sem a qual não é possível, mesmo ao mais elevado dos anjos ou ao mais ascético dos seres humanos, chegar à visão beatífica de Deus. Assim, a salvação, tanto no caso dos anjos como dos seres humanos, sempre envolve os méritos relacionados com a graça.

Por fim, o terceiro argumento discute aquele aspecto que alguns teólogos afirmam, de que os anjos não recebem a graça simultaneamente com a sua criação mesma. Assim, o argumento diz que eles não poderiam ter alcançado merecimentos antes de alcançar a glória, porque não necessariamente tinham a graça para isto. Por outro lado, prossegue o argumento, não poderiam alcançar méritos depois de atingir a beatitude final, porque neste caso acumulariam um grau crescente de perfeição e deixaria de haver a própria hierarquia dos anjos, e todos alcançariam o grau máximo de perfeição natural. Assim, o argumento afirma que alcançar a beatitude, para os anjos, não envolve adquirir merecimentos pela graça.

São Tomás já respondeu a esta objeção na sua resposta sintetizadora, e remete o leitor para lá.