Esta é uma discussão muito interessante, talvez hoje ainda mais do que no tempo de Tomás. De fato, esta discussão sobre o merecimento e a salvação tornou-se aguda para nós, hoje, porque a discussão foi deslocada para a graça pura. A acusação de pelagianismo, ou seja, de que a defesa da necessidade de mérito pra a salvação implica querer conquistar o céu por esforço. Não se trata disto.
Por que estudar os anjos? Os anjos são criaturas como nós, mas não são materiais, isto é, não são seres processuais, aperfeiçoáveis, como nós. Não são mortais, não sofrem paixões, não sentem medo. São naturalmente perfeitos, plenos em inteligência e não influenciáveis pelas coisas materiais. Assim, estudar a forma pela qual eles atingem a glória é estudar o modo pelo qual uma criatura plena a atinge, isto é, é um estudo esquemático e simples sobre a relação entre a natureza e a graça. Como um anjo pode salvar-se? Como poderia merecer a salvação? Como sua natureza se relaciona com a graça? É justo o que estamos estudando nesta questão. E será muito útil para entendermos o que acontece conosco, humanos, com relação à nossa própria salvação, ou seja, a relação entre a nossa natureza humana, o nosso merecimento, a graça e a glória. Estudar angelologia facilitará, depois, o estudo da antropologia teológica.
Por enquanto, o foco aqui é o merecimento. Já vimos que o anjo é criado num primeiro instante da criação, mas não fora dela. Que ele é criado perfeito. E que é criado já na graça, mas não na glória, ou seja, que ele é criado dotado de toda a plenitude criatural e da graça necessária para a conversão a Deus, de modo a possibilitar sua conversão que o fará entrar na glória, vale dizer, numa relação direta com Deus mesmo, uma relação pessoal com a Trindade santa. A pergunta aqui é: além da perfeição da natureza e da graça imediatamente dispensada ao anjo, há algo que seja da responsabilidade do anjo, que ele deva fazer, para atingir a glória?
A hipótese controvertida, para provocar o debate, é a de que não há nenhum merecimento envolvido, quando se trata dos anjos e da glória; isto é, alcançar a glória, para os anjos, não envolve nenhum merecimento de sua parte. São três os argumentos objetores.
O primeiro argumento lembra que o mérito decorre de que alguém fez alguma coisa difícil, que mostrou o seu valor. Mas os anjos, como são criados em plenitude e já recebem imediatamente a graça, não enfrentam nenhum tipo de dificuldade para buscar e fazer o bem. Assim, ele não adquire nenhum tipo de mérito por agir bem.
O segundo argumento diz que, quanto a alcançar a vida eterna e a glória de Deus, nada do que fazemos por nossas forças naturais pode resultar em mérito. Isso seria pelagianismo, isto é, a negação de que a salvação pressupõe a graça, e não apenas o merecimento natural. Mas os anjos, quando se convertem a Deus, fazem isto por suas próprias forças naturais (a quem amam naturalmente, como foi visto em artigos anteriores). Assim, conclui o argumento, não há nenhum merecimento envolvido na conquista da bem-aventurança final dos anjos.
Por fim, o terceiro argumento quer provar que seria uma contradição admitir que os anjos pudessem adquirir a bem-aventurança final por merecimento. Ora, diz o argumento, se os anjo atingem a bem-aventurança final por merecimento, quando é que eles adquirem tal merecimento? Se é verdade a opinião de muitos de que a graça não foi concedida aos anjos concomitantemente com a sua criação, ou a de que eles são capazes da conversão por suas forças naturais, eles não podem ter adquirido méritos antes da bem-aventurança final, pelo simples fato de que não tinham a graça para adquirir mérito, aduz. Mas se eles adquirem mérito depois de atingir a bem-aventurança final, isto significa que eles continuam crescendo em mérito depois de chegar à consumação de sua perfeição sobrenatural, e isto implicaria o desaparecimento de toda diferença hierárquica entre os anjos, porque todos tenderiam a ser iguais no máximo de perfeição, afinal. Assim, o argumento conclui que o merecimento não está envolvido na bem-aventurança final dos anjos, nem antes, nem depois de alcançarem a salvação.
Por fim, o argumento sed contra lembra que as Escrituras dizem que, na Jerusalém celeste, isto é, na vida plena da bem-aventurança final, os anjos e os homens são medidos pela mesma medida (Apocalipse 21, 17). Ora, diz o argumento, a medida que os humanos precisam ter, para alcançar a bem-aventurança final, é a medida do seu mérito conquistado pela graça. Logo, os anjos devem também adquirir mérito pela graça, se quiserem alcançar a bem-aventurança final, conclui o argumento.
No próximo texto examinaremos a resposta sintetizadora interessantíssima de São Tomás.
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