Concluímos o texto anterior constatando, com Tomás, que há opiniões teológicas divergentes no tema que debatemos agora. De fato, Tomás lembra que há santos e doutores que defenderam, nos limites da fé, tanto uma coisa quanto a outra. Mas o próprio Tomás adota, como opinião mais segura, mais provável, a de que os anjos foram criados e receberam simultaneamente a graça repartida por Deus.

Neste ponto, Tomás recorre à teoria agostiniana das rationes seminales, ou razões seminais, na qual Santo Agostinho defendia que, num mesmo instante e no início da criação, Deus criou todas as coisas que existiram ou viriam a existir, e, neste último caso, ele o fez na forma de “sementes” ou “razões seminais”, quer dizer, potências pra existir, que seriam paulatinamente trazidas à existência ao longo da história. Todas as coisas, portanto, estiveram criadas em semente desde aquele primeiro instante até o fim dos tempos. No primeiro mineral estavam as razões de todos os minerais que existiam ou vieram a existir, como no primeiro vegetal estavam as razões de todas as plantas, no primeiro animal estava a de todos os animais e assim por diante.

Ora, se tudo o que existia ou viria a existir naturalmente foi criado num primeiro momento por Deus, ou seja, a criação, em sua natureza, estava perfeita e definitiva desde um primeiro momento, diz Tomás, na forma de sementes que, no seu tempo, floresceriam nas novas coisas, analogicamente podemos defender que, também no campo do sobrenatural, Deus estabeleceria as razões daquilo que mais tarde seria consumado, isto é, a graça já se fez presente e disponível para que todos os entes inteligentes pudessem imediatamente entrar em relação com ele e chegar à glória. De fato, nenhuma criatura, mesmo dotada da plenitude da inteligência, poderia entrar em relação com Deus por suas próprias forças naturais. Deste modo, diz Tomás, faz sentido que elas tenham sido criadas já providas da graça que as permite estabelecer, querendo, tal relação. Por isto, diz Tomás, faz sentido acreditar que os anjos tenham sido criados e já dotados da graça santificante.

Colocados, assim, os elementos para encaminhar o debate, Tomás passa a revisitar os argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento objetor diz que Agostinho defendia uma criação que, no início, era informe, e depois recebeu as formas pelas quais deveria especificar-se; assim, primeiro Deus haveria criado uma “natureza angélica” indeterminada, que ele chamou de “céu”, e depois especificou e informou os anjos, o que ele chamou “luz”. Disto, o argumento conclui que esta formação se deu pela graça, e que portanto a graça não foi recebida de modo simultâneo com a criação.

Mas Tomás não faz uma interpretação tão literal das colocações de Agostinho (com as quais não parece concordar, mas não desmente Agostinho jamais). Ele diz que estas colocações de Agostinho devem ser compreendidas como se mencionassem a relação entre a graça e a glória, uma vez que os anjos só chegam à plenitude de sua existência quando entram na glória. Vale dizer, teríamos que interpretar, aqui, que a graça é simultânea à criação (o que Agostinho chamava de criação informe) mas a glória, que plenifica o anjo, não é. Ou ainda, diz Tomás, podemos interpretar que Santo Agostinho queria chamar a atenção para o fato de que a natureza tem que preceder logicamente a graça, mas isto não significa que devesse preceder cronologicamente. Assim de fato, para haver graça, deve existir um ente capaz de recebê-la; mas isto não implica que este ente deva existir antes de receber a graça, senão que a graça não pode ser outorgada se o ente não existe.

O segundo argumento diz que, se os anjos, que foram criados plenos em natureza intelectual, tivessem recebido simultaneamente a graça santificante, isto implicaria que eles não poderiam pecar, e portanto não haveria demônios, e todos os anjos estariam no céu.

A graça não é algo que elimina o livre-arbítrio, mas apenas uma força que inclina para Deus, ensina Tomás na resposta. Esta inclinação respeita o modo de ser da criatura que recebe a graça. Ou seja, ela não impõe necessidade: mesmo um ser que receba a graça pode, apesar disto, pecar. Ou seja, a existência dos demônios não é prova de que os anjos não tenham recebido a graça imediatamente com sua criação.

Por fim, o terceiro argumento estabelece uma hierarquia entre natureza, graça e glória; a graça, diz o argumento, é o meio-termo entre a natureza, que é o princípio, e a bem-aventurança final da glória, que é o fim absoluto. Ora, entre a natureza e a glória, ou seja, entre o princípio e o fim, não há simultaneidade. Logo, conclui o argumento, entre a natureza e a graça, ou seja, entre o princípio e o meio-termo, tampouco pode haver.

Sim, a graça é o meio-termo entre a natureza e a glória, diz Tomás; mas entre a natureza e a glória não pode haver simultaneidade, porque é próprio da glória ser a consumação da natureza, levada pela graça. Assim, a glória é o fim cujos princípios são a natureza e a graça. Mas, uma vez que a natureza e a graça são, ambas, princípios que encaminham o ente para o mesmo fim, que é a glória, não há impedimento a que existam simultaneamente no mesmo ente desde o início.