Vimos, no texto anterior, que Tomás nos brinda o exemplo da atuação do calor na geração de seres vivos; por si mesmo, o calor não pode gerar um ser vivo. Seria impossível ao fogo gerar por si mesmo um ser vivo. Mas sem o calor certamente a galinha jamais conseguiria chocar seus ovos e produzir pintinhos. Não é o calor, porém, que os gera, mas o mecanismo reprodutivo dos galináceos, no qual o calor entra como uma humilde concausa material do surgimento dos novos pintinhos.
De modo análogo, a natureza dos anjos não pode dar a si mesma a conversão a Deus. Isto ultrapassa sua capacidade. No entanto, a graça move esta mesma natureza: sem a graça não há conversão, mas, sem dúvida, sem a natureza tampouco. Mas não se trata, a rigor, de duas causas com a mesma natureza e mera diferença de grau: a natureza é, digamos assim, a causa material da conversão, enquanto a graça é sua causa eficiente.
Aqui aplica-se, mais uma vez, aquele princípio clássico: a graça não destrói a natureza, mas a eleva e aperfeiçoa, fazendo-a capaz daquilo que, por si mesma, ela nunca alcançaria. Assim também para os anjos e sua conversão a Deus: sem a graça, tal conversão não lhes seria possível naturalmente.
Colocados os princípios da resposta, Tomás passa a revisitar os argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento alega que a graça não é necessária para aquilo que podemos fazer com nossas forças naturais. Ora, prossegue, já vimos que o anjo pode amar a Deus naturalmente; logo, conclui, a graça não é necessária para que o anjo se converta a Deus e atinja a bem-aventurança final.
O anjo ama a Deus naturalmente, porque é capaz de conhecer que a sua vida é um dom divino; sabendo que há Deus, não lhe resta senão amá-lo. Mas o amor de que estamos tratando aqui é outro: trata-se de estabelecer uma relação pessoal com Deus, encontrar-se com ele e amá-lo como ele é; vê-lo em sua essência. Não se trata simplesmente de saber que ele existe. Isto ultrapassa as forças naturais do anjo e só pode dar-se pela graça que leva à conversão.
O segundo argumento pontua que a graça é um auxílio de Deus para que a criatura possa fazer aquilo que é difícil. Mas converter-se a Deus não é algo difícil para os anjos, que têm uma natureza intelectual plena e, portanto, podem compreender facilmente a natureza do bem e optar livremente por ele, diz o argumento. Assim, o argumento conclui que o anjo não precisaria da ajuda da graça para converter-se e chegar à bem-aventurança final.
Aqui, teremos mais uma aula de Tomás, concernente à diferença entre difícil e impossível. Num sentido amplo, diríamos que estamos no terreno das coisas árduas. Mas, dentre as árduas, temos aquelas que transcendem o poder natural do agente, mas que ele pode alcançar com algum auxílio. Neste sentido, Tomás dizia que subir, para o ser humano, é algo difícil, porque contraria a tendência da gravidade; mas, uma vez que tenha saúde e prepare adequadamente seus músculos, e conte com a ajuda de pontos de apoio adequados, ele pode subir num lugar muito alto e íngreme. Subir é difícil, para o ser humano, mas com o devido auxílio ele pode fazê-lo por suas próprias forças naturais.
No entanto, voar seria algo naturalmente impossível, diz Tomás. Hoje, completaríamos, diríamos que voar é naturalmente impossível ao ser humano, e é por isto que existem os aviões: para voar por nós e nos transportar. A rigor, toda vez que um ser humano está voando, na verdade sabe-se que não voa: está sendo simplesmente transportado por algum artefato que voa, seja um balão, seja um aeroplano. Assim, voar é impossível para o ser humano, naturalmente; e é por isto que, para voar, ele precisa simplesmente ser carregado.
A impossibilidade, diz Tomás, pode ser, por sua vez, de duas ordens: 1) por uma circunstância adjunta ao ente ou 2) por algum limite intrínseco à sua natureza mesma.
Assim, no primeiro caso (da circunstância) flutuar é impossível ao ser humano, porque a gravidade da Terra o retém, dado que, embora seja constituído de alma espiritual (que por si poderia flutuar livremente, caso não fosse apenas uma componente de um ser corpóreo) e corpo material, o corpo o retém; mas não o é quando ele está no espaço sideral, longe do campo gravitacional da Terra.
No segundo caso, do limite intrínseco, é impossível a qualquer criatura encontrar-se pessoalmente com Deus por suas próprias forças, enxergá-lo em si mesmo, de maneira análoga àquela que torna impossível a uma planta resolver um problema de física quântica. Trata-se de algo que, por definição, está cima das forças de sua natureza.
Assim, a conversão e o encontro com Deus não é simplesmente difícil para a criatura, mesmo para a criatura dotada de inteligência. É impossível mesmo. A natureza criada simplesmente não tem capacidade para ver Deus pessoalmente. Para os seres humanos, esta impossibilidade se apresneta pelos dois modos acima: há 1) uma circunstância adjunta ao ser humano, consistente no peso do pecado original, que feriu a própria natureza humana e a tornou como que opaca, insubmissa à própria graça de Deus e 2) um limite intrínseco a todas as naturezas criadas, que pe a de que a natureza divina ultrapassa as capacidades das naturezas criadas.
Para os anjos, o primeiro modo de impossibilidade não existe. Eles não têm uma estrutura corporal opaca, ferida por algum pecado original, de modo que não há circunstâncias adjuntas capazes de torná-los como que opacos à visão de Deus. Neste sentido, a sua natureza é dócil a Deus e à sua graça. Mas há o limite intrínseco a toda criatura que é a da distância infinita entre a natureza criada e a natureza divina. Por isto, ou seja, exatamente porque a relação pessoal com Deus é de ordem sobrenatural é que somente por graça de Deus é que os anjos podem converter-se e estabelecer com ele uma relação pessoal, alcançando a beatitude final. Ou seja, a resposta final a este argumento é simplesmente a de que não se trata de algo difícil, mas simplesmente impossível sem a graça.
Por fim, o terceiro argumento alega que a conversão a deus é o pressuposto para receber a graça (citando Zc 1, 3). Logo, se receber a graça fosse o pressuposto para a conversão, haveria uma regressão ao infinito (para converter, eu preciso primeiro receber a graça, mas para receber a graça, preciso primeiro converter-me) que não pode ser defendida. Logo, conclui o argumento, a graça não seria necessária para a conversão angélica, mas é o contrário.
A graça vem sempre primeiro, diz Tomás. Ele nos dá mais uma lição sobre conversão; a conversão, tomada como este movimento de união com Deus, pode ser tomada em três sentidos:
1. Como uma união, que permite o gozo pleno de Deus pela criatura. Há, aqui, diz Tomás, a graça consumada, isto é, produzindo plenamente seus efeitos numa natureza que não somente já a acolheu, como já se purificou e é capaz da operação plena que dela resulta.
2. A caminhada que leva a merecer a visão beatífica da glória. Aqui, está em ação a chamada “graça habitual”, que é o princípio do merecimento, e que paulatinamente nos purifica no caminho até a glória. Não vamos entrar, aqui, nas longas disputas sobre a relação entre graça e merecimento, trazidas muito depois da Suma pelas discussões teológicas do século XVI e resolvidas pelo Concílio de Trento. Notemos apenas que Tomás põe a graça como fundamento do merecimento, ou seja, ele quer sempre destacar que a graça sempre é a primeira.
3. A própria preparação para ter a graça, como primeiro movimento do coração para Deus. Aqui, diz Tomás, não há a graça consumada nem a graça habitual, mas a própria ação de Deus que move a alma para ele, atraindo-a. Usando um neologismo que o Papa Francisco criou e gosta muito, diríamos, com Tomás, que Deus sempre chega primeiro em nós do que nós nele, ou seja, Deus nos primeireia. A graça vem primeiro, sempre.
E, neste ponto, para provar sua conclusão, Tomás vai citar uma outra passagem bíblica (Livro das Lamentações 5, 21): convertei-nos, Senhor, e nos converteremos a vós.
Deixe um comentário