Já vimos, então, que os anjos não nascem já na bem-aventurança final; eles a alcançam depois de criados, embora nasçam num estado de plenitude natural. Ou seja, diferentemente dos seres humanos, que nascem num estado de tabula rasa e precisam caminhar para a plenitude, para a maturidade pessoal, os anjos já nascem plenos, e portanto aptos à felicidade natural. Alguns alcançarão, portanto, a beatitude final em Deus, outros não. A pergunta, agora, é logicamente posterior: será que, para alcançar este estado de beatitude final, na qual estabelecem uma relação de presença pessoal de Deus, de visão da própria essência trinitária, eles precisam da graça de Deus, ou sua natureza já basta para que eles entrem na presença de Deus no final? A hipótese controvertida é a de que eles não precisam da graça para tanto. São três os argumentos objetores, no sentido desta hipótese inicial.
O primeiro argumento afirma que ninguém precisa da graça para aquilo que é capaz de fazer naturalmente. Ora, diz o argumento, na questão anterior nós aprendemos que o anjo, naturalmente, é capaz de amar a Deus mais do que a si mesmo. Logo, conclui o argumento, uma vez que Deus é amor, para entrar neste estado de beatitude final, em que se converte a Deus, o anjo não precisa mais do que a sua natureza mesma.
O segundo argumento diz que a graça é o auxílio de Deus. Mas o auxílio só é necessário quando se trata de uma tarefa difícil, ou seja, daquele tipo de tarefa que demanda a remoção ou a superação de obstáculos. Mas não há nada na natureza angélica que seja um obstáculo à visão beatífica de Deus. Assim, nenhum anjo precisaria do auxílio da graça para converter-se a Deus.
Por fim, o terceiro argumento diz que a própria conversão a Deus é pressuposto para a recepção da graça, já que as Escrituras dizem: convertei-vos a mim, e eu me converterei a vós (Zc 1, 3). Ora, prossegue o argumento, se precisássemos da graça para nos convertermos, e se nos convertemos para ter acesso à graça, entraríamos numa contradição lógica de regresso infinito. Assim, o argumento conclui que os anjos não precisam da graça para converterem-se a Deus.
O argumento sed contra lembra que é pela conversão a Deus que o anjo entra na plenitude que denominamos de vida eterna. Ora, se os anjos não precisassem da graça para a conversão, isto significa que tampouco precisariam dela para entrar na vida eterna, o que é contra a palavra expressa da Bíblia, que nos ensina (Rm 6, 23): a graça de Deus é a vida eterna! Logo, conclui o argumento, a graça é necessária para a conversão dos anjos.
Sim, de fato é assim, diz Tomás em sua resposta sintetizadora. Os anjos precisaram da graça para que pudessem optar por Deus, ou seja, para a sua conversão à vida plena na Trindade.
De fato, cada natureza é proporcionada à sua própria realidade. A natureza divina é proporcionada à realidade divina, e a natureza criada é proporcionada à realidade criada. Assim, somente Deus é capaz de querer-se, e de amar-se naturalmente. Nós, humanos, e também os anjos, somos criaturas, e por isto somos naturalmente proporcionados a querer e amar as coisas naturais, embora nossa natureza (e com mais razão a natureza angélica) seja capaz de chegar a um conhecimento natural de Deus e, portanto, de inclinar-se naturalmente a ele. Mas esta capacidade não implica de modo algum a capacidade de relacionar-se pessoalmente com Deus, de vê-lo tal como ele é, de ter acesso à sua essência e muito menos à sua vida eterna e plena. Tudo isto está muito acima das capacidades naturais da criatura, mesmo aquela que recebeu de Deus uma inteligência plena das coisas criadas, como é o caso do anjo. E para que uma natureza realize aquilo que está acima de suas capacidades, ela precisa de condução externa até este fim que a supera.
Para ilustrar este princípio, Tomás vai dar um exemplo que é próprio da ciência de seu tempo. Precisamos lembrar que a ciência que Tomás conheceu está, sem dúvida, ultrapassada, mas o seu uso como ilustração não compromete a retidão do raciocínio teológico e filosófico que Tomás desenvolve. Mas, mesmo que usássemos de algum outro exemplo, mais adequado à ciência do século XXI, devemos sempre lembrar que, se alguém vier a reler o nosso texto daqui a séculos, certamente o nosso exemplo soará anacrônico para ele, também.
Tomás diz, apoiado na ciência de seu tempo (que via o fogo como uma substância), que o fogo pode gerar o calor, mas não pode gerar a carne. No entanto, quando associado a outros princípios, ele entra no processo de geração da carne; seria fácil visualizar, aqui, uma ave chocando seus ovos. Certamente, sem o calor do corpo da mãe, os ovos não gerarão filhotes, mas não é o calor que causa, por si mesmo, a reprodução da ave. Associado, porém, aos outros princípios, pode-se dizer, no entanto, que sem o calor a reprodução das aves não ocorreria.
O que tem isto a ver com a conversão dos anjos a Deus? Veremos no próximo texto.
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