No texto passado, vimos a hipótese controvertida (provocativa, para estabelecer o debate) de que os anjos foram criados já no estado de beatitude final, ou seja, com plena visão de Deus, por natureza. Vimos os três argumentos controvertidos, no sentido desta hipótese, e o argumento sed contra, que reafirma que a bem-aventurança final é um estado de confirmação no bem, e portanto pressupõe um estado anterior a ser confirmado; não pode, pois, existir naturalmente desde o princípio.

Para apresentar sua própria resposta sintetizadora, São Tomás vai nos explicar, com sua clareza habitual, o significado da expressão “bem-aventurança” (ou beatitude, ou ainda felicidade final). Por bem-aventurança ou felicidade, diz Tomás, compreendemos aquele estado de completude, em que o ente provido de inteligência vê-se inteiramente aperfeiçoado em sua sede de saber; notemos, no entanto, que não se trata, aqui, de catalogar conhecimentos científicos, ou mesmo sapienciais, no próprio cérebro. Isto seria uma visão gnóstica (mais sobre o tema na carta Placuit Deo, recentemente publicada pela Congregação para a Doutrina da fé, e no segundo capítulo da exortação Gaudete et Exsultate, do Papa Francisco). A perfeição da criatura intelectual não consiste no acúmulo de informações, mas neste saber viver que vem de uma inteligência saciada de verdade e de uma vontade inclinada ao verdadeiro bem.

Ora, uma vez que o mundo é criatura, ou seja, constitui um universo, ele está cheio de verdade e de bem, que recebe de Deus por participação. Neste sentido, podemos falar de uma felicidade natural da criatura inteligente, que pode ser alcançada (como já o sabia Aristóteles, em especial na sua Ética a Nicômaco) pela contemplação da verdade e pelo repouso no bem, desde aqui, no mundo em que existimos naturalmente. Esta seria uma espécie de felicidade natural, a que estamos naturalmente inclinados, inclusive pelo fato de que nossa inteligência é capaz de chegar, inclusive, à noção de que há Deus e de que ele estabeleceu, em nosso universo, uma ordem a ser conhecida e seguida. Esta é, segundo Aristóteles, a felicidade a que podemos almejar nesta vida.

Mas sabemos, pela revelação, que Deus não é simplesmente um “fundamento externo” para o funcionamento do universo, o “motor imóvel” ou a causa última. Ele é a Trindade amorosa que nos criou por amor e nos espera para compartilhar sua vida divina. Assim, há uma felicidade de grau mais alto, consistente em chegar à verdade plena de Deus, tal como ele é em si mesmo, e descansar no seu bem absoluto e infinito. Ora, nosso intelecto, como o dos anjos, é criatural, e portanto é adequado ao conhecimento das coisas criadas e ao gozo do bem que nelas está. Por natureza, somente Deus pode ver-se, somente Deus pode conhecer-se, somente Deus pode gozar do bem que é ele mesmo. Uma vez que não somos deuses, (aliás, tampouco os anjos), somente por um favor especial de Deus poderíamos ser capacitados a este grau mais alto de felicidade, que consiste em chegar à verdade de Deus como ele é em si mesmo, ou seja, conhecê-lo pessoalmente, e repousar no bem que ele é em si mesmo. A este favor especialíssimo se chama graça. A felicidade última, perfeita, sobrenatural, portanto, somente por graça pode ser atingida pela criatura.

Ora, com relação à plenitude natural do intelecto, com a verdade do universo criatural, os anjos são criados como plenos. Já vimos, em artigos anteriores, que o intelecto dos anjos é criado já com a razão de tudo o que existe. Assim, também a sua vontade é livre para inclinar-se para o bem criado e nele repousar, uma vez que seu intelecto já está pleno do conhecimento criado. Nós, humanos, por outro lado, nascemos com a inteligência vazia, puramente potencial, naquele estado que os antigos chamavam de tabula rasa. Nesse sentido, podemos dizer que os anjos já são criados como naturalmente bem-aventurados; isto porque já são criados plenos em inteligência e, portanto, livres para o bem. Enquanto nós, humanos, precisamos de um longo percurso existencial para atingir uma felicidade criatural limitada, parcial.

Assim, conclui Tomás, com relação ao primeiro grau de felicidade, aquele que a criatura pode atingir em razão de sua natureza, os anjos foram criados bem-aventurados, em razão de uma inteligência plena, imediata e intuitiva de tudo o que há, que permite que eles sejam capazes de intuir plenamente o bem criado e possam desimpedidamente inclinar-se para ele e nele repousar. A felicidade natural não é, portanto, um processo para os anjos, como é para nós humanos. É coexistente e natural neles, desde a sua criação.

Quanto, porém, àquela felicidade ou bem-aventurança última, consistente em vir a entrar em relação pessoal com o Deus verdadeiro, trino e pleno de amor criador, nem nós, humanos, a temos naturalmente, nem os anjos. Ela não está na natureza de nenhuma criatura, mas é graça de Deus. Assim, eles não a tiveram naturalmente desde o princípio. Há um mistério, que estudaremos nos artigos mais à frente, sobre exatamente como alguns anjos vieram a conquistá-la, enquanto outros simplesmente escolheram perdê-la. Não nos precipitemos, porque Tomás nunca se precipita. Desenvolvamos a paciência.

Colocados os fundamentos da resposta, ele passa a examinar as objeções iniciais.

O primeiro argumento objetor lembra um velho tratado de dogmática que afirma que os anjos foram criados na bem-aventurança, para afirmar que eles já têm a beatitude final por natureza, desde a criação. Mas Tomás nos explica que a beatitude aqui mencionada é a natural, ou seja, aquela que se perfaz pela perfeição natural da inteligência na verdade criada e da vontade no bem criado. E esta, de fato, é dos anjos desde a criação, e enquanto permanecem no estado de inocência, vale dizer, antes de fazerem alguma escolha contra Deus, perdendo-a, como vimos na resposta sintetizadora. Não se trata, aqui, da bem-aventurança divina, que é sobrenatural, e vem pela graça num segundo m

O segundo argumento usa uma citação de Agostinho para afirmar que, se a natureza humana, em Adão, foi criada em perfeição e plenitude, muito mais teriam sido os anjos, que, portanto, teriam a bem-aventurança final desde sempre. Mas Tomás nos explica que, de fato, Deus criou tudo perfeito, em sua natureza, mas não em sua operação. Quer dizer, a perfeição natural dos anjos não implica que eles não tivessem a capacidade de livre-arbítrio, inclusive de escolher contra ou a favor de Deus; caso em que, por sua escolha, chegariam à bem-aventurança final ou à rebeldia e perdição. Eis porque o fato de que as naturezas são criadas perfeitamente não implica dizer que elas detêm desde logo a bem-aventurança final.

O último argumento traz uma interpretação bem obscura de uma passagem de Agostinho. Ele afirma que as coisas foram criadas simultaneamente, e que a narração do Livro do Gênese narra os seis dias como uma forma de tornar a sequência humanamente conhecida. Ora, diz o argumento, nestes seis dias os anjos tiveram o conhecimento matutino. Mas, se o tiveram, e se as coisas foram criadas simultaneamente, então o conhecimento matutino e vespertino dos anjos era simultâneo e permanente, desde o princípio. Isto significa, diz o argumento, que eles tiveram, desde sempre, a visão do Verbo pela essência, que é exatamente o significado da noção de conhecimento matutino. Logo, os anjos, segundo deduz o argumento, foram criados já na bem-aventurança final.

Mas não é assim, diz Tomás. Os anjos têm o pleno conhecimento das razões das coisas criadas, que são infundidas em sua inteligência desde a criação. Ora, a razão última das coisas criadas é o Verbo de Deus, como lemos em João 1, 1. Logo, os anjos têm um conhecimento natural do Verbo, de modo indireto, pela contemplação das coisas criadas. Este é o conhecimento vespertino. Mas, quando associam-se a Deus na glória, passam a ver o verbo diretamente, estabelecendo com ele uma relação pessoal de conhecimento. Assim, passam a contemplar todas as coisas a partir da própria essência divina, no chamado “conhecimento matutino”. Mas estes modos de conhecer não são simultâneos: ao segundo os anjos chegam quando convertem-se a Deus e entram, por graça, na glória divina – o que não é alcançado por todos os anjos, mas somente por aqueles que optam por Deus.

Estamos somente começando a caminhada pela salvação (ou perdição) dos anjos. Muito ainda a conhecer aqui.