Já, vimos, a esta altura, tudo o que diz respeito à natureza dos anjos; sua estrutura espiritual, sua incorporeidade, sua criaturalidade, sua inteligência e vontade, seu lugar na criação. Agora passamos a um estudo mais elevado: aquele que diz respeito à salvação, ou seja, à graça e a glória de Deus na vida dos anjos. Será que podemos falar em alguma coisa como uma salvação para os anjos? Será que eles já estão na glória de Deus naturalmente? Como eles se relacionam com a graça e com a glória? Como eles alcançam a bem-aventurança final?
A hipótese controvertida, para provocar o debate, é a de que os anjos já foram criados no estado de bem-aventurança final. Ou seja, eles já foram criados capazes de enxergar a essência de Deus e estar em sua presença. Isto como uma característica da própria natureza dos anjos, não por alguma graça que Deus os concede. É uma discussão muito interessante, porque toca na questão da relação da natureza da criatura inteligente e sua salvação final, vale dizer, sua entrada na glória. É um efeito da graça de Deus ou uma decorrência natural da própria natureza dos anjos (e dos seres humanos?) Não podemos ter dúvida de que este debate também traz à tona a questão da criaturalidade, porque, se os anjos são capazes de enxergar a própria essência de Deus naturalmente, sem necessidade da graça, então teríamos que conclui que eles são, de algum modo, naturalmente divinos, o que seria um absurdo. Mas não nos adiantemos ao debate.
Há três argumentos objetores iniciais, no sentido desta hipótese.
O primeiro cita um velho tratado de dogmática católica em que se afirma que os anjos, perseverando na bem-aventurança, na qual foram criados, não possuem por natureza o bem que têm. Ora, uma vez que a citação fala de anjos que “foram criados bem-aventurados”, o argumento conclui que os anjos já foram criados no estado completo de bem-aventurança.
O segundo argumento objetor lembra que os anjos são naturalmente superiores, em estrutura, aos humanos. Mas, segundo Agostinho, no seu Comentário ao Gênese, o ser humano foi criado já como um ser perfeito e pleno, sem que tenha passado por algum processo de maturação ou aperfeiçoamento. De fato, o primeiro homem foi criado em plenitude, quanto ao ser, embora a perfeição de sua natureza venha a dar-se na operação, ou seja, no caminhar da história. Ora, portanto nem a natureza angélica teria passado por algum processo de aperfeiçoamento, mas foi criada, originalmente, já em plenitude de maturidade. Ora, diz o argumento, a plenitude do anjo consiste em ser feliz, bem-aventurado, gozando da visão divina; portanto, conclui, eles foram criados já bem-aventurados.
O terceiro argumento diz que, segundo Agostinho, as coisas feitas nos chamados “seis dias da criação” na verdade foram feitas num instante e simultaneamente, desde o princípio; assim, estes chamados “seis dias”, segundo ele, devem ter existido imediata e simultaneamente desde o princípio de todas as coisas; seu desenvolvimento seria apenas pela necessidade de explicar a obra da criação ao modo de compreensão humano. Ora, diz o argumento, se é assim, então não há diferença entre o chamado “conhecimento matutino” (que já estudamos na questão 58, artigo 6) e “vespertino”, ou seja, naquilo que os anjos contemplam no Verbo e aquilo que eles conhecem contemplando diretamente. Se é assim, então, diz o argumento, os anjos, desde sua criação, contemplam tudo das duas maneiras (no Verbo e em si mesmas). Mas contemplar o Verbo é ter a Bem-aventurança completa. Logo, conclui o argumento, os anjos já são criados plenamente bem-aventurados.
O argumento sed contra inicia definindo a bem-aventurança completa como a estabilidade ou confirmação no bem. Mas ocorre que alguns anjos foram confirmados no bem, enquanto outros decaíram e perderam-se. Logo, eles não foram criados já no estado de bem-aventurança completa.
A resposta sintetizadora de Tomás já inicia dizendo que há mais de um sentido para a noção de felicidade ou bem-aventurança; há a felicidade natural, que se pode alcançar por nossos próprios esforços nesta vida, no sentido da contemplação de Deus a partir daquilo que dele pode ser conhecido naturalmente, e a bem-aventurança sobrenatural, que é a visão de Deus pela essência, que se alcança pela graça e se desfruta na glória.
Qual a relação disto com os anjos? Veremos no próximo texto.
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