Os anjos são criaturas celestes. Mas do que falamos, quando dizemos que eles o são?
Há sempre uma multivocidade sobre o termo “céu”; podemos falar de céu: 1) como aquele espaço aéreo, ou mesmo interplanetário, acima de nossas cabeças. Podemos, também, referir-nos 2) àquele plano espiritual no qual ocorrem os pensamentos, os seres de razão, as ideias, enfim, aquilo que Descartes, em sua visão dualista, chama de “dimensão do espírito”, como oposta às extensões, que são as dimensões físicas. Por fim, podemos falar de céu como 3) a própria presença de Deus. Neste sentido, podemos defender que há um céu criado, material, na qual voam os pássaros e movem-se os astros, um outro céu imaterial, sem extensão, que comporta a vida espiritual, e um céu incriado, que é a própria presença da Trindade.
Os antigos, e mesmo os escolásticos, imaginavam o céu, no sentido espiritual, como, de certa forma, um “lugar”, um espaço espiritual que, embora imaterial, faz parte do cosmos. A esta realidade davam o nome de “céu empíreo”. E esta é a discussão aqui; se já sabemos que os anjos foram criados, se sabemos de certo modo quando foram criados, checou o momento de discutir onde foram criados – se é que a palavra “onde” pode ser utilizada aqui. Estariam eles no céu físico, ou seja, na atmosfera ou no espaço sideral? Estariam eles no céu da Trindade Santa? Ou estariam eles naquela dimensão espiritual que os antigos chamam de céu empíreo?
A hipótese controvertida, aqui, é a de que os anjos não teriam sido criados na esfera espiritual, esta mesma que os antigos chamavam de “céu empíreo”. Trata-se de provocar uma discussão sobre a localização dos anjos na criação. Que para nós, humanos, que sempre pensamos localmente, é muito difícil de conceber.
São três os argumentos objetores iniciais, no sentido desta hipótese controvertida.
O primeiro argumento lembra que os anjos são substâncias incorpóreas. Ora, prossegue, seres que não são corpóreos não estão vinculados a um lugar, quer para que sejam, quer para que venham a ser; ou seja, não há a possibilidade de estabelecer algum tipo de localização para os anjos no universo criado. Logo, conclui o argumento, não se pode dizer que os anjos foram criados em alguma dimensão espiritual que se pudesse chamar de céu empíreo.
O segundo argumento cita Agostinho, que teria afirmado, num dos seus escritos, que os anjos foram criados na parte mais elevada da atmosfera, ou seja, naquilo que chamamos de céu no sentido físico, mesmo. Ora, diz o argumento, se é assim, não poderíamos dizer que eles foram criados nalguma dimensão espiritual que se pudesse denominar de céu empíreo.
O terceiro argumento diz que o céu empíreo é chamado, muitas vezes, de céu supremo. Mas se os anjos fossem criados nele, não haveria sentido naquele trecho de Isaías (14, 13) em que se diz que o anjo pecador perdeu-se porque deliberou: “subirei ao céu”. Ora, se eles estivessem no céu supremo, não haveria sentido em dizer que ele pecou por querer “subir”, já que não haveria, para o anjo, como “subir” além do céu supremo. Disto, o argumento conclui que não se pode dizer que os anjos foram criados no céu empíreo.
O argumento sed contra cita a interpretação do monge Valfrido Estrabão que, comentando o Livro do Gênese, primeiro versículo, diz que o “céu” aqui mencionado não é a atmosfera, mas uma realidade espiritual, intelectual, que ele designou de “céu empíreo” ou “céu de fogo”, não por arder em chamas, mas por resplandecer de criaturas espirituais. Isto porque, uma vez criada esta esfera espiritual, ela foi imediatamente preenchida de anjos por Deus.
Colocados assim os termos do debate, vamos à resposta sintetizadora de Tomás.
Tomás lembra que, como vimos no artigo anterior, não há mais do que um universo criado. É este em que vivemos. Portanto, nosso universo abrange todas as realidades criadas, sejam elas materiais, intelectuais, formais ou espirituais.
Os anjos, diz Tomás, são estes entes imateriais, criaturas incorpóreas dotadas de personalidade, ou seja, providas de inteligência e vontade. Eles não foram criados isoladamente ou mesmo independentemente deste único universo em que vivemos. Ao contrário, foram criados para o universo, para presidi-lo e guiá-lo a Deus. Os anjos são, portanto, as forças que, com inteligência e liberdade, conduzem o universo físico ao seu fim. Ora, se elas conduzem o universo físico, e não são por ele conduzidas, temos que admitir que elas não estão localizadas no universo físico, não estão submetidas a ele, mas o submetem. Logo, estão numa dimensão mais elevada, criatural mas não física, a que alguns chamaram de céu empíreo ou céu supremo.
É preciso admitir esta dimensão espiritual, como fez Isidoro ao comentar Dt 10, 14, em que o texto bíblico diz que a Deus pertencem o céu e o céu dos céus, ou seja, tanto os espaços físicos vazios, como a atmosfera e o espaço interplanetário, quanto aquela dimensão na qual vivem as ideias, os entes de razão e os anjos, qualquer que seja o nome que se dê a ela. É nesta dimensão que os anjos foram criados.
Postos assim os termos da solução, é hora de enfrentar de novo as objeções iniciais.
O primeiro argumento diz que os anjos não dependem de algum lugar, no sentido físico, para existir ou vir a existir. Assim, aos anjos não se poderia apontar um lugar na criação, como se eles pudessem localizar-se nela.
De fato, diz Tomás, os anjos não foram criados num lugar corpóreo, geométrico, como se eles tivessem alguma extensão corporal que os pudesse localizar no espaço. Aliás, alguns teólogos e Padres da Igreja chegaram a defender que eles sequer foram criados junto com o universo físico (posição com a qual Tomás não concorda, mas respeita). No entanto, eles podem ser, de certa forma, localizados na estrutura da criação, porque existem por ela e para ela, relacionam-se com ela e não estão fora dela. Exercem seu poder sobre os entes corporais e os dirigem. É neste sentido que se diz que os anjos, embora espirituais, têm lugar na criação.
O segundo argumento menciona que Santo Agostinho afirmava que os anjos foram criados na parte superior da atmosfera, e quer colocá-los no mundo físico, não numa esfera espiritual.
Tomás responde que talvez Agostinho estivesse usando alguma analogia entre as esferas mais rarefeitas da atmosfera e a realidade espiritual dos anjos, ou mesmo estivesse fazendo menção aos anjos caídos após o pecado, ou mesmo à relação entre os anjos inferiores e a gestão das coisas materiais. Em todo caso, Tomás reafirma a sua posição de que os anjos estão no céu empíreo, isto é, na dimensão espiritual da criação.
Por fim, a terceira objeção lembra que, ao descrever o pecado dos anjos, Isaías (14,13) imputa-lhes a intenção de subir indevidamente ao céu. Logo, não faria sentido dizer que eles já foram criados num céu espiritual, supremo ou o que seja.
Tomás diz que a interpretação correta deste texto leva à conclusão de que eles estavam sendo acusados de querer subir até a altura da Santíssima Trindade, ou seja, ao céu incriado de Deus, e não à esfera espiritual da criação, na qual já estão. A pretensão de elevar-se a deuses constitui o pecado dos anjos caídos, não a pretensão de inserir-se na esfera espiritual em que já estão.
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