Na primeira parte do texto sobre este artigo, nós concluímos observando que Tomás registra as duas posições que há sobre este assunto; ele registra que, entre os Padres gregos, há uma respeitável opinião de que os anjos não foram criados na mesma oportunidade em que Deus criou o universo e tudo o que há nele. Mas esta não é a posição de Tomás. Ele defende como “mais provável”, ou seja, mais adequada aos dados revelados e àqueles trazidos pela razão, aquela posição que afirma que os anjos estão incluídos no todo da criação deste universo, e com ele foram criados, junto com todas as coisas visíveis.

De fato, diz Tomás, o universo é um cosmos, isto é, um todo em que as partes formam uma harmonia e são essenciais para o bem comum. Nenhuma parte é perfeita sem o todo, como o todo não se perfaz sem alguma das partes. Ora, diz Tomás, Deus fez o universo como um todo perfeito, porque suas obras são perfeitas (Dt 32, 4). Por isto, não faria sentido que os anjos não fossem parte deste mesmo universo, ou seja, não fossem um com a criação, mas formassem um núcleo à parte dela. Não faz sentido que exista mais do que uma universalidade das coisas criadas, portanto.

No entanto, diz Tomás, não se pode simplesmente ignorar a intuição de São Gregório Nazianzeno, que, como indicam tantos escritores eclesiásticos, defendeu o contrário. Tomás não ousa acusar o grande Gregório Nazianzeno de ensinar um erro ou heresia, embora não concorde com ele. Mas reputa que esta é uma opinião que se pode, perfeitamente, defender como reta, até pelo peso da ortodoxia do seu proponente. Isto mostra não somente a abertura de mente de Tomás, como o respeito que ele tem pela autoridade daqueles que o antecederam – sem temer, no entanto, dar sua própria opinião.

Colocados estes fundamentos, e partindo de sua própria opinião, Tomás enfrentará de novo as objeções iniciais. Ao final, de um modo bastante raro na Suma, ele registrará mais uma vez o respeito pela opinião contrária, e nos apontará uma maneira pela qual podemos interpretá-la com mais razoabilidade frente ao dado bíblico.

O primeiro argumento cita, justamente, Jerônimo e Damasceno registrando esta posição de que os anjos foram criados à parte, antes e fora da criação do universo material.

Tomás responde que trata-se de um registro, por estes dois grandes escritores eclesiásticos, daquela posição existente no mundo patrístico de língua grega 9com destaque para Gregório Nazianzeno) no sentido de que os anjos foram criados antes do mundo material. Posição que Tomás respeita, mas discorda.

O segundo argumento afirma que a natureza angélica é algo como um “ponto médio” entre a natureza divina e a natureza dos entes materiais; assim, ela teria sido criada num ponto equidistante entre a eternidade divina e o tempo do universo material.

Isto não é verdade, diz Tomás. Não pode haver ponto médio entre Deus e as criaturas, porque eles pertencem a esferas do ser diferentes entre si. Deus não está no universo, mas totalmente acima do universo. Por outro lado, os anjos são simples criaturas, não são algo como meio caminho entre deuses e criaturas. Eles fazem, portanto, parte do universo criatural, do qual Deus não faz parte. O argumento não procede.

Por fim, o terceiro argumento também parte da hierarquia dos seres, mas desta vez fazendo uma comparação, proporcional, entre as próprias criaturas. Os anjos estão mais distantes da natureza dos entes materiais do que os diversos gêneros de entes materiais estão distantes entre si, diz o argumento. Uma pedra, inanimada como é, por exemplo, estaria mais próxima da natureza humana, digamos, do que a natureza humana está dos anjos. Ora, prossegue o argumento, o relato de criação do Livro do Gênese divide a criação dos entes materiais, classificando-o em “dias”, porque reconhece que aquilo que é diverso não foi criado simultaneamente. Portanto, conclui o argumento, uma vez que os anjos são extremamente diversosdos entes materiais, eles não teriam sido criados nos seis dias, mas separadamente.

Não é assim, diz Tomás. De fato, todas as criaturas materiais têm em comum, entre si, a matéria; assim, a sua criação implica a concriação da matéria, e explica a ideia de que a criação do universo não findou até que toda a matéria estivesse criada, nos seis dias. Por outro lado, o relato marca que “no princípio” Deus criou o céu e a terra. Não faria sentido, pois, postular uma “criação dos anjos” em separado do universo material, porque, com isto, o relato bíblico não estaria correto ao mencionar um “princípio” da criação se já houvesse um trabalho anterior de criação daquelas criaturas que são incorpóreas. Por isto, é no mesmo contexto criador que todas as coisas, corpóreas e incorpóreas, foram criadas, diz Tomás.

No entanto, diz Tomás, para aqueles que adotam as posições de Gregório Nazianzeno, com as quais Tomás não concorda, mas respeita, é preciso que este argumento não seja um óbice intransponível para sustentá-la. Assim, Tomás concede que esta passagem, que trata do “princípio”, poderia referir-se ao “princípio estruturante” da criação, que é o Filho, ou mesmo ao princípio do tempo cronológico, ao qual os anjos não estão submetidos. Tomás, portanto, é elegante o suficiente para dar espaço de sustentação à teoria com a qual discorda, fornecendo até mesmo uma hermenêutica bíblica capaz de dar-lhe sustento.