Estabelecido, nos dois artigos anteriores, que os anjos são criaturas e que eles passaram a existir num determinado momento, o presente artigo quer debater, agora, que momento é este. Parece claro que os anjos foram criados com alguma prioridade com relação a toda a criação; de fato, eles receberam, em sua inteligência, as razões de todas as coisas criadas, então faz sentido que tenham sido criados de uma maneira tal que pudessem testemunhar toda a história e mais, colaborar com o governo do universo.

A dúvida, portanto, é se foram criados antes que a criação material sequer fosse iniciada, ou seja, num momento não relacionado com o universo material, ou se foram criados quando iniciou-se a criação do universo, e portanto fazem parte da história da criação deste universo.

Isto parece uma questão pouco importante, ou mesmo relacionada com uma visão de mundo que, para nós, parece ultrapassada. Mas não é. De fato, estes seres incorpóreos e inteligentes são, na verdade, parte da visão de fé: o universo não é governado por forças cegas, como às vezes a ciência moderna as descreve, mas por inteligências que entendem perfeitamente o que estão fazendo e porque o fazem, e agem para a uniformidade do universo a partir da compreensão de que tudo deve se mover em Deus e para Deus. Do ponto de vista fenomenológico, não haveria diferenças entre o modo pelo qual o universo se rege, mas do ponto de vista da fé faz toda diferença: o universo não é um campo neutro de forças físicas, mas uma grande sinfonia inteligente de amor. Mas voltemos ao tema do artigo.

A hipótese controvertida aqui é a de que os anjos não foram criados quando da criação do universo material, mas à parte, antes que o mundo material começasse a ser criado. São três os argumentos objetores, no sentido desta hipótese inicial.

O primeiro argumento vai buscar um antigo debate patrístico sobre a criação dos anjos. Ninguém menos do que Jerônimo, que afirmava que, embora se possa resgatar uns seis mil anos de história humana, ninguém pode computar os séculos dos séculos nos quais anjos, tronos e dominações serviram a Deus. É claro que Jerônimo falava sem os conhecimentos que temos hoje em dia sobre o tempo de existência do universo; no entanto, não há dúvida de que ele favorecia a ideia de que a criação dos anjos precede a história do universo material. Mas o argumento resgata ainda uma citação que o Damasceno faz de Gregório, no qual o Padre da Igreja afirma que primeiro Deus pensou os anjos e virtudes angelicais, e este pensamento já implicou a própria criação deles. Assim, o argumento conclui que os anjos não foram criados junto com o universo material, mas antes dele, num ato isolado e próprio.

O segundo argumento afirma que, na noção de hierarquia do ser, o ser dos anjos seria como que um ponto médio entre o ser de Deus e o ser das coisas materiais. Assim, eles teriam sido criados também nalgum ponto médio entre o tempo e a eternidade, ou seja, para além do tempo, conclui o argumento.

O terceiro argumento lembra que os anjos estão mais distantes de qualquer ente corpóreo do que um ente corpóreo com relação a outro. Ora, diz o argumento, mesmo as coisas corpóreas não foram feitas simultaneamente, mas criadas progressivamente, naquilo que o relato do Gênese nomeia de “seis dias”. Ora, conclui o argumento, se mesmo as coisas corpóreas não foram criadas simultaneamente, há ainda mais razão para defender que os anjos não foram criados no mesmo compasso temporal que o mundo material, mas num momento completamente diferente em natureza.

O argumento sed contra vai citar a Bíblia. Ele lembra que no Livro de Gênese, 1,1, o relato começa dizendo: “No princípio Deus criou o céu e a terra”. Ora, diz o argumento, isto não seria verdadeiro se Deus já houvesse criado alguma coisa antes, ainda que fossem os anjos. Logo, conclui o argumento, os anjos não foram criados separadamente da criação de natureza material.

Em sua resposta sintetizadora, Tomás vai concordar com o argumento sed contra, mas ressalvando que esta não é uma posição unânime entre os Padres da Igreja, em especial entre os Padres de tradição grega. Tomás não teme adotar firmemente sua própria posição, que é a de que os anjos foram criados junto com a história do mundo material, ou seja, na ocasião descrita no Livro do Gênese. Mas registra a posição divergente com todo o respeito.

No próximo texto veremos a resposta de Tomás em detalhe.