Vimos, no artigo anterior, que os anjos são criaturas, isto é, entraram na existência por um ato criador de Deus.

A discussão agora é a respeito de quando isto aconteceu. De fato, sabemos (e a física de hoje confirma) que o tempo é um fenômeno material. Mas os anjos são essencialmente inteligências imateriais. Já vimos, aliás, em outras passagens da Suma, que eles não estão, a rigor, sujeitos ao tempo cronológico, embora estejam sujeitos ao tempo como sucessão de eventos. Os anjos não são oniscientes, têm que lidar com os eventos em sua sucessão temporal.

Com isto surge um problema, que será debatido aqui: se eles não estão submetidos ao tempo (cronologicamente falando), como podemos falar de um “quando” para marcar o início de sua existência? Ou seja, se eles foram criados e não estão submetidos ao tempo, quando, então, surgiram?

A hipótese controvertida, aqui, é a de que não se pode demarcar um momento no tempo para o início da existência dos anjos; vale dizer, a hipótese é a de que eles foram criados por Deus na eternidade, ou seja, desde sempre existem.

São três os argumentos objetores, no sentido desta hipótese controvertida inicial.

O primeiro argumento lembra que Deus é simples, isto é, não há separação entre o seu ser, o seu querer e o seu agir. Assim, diz o argumento, o agir de Deus não é algo que se acrescenta ao seu ser mesmo, mas coincide com ele. Ora, se Deus é eterno e é criador dos anjos, então esta criação deu-se na eternidade e os próprios anjos são eternos, também, conclui o argumento.

O segundo argumento diz que, quando afirmamos que alguma coisa “nem sempre existiu”, estamos medindo sua existência pelo tempo, em razão de um marco temporal para o “antes” e o “depois” de sua existência. Mas, como lembra o próprio Livro das Causas, o anjo não está submetido ao tempo. Ora, se ele não está submetido ao tempo, não existe um “antes” e um “depois” para o início de sua existência, diz o argumento. Assim, conclui que os anjos sempre existiram.

Por fim, o terceiro argumento lembra que Santo Agostinho, na obra “De Trinitate”, prova que a alma humana não é destruída pela morte, mas permanece eternamente, porque é capaz de alcançar a verdade, ou seja, a verdade fica inscrita nela, e a verdade é eterna. Ora, diz o argumento, o anjo é uma substância intelectual; logo, a verdade está inscrita nele desde sempre e para sempre. Diferentemente de nós, humanos, que temos um corpo para inserir-nos no tempo, os anjos são puras formas, e a verdade está inscrita na sua natureza desde da sua criação, sendo-lhes, portanto, conatural. Disto tudo o argumento conclui que, sendo conaturais com a verdade, os anjos participam de sua eternidade, e portanto não têm um marco inicial: existem, como a verdade, desde sempre e para sempre.

O argumento sed contra cita as Escrituras. No Livro dos Provérbios, 8, 22, a respeito da sabedoria gerada, diz-se que “o Senhor me possuía desde os princípios dos seus caminhos, antes mesmo que ele criasse alguma coisa”. Ora, que os anjos foram criados já restou provado no artigo anterior. Logo, há um “antes” da criação dos anjos, marcado pelo fato de que o Senhor já gerara a sabedoria desde a eternidade, mas ainda não criara os anjos. Logo, conclui, os anjos não existem desde a eternidade.

Postos os termos do debate, São Tomás nos oferecerá sua resposta sintetizadora.

Somente Deus, nas pessoas do Pai, do Filho e do Espírito Santo existem desde sempre e para sempre, diz Tomás. Ensinar o contrário, ou seja, que alguma criatura existe eternamente, seria herético, porque romperia o claro limite entre Deus e suas criaturas. Deus cria do nada, isto é, faz existir aquilo que antes não existia. Há, portanto, claramente um início para o existir das criaturas, ou seja, quando elas são chamadas à existência por Deus, ali onde nada havia.

Resposta curta, simples e clara. Suficiente para fornecer o rumo com o qual Tomás revisitará os argumentos objetores iniciais, esclarecendo-os.

O primeiro argumento diz que, na simplicidade divina, seu ser é igual a seu querer e seu agir, não havendo diferença entre eles. Logo, ele é, quer e age desde a eternidade. Se criou os anjos, portanto, ele o fez desde a eternidade, dada a sua indivisibilidade. Disto o argumento conclui que os anjos são eternos.

Sim, diz Tomás, não há em Deus diferença real entre o ser e o querer. Mas isto não significa que Deus quer e age apenas como ele é, ou seja, que ele quer e age desde sempre e para sempre. Deus age sempre pessoalmente, e seu querer pode implicar criar aquilo que não é eterno, sem que isto seja contraditório ou implique alguma divisão em Deus. Assim, por ter um querer, Deus pode querer agir, naquilo que não é necessário em razão de sua própria natureza divina, de modo temporal, contingente e sucessivo. E isto ocorreu com os anjos também: ele os quis desde a eternidade, mas agiu para criá-los quando e como quis, no tempo.

O segundo argumento objetor diz que aquilo que passa a existir tem um antes e um depois temporal. Mas o anjo está fora do tempo, logo não há um antes em que ele não existiu. Ou seja, ele existe desde sempre.

Sim, de fato o anjo não está sujeito ao tempo no sentido material, cronológico mesmo, do termo; ou seja, o anjo não se move como se movem as coisas materiais. Mas o anjo, sendo criatura, está sujeito à sucessão de eventos da história; ele não tem todos os eventos presentes simultaneamente a ele, como Deus tem. Ou seja, mesmo para o anjo há um antes e um depois, no sentido do suceder dos fatos históricos que ele testemunha e mesmo participa. Para os anjos, portanto, há um antes e um depois, e portanto pode-se falar num momento em que eles ainda não existiam e, portanto, um momento em que foram criados e passaram a acompanhar e participar da sucessão de eventos que se chama história.

Por fim, o terceiro argumento diz que a conaturalidade da alma com a verdade, que é eterna, prova, no caso dos humanos, que a alma é incorruptível, e portanto, uma vez criada, permanece para sempre. Ora, os humanos têm o corpo para inseri-los num começo. Mas os anjos são criados já com a verdade inscrita em sua inteligência; logo, são eternos, sem começo nem fim, conclui o argumento.

Sim de fato anjos e humanos têm uma natureza capaz da verdade, que é incorruptível; e portanto nós e os anjos somos incorruptíveis como ela. Mas isto não significa que somos existentes desde a eternidade, como a verdade. Começamos a existir quando Deus nos quis criar; a verdade, no entanto, é um transcendental do ser, e existe eternamente no próprio Deus. Nós somos criaturas. A verdade, não.