Os anjos não são. Só Deus é. Os anjos existem, isto é, são criados, chamados a participar do ser.

Para tornar mais clara a noção de “participação no ser“, tão essencial para Tomás, ele usa o exemplo do fogo: imaginemos um fogo que fosse o calor absoluto em si mesmo. Ele seria a perfeição do fogo, aquele fogo a quem nada falta em calor. Todos os outros fogos que existissem seriam participantes deste calor, com graus diferentes de participação. Assim, um fogo aceso no álcool, por exemplo, é menos quente do que uma fornalha de carvão mineral. Portanto, podemos dizer que a combustão do álcool participa menos intensamente da natureza do fogo do que a combustão do carvão mineral.

Ora, Tomás nos apresenta, aqui, outra noção caríssima a ele: aquilo que é por participação tem seu fundamento naquilo que é por essência; se houvesse o fogo absoluto, cada outro fogo seria uma participação mais ou menos intensa na sua natureza. No caso da existência, o ser das criaturas e no caso aqui debatido, o ser dos anjos, que é participado, tem seu fundamento causal no ser de Deus, isto é, eles recebem de Deus sua existência. Em suma, uma vez que os anjos não têm a existência por essência, necessariamente são causados no ser, chamados a ser, isto é, criados por Deus.

Havendo colocado os termos para solucionar o problema, Tomás passa a responder aos argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento objetor afirma que os relatos bíblicos de criação não mencionam os anjos. Logo, conclui, eles não foram criados por Deus.

Tomás recorre aqui a Santo Agostinho, para responder a esta objeção. Na obra “Cidade de Deus”, livro XI, Agostinho nos ensina que os relatos bíblicos de criação do livro do Gênesis não omitem completamente os anjos, mas os mencionam implicitamente logo na abertura, quando se conta que “No princípio Deus criou o céu e a terra“, e quando ele diz: “faça-se a luz“. De fato, ensina Agostinho, os relatos de criação do Gênesis deixam de mencionar expressamente os anjos, ou optam por envolvê-los nos relatos da criação das coisas corpóreas, em razão da própria pedagogia da Revelação. De fato, pela pouca formação do povo que foi destinatário destes primeiros relatos, a existência de entes incorpóreos inteligentes seria algo muito difícil de assimilar, com um grande risco, inclusive, de serem tomados por deuses, levando o povo a uma idolatria que a Revelação buscava, justamente, extirpar. No percurso desta mesma pedagogia da Revelação, porém, a natureza criatural dos anjos seria gradativamente manifestada, como vimos no salmo 148.

O segundo argumento lembra que Aristóteles afirmava que, se houvesse uma substância que fosse forma sem matéria, teria, imediatamente, em si mesma, o ser e a unidade, e não terá causa que a faça existir e ser una. Daí o argumento conclui que os anjos não são causados, não são chamados a existir, mas existem desde sempre.

De fato, para que uma criatura seja produzida ou reproduzida, ela deve ser material. Não pode haver reprodução, sexuada ou assexuada, de um ser imaterial. No entanto, no caso dos anjos, o poder criador de Deus pode conceder-lhes a existência total, substancial, a partir do nada. Não se trata, pois, nem de produção, nem de reprodução, mas de criação, ou seja, de recepção do ser por participação diretamente das mãos de Deus.

Por fim, o terceiro argumento diz que aquilo que é feito recebe sua forma do respectivo agente que o faz. O arquiteto organiza os materiais de construção em forma de casa, como o escultor desbasta a rocha até que ela adquira a forma, digamos, de Moisés. Mas os anjos são puras formas, eles não têm algum substrato que pudesse receber sua forma. Logo, eles não são feitos, conclui o argumento.

A resposta a esta objeção pode ser deduzida de tudo quanto se disse acima. De fato, os anjos não são feitos, nem reproduzem, mas são criados, ou seja, trazidos do nada à existência por Deus. São seres formais cuja existência é um chamado de Deus.