Os seres vivos materiais podem reproduzir-se. Mas anjos não o podem. Como surgem, então, os anjos?

Trata-se de um debate importante. De fato, vamos partir da chamada teoria clássica das “quatro causas” para estudar os anjos. Como sabemos, as quatro causas são: a causa material, a causa formal, a causa eficiente e a causa final.

]Podemos notar, de logo, que os anjos não são providos de matéria. Logo, a eles não se aplica a causa material. Além disso, não surgem por reprodução, e assim é muito difícil, senão impossível, atribuir a eles uma causa eficiente. Restaria a causa formal, uma vez que são pura forma, e a causa final. Mas, como eles não surgem por reprodução ou fabricação, sua causa formal não tem origem na realidade criatural.

Por fim, eles já têm inscrito em sua inteligência as razões de tudo o que existem. Não são, pois, seres que possam aperfeiçoar-se. Parecem não ter causa final na realidade criada, também. Como podemos, então, atribuir criaturalidade a seres que dificilmente poderiam ser enquadrados na teoria das quatro causas?

Eis o risco a que estamos submetidos sempre: o risco de deificação dos anjos. Se eles não forem criaturas, será que são deuses? É este risco, o de imaginar que os anjos são deuses, que devemos afastar com muito cuidado e com muita clareza. É isto que esta questão 61 visa.

A hipótese controvertida inicial, proposta para iniciar o debate, aqui, diz respeito àquilo que as criaturas têm de mais profundo, de mais radical: a existência. De fato, existir, em sua etimologia, significa “ser chamado a ser“. Neste sentido preciso, não poderíamos dizer que “Deus existe“, porque ele não foi “chamado a ser“; ele simplesmente é, porque sempre foi e sempre será. As criaturas, porém, não têm em si mesmas a razão de ser: elas são trazidas à existência por um dom, um chamado de Deus. Mas e quanto aos anjos? Parece que os anjos não são chamados por Deus ao ser, diz a hipótese controvertida inicial. Eles simplesmente estariam no ser desde sempre e para sempre.

São três os argumentos objetores iniciais, no sentido desta hipótese.

O primeiro argumento objetor afirma que as Escrituras mencionam pormenorizadamente a Criação, nos dois primeiros capítulos do Livro do Gênesis. Mas em nenhum momento faz qualquer menção a anjos. Portanto, conclui o argumento, eles não foram criados por Deus.

O segundo argumento objetor vai na linha filosófica. Ele lembra que, segundo Aristóteles (que, como já sabemos, Tomás chama simplesmente de “o” Filósofo”), no Livro VIII da Metafísica, se alguma substância fosse pura forma sem matéria, “ela teria o ser e a unidade diretamente por si mesma, ou seja, não haveria causa para seu ser e sua unidade“. Ora, diz o argumento, já sabemos que os anjos são substâncias puramente formais, sem matéria alguma, como aprendemos na questão 50, artigo 2, desta Primeira Parte da Suma. Logo, conclui o argumento, eles não têm uma causa de existir.

O terceiro argumento afirma que aquelas coisas que são feitas ou produzidas por algum agente recebem dele a sua forma. Fazer ser, portanto, é impor a forma a algum substrato, de modo a que ele passe a existir como substância. Mas os anjos são substâncias puramente formais; logo, não poderiam ter “recebido” a forma pela qual eles são. Disto tudo, o argumento conclui que eles não foram feitos, isto é, não foram trazidos à existência por algum agente.

O argumento sed contra cita as Escrituras, que, no Salmo 148, 2, diz: “Louvai-o, todos os seus anjos“; mais adiante (versículo 5), o próprio Salmo acrescenta: “pois ele mandou, e foram criados“. Logo, conclui o argumento, os anjos são criados por Deus para existir.

Colocados os termos do debate, São Tomás passa a oferecer sua resposta sintetizadora.

Somente Deus é. Somente ele não tem causa para o seu ser, porque simplesmente é. Todas as outras coisas são chamadas por ele a ser, ou seja, todas as coisas existem porque ele as criou. Deus é o próprio ser. As outras coisas que não são Deus participam do ser, mas não são o ser. A sua essência, ou seja, aquilo pelo qual elas existem, é chamada a ser por Deus. Somente em Deus a própria essência é o ser; poderíamos dizer simplesmente que em Deus, ser e existir é a mesma coisa.

Os outros seres não têm esta identidade entre ser e existir. Neles, há, pelo menos, dois elementos: a essência, que determina o que eles são, e a existência, que faz com que eles efetivamente participem do ser, ou seja, existam.

No próximo texto estudaremos esta ideia de participação no ser, e as respostas de Tomás às objeções iniciais.