No texto anterior, Tomás ofereceu sua resposta sintetizadora sobre o tema em debate, ou seja, sobre o amor natural dos anjos por Deus. Ele usou a analogia com aqueles entes inanimados que deixam de existir pelo bem do todo, ou mesmo de seres vivos que sacrificam-se pela coletividade, como formigas e abelhas. Citou ainda a possibilidade de que, em nome da convivência civil, o homem seja chamada dar sua vida pelo bem da comunidade, como no caso dos soldados e policiais; esta faceta da vida civil, diz ele, reflete uma base natural de que o bem comum pode exigir o autossacrifício individual. Ora, diz ele, Deus é o bem universal; todas estas instâncias mostram, portanto, que o amor por ele pode superar o instinto de autoconservação, mesmo na instância natural. Assim, ele conclui que o amor natural dos anjos por Deus supera o amor-próprio, e é sobre esta estrutura que o amor de caridade, concedido por graça, pode construir-se.

Havendo colocado os termos da solução do debate, Tomás passa a examinar os argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento diz que o amor natural fundamenta-se na unidade da similitude entre dois seres: quanto mais similares, mais são amados naturalmente. Mas Deus, sendo Deus, não guarda similaridades com os anjos, simples criaturas. Logo, não haveria fundamento para dizer que os anjos amam a Deus por amor natural mais do que amam a si próprios.

Se compararmos seres da mesma ordem, ou seja, criaturas com criaturas, o argumento objetor tem fundamento, diz Tomás. Nenhuma criatura pode amar a outra com amor natural mais do que ama a si mesma, pelo simples fato de que é mais similar a si mesma do que a qualquer outra criatura.

Mas Deus não está na mesma ordem das criaturas. Ele está numa ordem muito superior, de fundamento de todo o ser e de toda a bondade que as próprias criaturas têm. Ora, sendo ele o bem absoluto e o fundamento de todo bem, é perfeitamente razoável que as criaturas o amem mais do que a si mesmas; como já vimos, mesmo analogicamente, há razão para defender que o bem comum é mais amado pelas criaturas do que a própria sobrevivência individual; muitas vezes em prol da sobrevivência da espécie ou do núcleo. Com muito mais razão aquele que é o próprio bem é mais amado naturalmente pelo anjo do que ele próprio.

O segundo argumento diz que o efeito não pode ser maior do que a causa. Ora, se a causa de todo amor natural é o amor-próprio, não haveria lógica em admitir que algum amor natural pudesse ser maior do que o amor-próprio, diz o argumento. Assim, ele conclui que o amor natural por Deus, no anjo, não pode ser maior do que o amor-próprio.

Isto tem que ser muito bem entendido, diz Tomás. Se entendemos que o anjo ama a Deus por causa do bem do anjo, ou seja, enquanto Deus é bom para o anjo, então a objeção procede; o anjo só amaria Deus naturalmente porque Deus seria bom para ele, e portanto, no fundo, ele amaria mais a si mesmo do que a Deus. Mas ele não ama Deus apenas por reconhecê-lo “bom para si” em algum grau. Ele o ama simplesmente por ser Deus, por ser o bem absoluto, e porque está em toda natureza atrair-se naturalmente para o bem absoluto mais do que a qualquer outro bem, inclusive o amor-próprio, que não são o bem no sentido absoluto do termo. Se o bem atrai naturalmente, o bem absoluto deve atrair naturalmente muito mais do que os bens limitados, criaturais.

O terceiro argumento afirma que é próprio do amor natural refletir-se sobre si mesmo, uma vez que a inclinação mais fundamental em todo ser é a autoconservação. Ora, se houvesse um amor natural maior do que o amor-próprio, a autoconservação não seria a inclinação mais fundamental. Logo, os anjos não podem amar a Deus mais do que a si mesmos por amor natural, diz o argumento.

Sim, de fato o amor natural é uma inclinação reflexiva, diz Tomás. A natureza se reflete sobre si mesmo, reconhecendo-se como boa e inclinando-se ao amor-próprio. Mas não é somente a natureza individual, em sua singularidade, que gera esta reflexão de amor. Também aquilo que é comum com as outras naturezas, como a conservação das espécies ou da comunidade, geram esta reflexão. O amor não é um movimento individualista!

Ora, conclui Tomás, se as realidades comuns como a espécie ou a comunidade são capazes de gerar esta reflexão, inclusive mais intensamente do que a autoconservação, com muito mais razão a natureza levará a uma inclinação para o bem universal, absoluto, que é Deus, acima da autoconservação individual.

O quarto argumento diz que amar a Deus sobre todas as coisas é uma graça, e se chama caridade. Ora, se é graça, não pode ser natural. Logo, conclui, os anjos não podem, apenas por amor natural, amar a Deus mais do que a si mesmos.

Tomás dirá que há, aí, uma distinção a ser feita; como bem universal, que é fundamento de existência de todo ente, de toda criatura, ele é amado por amor natural. Mas como bem que salva, que dá a felicidade plena e eterna, ele é amado por amor de caridade, que, como vimos na resposta sintetizadora, edifica-se sobre o amor natural, elevando-o sem destruí-lo. Uma coisa, pois, não exclui a outra.

O quinto argumento diz que aquilo que é natural não pode ser eliminado. Permanece mesmo contra ou sem a vontade do respectivo ente. Ora, prossegue o argumento, tanto os anjos maus, quanto os homens em pecado mortal, eliminaram de si o amor a Deus maior do que o amor-próprio. Logo, conclui o argumento, este amor pode ser eliminado, e então não pode ser natural.

Em Deus não há divisões nem composições, lembra São Tomás. Nele, o que ele é, ou seja, sua substância divina maravilhosa, é idêntico ao bem universal que está nele.

Assim, aqueles que alcançam a santidade pela graça são capazes de ver o próprio Deus, em sua essência maravilhosa, e são atraídos a ele como alguém em si mesmo, como distinto de todas as criaturas e como ele é. E, uma vez que ele é o bem absoluto, é impossível que quem o veja não o ame completamente, muito mais do que a si mesmo ou do que qualquer criatura. Assim, os bem-aventurados, anjos ou seres humanos, sabem o que amam e amam o que conhecem.

Mas os réprobos, anjos ou seres humanos, não são capazes de ver a Deus em si mesmo, mas apenas de modo indireto, contemplando os efeitos de sua bondade na criação. Por isto, embora amem de modo natural o bem absoluto que é Deus, são capazes de eleger contra Deus, contrariando sua vontade, exatamente porque, não o vendo diretamente, não lhes é impossível desprezar a vontade de Deus e escolher a sua própria. Este desregulamento moral não retira a verdade ontológica do amor natural por Deus acima do amor-próprio, apenas lhe desvirtua os efeitos. Assim, como convive, nos réprobos e nos pecadores, o amor natural ao bem absoluto acima de todas as coisas e a possibilidade de escolher moralmente contra Deus, é possível imaginar as consequências nefastas desta distorção. O sofrimento de jamais completar sua natureza, de ser eternamente incompleto, de jamais chegar ao repouso da felicidade. Uma verdadeira maldição. É isto que muitas vezes não enxergamos hoje: desprezar Deus não o afeta: afeta a nós mesmos.