Será que os anjos amam, por amor natural, mais a Deus do que a si mesmos? Vimos, no último texto, a hipótese controvertida de que eles não amam a Deus, naturalmente, mais do que a si mesmos. São cinco argumentos no sentido desta hipótese. O primeiro argumento diz que o amor natural fundamenta-se na similaridade que une, e não há similaridade entre a natureza dos anjos e a de Deus. O segundo diz que, se a causa de todo amor natural por outro ser é o amor-próprio, não pode haver um amor natural por outro ser, ainda que seja Deus, que seja maior do que o amor-próprio, porque o efeito não pode ser maior do que a causa. O terceiro diz que se o amor a Deus fosse naturalmente mais intenso do que o amor-próprio, a autopreservação não seria o efeito mais poderoso do amor natural. O quarto diz que o amor a Deus é uma virtude teologal, e portanto é sobrenatural e não natural, e o quinto, finalmente, diz que aquilo que é natural jamais pode ser suprimido por opção do ente; mas o amor a Deus é suprimido nos anjos caídos; logo, não é natural. Por fim, o argumento sed contra afirma ue há um mandamento da lei mosaica de “amar a Deus sobre todas as coisas”; ora, os mandamentos da lei mosaica são lei natural, logo descrevem uma inclinação natural. Daí o argumento conclui que o amor a Deus sobre todas as coisas é natural.
Defrontado com esta hipótese controvertida e com os argumentos contra e a favor, Tomás passa a dar sua própria resposta sintetizadora.
Para entender a resposta de Tomás, precisamos lembrar que o amor de amizade ocorre quando um ente, amando outro, ama-o reconhecendo a bondade substancial do outro e desejando o bem para o outro.
O amor de concupiscência ocorre quando o ente que ama vislumbra, no outro, alguma vantagem para si, então inclina-se para o outro desejando ter vantagem para si mesmo, porque reconhece no outro algum bem acidental que favorece ao que ama. É neste sentido que um faminto não ama o alimento com amor de amizade, mas com amor de concupiscência.
Tomás lembra que alguns estudiosos defenderam que, de fato, o anjo é, naturalmente, inclinado a amar a Deus mais do que a si mesmo, mas não com um amor de amizade, senão com um amor de concupiscência. O anjo veria quão grande é o bem que Deus pode fazer para si (anjo), maior do que qualquer bem que poderia fazer para si mesmo, e deseja naturalmente apossar-se do bem divino em sua própria vantagem, mais até do que deseja viver e aperfeiçoar seus próprios bens, apenas porque percebe que o bem divino é muito mais desejável do que quaisquer bens que fossem naturalmente seus.
Outros, ainda, afirmaram que poderíamos dizer que o anjo ama a Deus mais do que a si mesmo por amor de amizade apenas no sentido de que ele sabe que Deus é Deus, logo, qualquer que seja o bem que deseja a si mesmo, o bem que deseja a Deus é sempre maior do que o bem que deseja a si mesmo, porque qualquer bem que haja em sua natureza é um bem criatural, enquanto o bem de Deus é um bem divino, e portanto um bem maior. Assim, estes diriam que o anjo naturalmente ama mais a Deus do que a si mesmo, por amor de amizade, porque sabe que qualquer bem que deseje para Deus é um bem divino, enquanto o bem que deseja para si mesmo é criatural. Mas, ainda que comparativamente o bem divino seja maior do que o criatural, dizem estes, subjetivamente o amor-próprio do anjo, do ponto de vista absoluto, ou seja, em si mesmo, seria maior do que seu amor natural por Deus.
Mas não se trata disto. Ambas as opiniões são equivocadas, diz Tomás.
Vamos considerar, em primeiro lugar, a inclinação natural das coisas inanimadas. Uma vez que eles não possuem vontade, eles não conseguem resistir às suas inclinações naturais, e isto pode nos dar uma boa pista sobre elas.
De fato, diz Tomás, mesmo nas coisas inanimadas, há uma inegável inclinação para a autoconservação; as coisas tentem a continuar sendo aquilo que elas naturalmente são. Há, porém, uma inegável inclinação para o bem do todo. De fato, vemos, a cada momento, coisas sendo aniquiladas em razão de suas inclinações naturais, em razão do bem do todo. E mesmo entre as coisas vivas esta inclinação existe, e vence a inclinação para a autopreservação individual, quando o bem do todo é a própria razão de ser da coisa. . Vemos, por exemplo, formigas morrendo pelo bem do formigueiro, ou abelhas morrendo pelo bem da colmeia.
Também nas inclinações culturais, não naturais, vemos esta tendência. As inclinações culturais ou construídas tendem a acompanhar a natureza, diz Tomás. É assim que as cidades demandam, muitas vezes, de seus habitantes, que exponham sua própria vida pelo bem da sociedade, como no caso dos soldados e policiais. Ou seja, civilmente podemos ser chamados a amar mais a sociedade política do que nossa própria sobrevivência. O bem comum da convivência social leva a isto.
Prosseguindo neste raciocínio, Tomás lembra que Deus é o próprio bem universal. Ele é a causa primeira e o fim último de tudo quanto existe. Isto inclui também o anjo. Toda criatura, pois, vem de Deus e vai para Deus, e encontra em Deus a razão e o fundamento da sua existência. Por isto, de modo análogo àquele pelo qual a gota de água se dissolve no oceano, ou a formiga coloca o interesse do formigueiro acima de sua sobrevivência individual, também o anjo inclina-se naturalmente a amar aquele que é o fundamento mesmo de sua existência mais do que a si mesmo. Pode-se, portanto, afirmar, sem medo de errar, que o anjo ama a Deus, por amor natural, mais do que ama a si mesmo.
Como sabemos, diz Tomás, a graça não destrói a natureza, mas a aperfeiçoa. Assim, é por sobre este amor natural que a graça pode construir a virtude teologal da caridade, que leva o ente a amar a Deus não somente com amor natural, mas com o próprio amor com que Deus se ama. Ou seja, com a caridade.
No próximo texto veremos as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.
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