Debatemos, então, o amor natural, o amor eletivo, o amor-próprio e o amor natural aos outros, nos anjos. Neste último artigo, bastante longo, o debate diz respeito ao amor que os anjos têm por Deus. A hipótese controvertida é a de que os anjos não têm um amor natural por Deus que seja maior do que o amor que têm por si mesmos, isto é, a hipótese é a de que os anjos não amam a Deus mais do que a si mesmos. É um debate bastante interessante, uma vez que amar a Deus mais do que a si próprio é, à primeira vista, um mandamento revelado, e portanto poderia parecer que não se trata de uma característica que pudesse apresentar-se naturalmente numa criatura. E é esta exatamente a hipótese controvertida.

Serão cinco os argumentos objetores, no sentido desta hipótese inicial.

O primeiro argumento alega que a inclinação natural fundamenta-se na união natural, como foi visto no artigo anterior. É preciso que haja alguma similaridade entre os entes, algo que, nas respectivas naturezas, os unifique, gerando um amor natural. É assim que familiares, concidadãos, seres da mesma espécie, do mesmo gênero ou, até mesmo, entes que compartilham simplesmente o fato de terem sido trazidos à existência amam-se na medida da similaridade. Mas entre os anjos e Deus não existe nenhuma similaridade deste tipo; a natureza divina distancia-se ao máximo de qualquer natureza criada, inclusive a natureza angélica. Assim, não existe a possibilidade, conclui o argumento, de que o anjo ame a Deus, por amor natural, mais do que ama a si mesmo. Nem sequer que ame a Deus, por amor natural, mais do que ama outro anjo.

A segunda objeção lembra que aquilo que está no efeito, deve estar ainda mais contido na causa. Então, prossegue o argumento, se a causa de todo amor natural que o anjo tem por outro ente é o seu amor-próprio, na medida em que ele reconhece algum bem para a sua natureza naquele ente amado, então o amor natural do anjo por Deus deve ser efeito do amor-próprio do anjo, e portanto não pode ser maior que este; o efeito não pode ser maior que a causa. Logo, o argumento conclui que o anjo não ama naturalmente a Deus mais do que a si mesmo.

O terceiro argumento diz que a força de inclinação natural que qualquer ente tem é sempre o da autoconservação, ou seja, a inclinação mais forte de qualquer ente é buscar a sua própria preservação. Uma vez que a própria preservação é um bem que está no próprio ente, fica claro que o amor natural mais intenso deve ser reflexivo, ou seja, deve incidir sobre si mesmo; se o amor por outro ente fosse maior do que o amor por si mesmo, a inclinação para a autopreservação não seria a inclinação mais poderosa. Logo, o argumento conclui que o anjo não pode amar naturalmente a Deus mais do que a si mesmo.

O quarto argumento lembra que a caridade, ou seja, o amor a Deus sobre todas as coisas, do qual decorre o amor aos outros na medida do amor de Deus, é uma virtude teologal, e que, portanto, não é natural nem mesmo nos anjos; decorre da graça de Deus infundida no mais profundo do ser angelical pelo Espírito Santo, como aliás atesta Agostinho num dos seus escritos. Ora, deduz o argumento, se este amor é uma graça sobrenatural, ele não poderia ser um amor natural. Logo, conclui, o anjo não pode amar mais a Deus do que a si mesmo por amor natural.

O quinto argumento lembra que aquilo que é natural não pode ser destruído ou eliminado em nenhum ente, porque faz parte de sua natureza mesma. Mas acontece que os humanos, pelo pecado original, e os anjos decaídos, pela sua escolha fundamental, desprezaram o amor de Deus, escolhendo o amor-próprio acima do amor de Deus, como diz Agostinho na obra “Cidade de Deus”: “Dois amores fizeram duas cidades, a saber: a cidade terrena, na qual o amor-próprio é cultivado até o desprezo de Deus, e a cidade celeste, na qual o amor a Deus é cultivado até o desprezo de si”. Ora, se existe algo como uma cidade dos homens, é porque o amor a Deus acima do amor-próprio pode ser destruído ou perdido, e portanto, conclui o argumento, não pode ser um amor natural.

O argumento sed contra lembra que todos os preceitos morais recebidos da lei mosaica são necessariamente parte da lei natural. Ora, diz o argumento, não há dúvida de que amar a Deus sobre todas as coisas é um preceito moral recebido a partir da lei mosaica. Logo, se há uma lei natural neste sentido, é forçoso reconhecer que é a natureza que leva o anjo a amar a Deus mais do que a si mesmo, conclui.

No próximo texto veremos a resposta sintetizadora de São Tomás.