No último texto, vimos como o amor é o vínculo da unidade; e que, portanto, o amor natural entre dois entes é aquela inclinação que decorre daquele aspecto que os unifica. Vimos o amor entre dois familiares, em razão de pertencerem à mesma família, ou mesmo entre dois seres que compartilham a mesma espécie ou o mesmo gênero, e até mesmo o amor natural entre dois seres inanimados, que compartilham a simples corporeidade, como no caso da gravidade. Em suma, amamos naturalmente no outro aquilo que, nele, identifica-se com algum aspecto que também está em nós; é neste sentido que dizemos que há um amor natural que envolve amar a si mesmo. E, em consequência, amar, no outro, aquilo que é comum com este aspecto que se ama em si mesmo.

E no caso dos anjos? Bom, sabemos que os anjos não possuem ancestrais comuns, e portanto não poderiam conhecer alguma coisa como um amor familiar natural. Tampouco compartilham sua espécie com outros, já que cada anjo é de uma espécie diferente. Não estão no gênero das coisas corpóreas, então não podem ter amor natural similar àquele que existe nas coisas inanimadas, como a atração gravitacional.

Resta, então, o amor natural aos outros anjos em razão do fato de que compartilham o gênero das inteligências incorpóreas.

Portanto, como já vimos no primeiro artigo desta questão, o anjo tem, em si, o amor natural, e, além disso, tem amor natural por si mesmo. Neste quarto artigo, descobrimos que ele tem especial amor natural por tudo aquilo que compartilha de alguma similaridade com sua própria natureza, ou seja, tudo aquilo que ele pode amar exatamente porque ama naturalmente a si mesmo. Assim, este amor natural será tão mais intenso quanto maior foi a similaridade que ele tem com o outro ente. Ele ama todas as coisas porque são, com ele, criaturas, mas este é um amor, digamos, muito superficial e distante. Ama naturalmente os seres humanos porque compartilham a inteligência, embora seja uma inteligência muito diversa, inferior em grau, à sua. E ama aos outros anjos porque compartilham consigo o gênero das criaturas imateriais inteligentes, com mais intensidade, porque são as criaturas mais similares a eles mesmos. É assim, portanto, que o amor a si mesmo é o fundamento de todo o amor natural do anjo pelas outras coisas, que é tão mais intenso quanto as similaridades forem intensas. Não devemos, pois, imaginar, aqui, que se trata de um “amar ao próximo como a si mesmo” no sentido cristão, porque, neste caso, trata-se de um amor sobrenatural. O amor natural, que decorre do amor a si mesmo, tem por medida a medida da similaridade entre os seres, enquanto o mandamento de amar ao próximo como a si mesmo, que reflete a virtude teologal da caridade, tem como medida o amor de Deus por nós. São, portanto, duas realidades diferentes.

Havendo, pois, colocado os elementos para solucionar o debate, Tomás passa a examinar as objeções iniciais.

O primeiro argumento objetor diz que o amor decorre do conhecimento. Ora, se o conhecimento que o anjo tem de si mesmo é reflexivo e essencial, ou seja, é existencial mesmo, ele é diferente do conhecimento que o anjo tem do outro anjo, que é um conhecimento por similaridade, pela species do outro, que o anjo tem na sua inteligência. Se são conhecimentos diversos, resultam que são amores diversos também. Assim, o argumento conclui que o amor natural que o anjos tem pelo outro anjo não é relacionado ao amor que tem por si mesmo.

São Tomás diz que há dois sentidos em que podemos dizer que o amor natural ao outro decorre do amor natural por si mesmo. Um sentido, por assim dizer, objetivo (1) e um sentido subjetivo (2).

1) Objetivamente, diz Tomás, o anjo conhece-se como existente; assim, ao conhecer que as outras coisas existem, pode amá-las como igualmente existentes. Ele se conhece como anjo, assim pode amar os outros anjos, a que conhece objetivamente como compartilhadores da mesma natureza. Neste sentido, o anjo ama naturalmente como se ama, na medida da similaridade conhecida.

2) Subjetivamente, o anjo tem, de si mesmo, um conhecimento qualitativamente diferente daquele que tem das outras coisas. De si, ele tem um conhecimento, digamos, existencial, próprio, a partir do fato de que ele é a própria essência, e assim a conhece porque a vive. Das outras coisas ele tem um conhecimento externo, objetivo, por conta das razões ou species impressas em sua inteligência por Deus. Neste sentido, o amor-próprio natural do anjo não pode ser igual em qualidade ao amor que ele tem por outros entes. Ou seja, embora de fato o amor natural por outros entes decorra do amor-próprio e tenha nele o seu fundamento objetivo, ele é qualitativamente diferente deste, no sentido de que ele decorre de um tipo de conhecimento qualitativamente diferente entre si. Em suma, o anjo ama naturalmente ao outro porque amam a si mesmos, mas não com a mesma qualidade de amor.

É este, aliás, justamente o sentido do segundo argumento objetor. Se a causa é superior ao causado, e o princípio é superior à conclusão, teríamos que admitir que o amor-próprio natural do anjo é superior ao amor que ele tem pelos outros entes. Assim, conclui o argumento, o anjo não ama o outro anjo como ama a si mesmo, mas, se o amor próprio é causa e princípio do amor por outro, ele necessariamente ama mais a si mesmo do que ao outro.

A palavra “como”, aí, não está sendo usada no sentido de denotar a igualdade entre o amor-próprio e o amor ao outro, diz Tomás. Ele denota apenas a similitude que fundamenta, ou seja, é por causa da similitude consigo que existe o amor natural pelo outro, mas isto não significa que este amor seja igual ao amor-próprio natural. De fato, o anjo amará naturalmente outra coisa tão mais intensamente quanto maior for a similitude que esta coisa guarda consigo; assim, ele ama naturalmente menos as coisas que, como ele, simplesmente existem; um pouco mais as coisas que, como ele, são inteligentes e, por fim, ainda mais os outros anjos, que têm com ele uma comunhão de gênero, vale dizer, compartilham o gênero dos entes imateriais inteligentes. Portanto, diz Tomás, a inclinação natural que tem pelo outro é similar à que tem por si mesmo naquele aspecto considerado, porque, ao amar-se e querer o bem para si quanto àquele aspecto, ama e quer o bem para aquele ente que reconhece como similar naquele aspecto.

Por fim, a última objeção diz que o amor natural, ou seja, aquela inclinação para o bem que decorre da própria estrutura natural do ente, tem duas características: 1) não se pode perder, porque está essencialmente ligado à própria natureza daquele ente, e 2) este ente tem, naquela inclinação, um fim. Ora, diz a objeção, um anjo não é o fim do outro, logo não se cumpre o segundo requisito. Além disso, os demônios, ao escolher contra o amor, perderam qualquer amor que pudessem ter por seus coirmãos. Assim, tampouco se cumpriria o primeiro requisito. Disto o argumento conclui que os anjos não amam naturalmente aos outros como amam a si mesmos.

Quando dizemos que o bem tem a natureza de fim para a vontade que ama, diz Tomás, isto não significa que exista apenas a inclinação para aquilo que é reconhecido diretamente como fim de uma potencialidade do ente que ama. Se fosse assim, haveria apenas o amor de concupiscência, e não o amor de amizade. No caso do amor natural do anjo pelo seu semelhante, decorre ele do fato de que o anjo, amando-se, deseja para si o bem quanto àquele aspecto que ama em si mesmo, ou seja, reconhece, por exemplo, que é bom ser inteligente e conhecer, e ama-se por isto. Ora, quando reconhece no outro este mesmo aspecto, ou seja, uma similitude quanto ao fato de ser inteligente e conhecer, o anjo, por consequência, quer o bem do outro como quer o seu mesmo. Neste sentido, não há, aqui, propriamente, uma inclinação para o próprio bem, mas um amor pelo bem similar reconhecido no outro, que é, neste aspecto, unido consigo mesmo. Assim, cumpre-se o primeiro requisito, o de que o amor sempre visa um bem.

E quanto ao segundo aspecto, aquele de que o amor natural não pode ser perdido, ele de fato não é perdido nem pelos demônios, no sentido de que não podem deixar de reconhecer que são, quanto à natureza angélica, um com os anjos, e portanto não podem deixar de amá-los quanto a isto. Este amor, porém, encontra-se limitado pelo fato de que eles são diferentes quanto à amizade com Deus e à justiça daí decorrente; ou seja, esta diferença torna-os distantes neste ponto e, portanto, dá lugar à repulsa e não ao amor. É por isto que o amor natural entre os santos anjos é sempre mais intenso, mais perfeito do que entre estes e os demônios, com quem não compartilham o a justiça decorrente do amor de Deus.