Vimos, no último artigo, o amor-próprio do anjo, ou seja, como ele ama a si mesmo. Vimos, no último artigo, que os anjos amam-se a si mesmos com amor natural e com amor eletivo. O debate, agora, é quanto ao amor que os anjos devotam uns aos outros. Será que os anjos amam-se reciprocamente, ou seja, será que os anjos amam-se uns aos outros? E se o fazem, amam-se como amam a si mesmos? E se o fazem, fazem-no com amor natural, ou o fazem por escolha, ou seja, será que o amor recíproco, nos anjos, é uma eleição, no sentido de que eles podem escolher amar alguns anjos e não amar outros?
A hipótese controvertida, aqui, é a de que os anjos não amam-se uns aos outros, por amor natural, como amam a si mesmos. São três os argumentos controvertidos, no sentido desta hipótese inicial.
O primeiro argumento diz que toda inclinação da vontade resulta do conhecimento intelectual, e guarda proporção com ele. Ora, prossegue o argumento, um anjo não conhece o outro como conhece a si mesmo. A si mesmo ele conhece pela essência, enquanto aos outros anjos ele conhece por semelhança com as species que guarda em sua inteligência, como vimos na questão 56, artigo primeiro. Ora, se o modo de conhecer, nos dois casos, é diferente, conclui o argumento, logo o modo de amar forçosamente o será também. Logo, o argumento assevera que um anjo não pode amar o outro como ama a si mesmo.
O segundo argumento objetor, dentro do espírito clássico e escolástico, estabelece uma hierarquia: entre a causa e o causado, a causa é superior ao causado. E entre o princípio e a consequência, o princípio está sempre acima da consequência. Ora, prossegue o argumento, Aristóteles nos ensina que o amor-próprio é a causa do amor por outra pessoa. Logo, o amor-próprio, sendo causa e princípio, é necessariamente superior ao amor por outro, que é causado e consequente. Logo, o argumento conclui que o anjo não pode amar outro anjo com o mesmo amor natural com que ama a si mesmo. Necessariamente, diz o argumento, o amor-próprio é maior do que o amor por outro.
Por fim, o terceiro argumento lembra que o amor natural tem duas características: 1) ele inclina o ente ao fim, e 2) ele não pode ser eliminado, deixar de existir. Ora, prossegue o argumento, a primeira característica não está presente no amor entre os anjos, porque um anjo não é o fim do outro; tampouco a segunda característica está presente, já que os anjos podem deixar de amar-se uns aos outros, como ocorre com os demônios, que escolhem, com seu livre arbítrio, o desamor, e deixam de amar os santos anjos, o que não poderia ocorrer se eles se amassem com amor natural. Disso tudo o argumento conclui que os anjos não amam uns aos outros como amam a si mesmos.
O argumento sed contra vai buscar nas Escrituras a autoridade para reafirmar o amor natural dos anjos pelos outros anjos na mesma medida que amam-se a si mesmos. No livro do Eclesiástico, ou Sirácida, 13, 19, está registrado que os animais amam aqueles que são iguais (homoion) a ele; ora, os animais amam com amor natural. Portanto, a homogeneidade de natureza pode levar a que os entes amem-se uns aos outros como amam a si mesmos, naturalmente. E assim também com os anjos, conclui o argumento.
Em sua resposta sintetizadora, Tomás lembra que, no último artigo, ficou bem determinado que os anjos e os seres humanos são capazes de amarem-se a si mesmos com amor natural. Ora, tudo aquilo que amamos, como lembra o Pseudo Dionísio na citação do segundo argumento objetor do artigo terceiro desta questão (o texto anterior a este), torna-se um conosco, porque o amor funde e unifica. Assim, diz Tomás, ama-se naturalmente aquilo com que naturalmente nos unimos, e amamos com amor de eleição, ou mesmo com algum amor resultante de alguma outra força unitiva externa, aquilo que se une artificialmente ou acidentalmente conosco. A medida do amor natural, pois, é a medida da união natural entre dois entes.
Tomás dá um exemplo: entre dois concidadãos há um vínculo social, civil. De fato, há algo que os unifica: pertencem ao mesmo núcleo político. Mas isto que os unifica não é natural, já que alguém pode estar, hoje, submetido a um poder político e, amanhã, em razão de migração ou mesmo de guerra de conquista, submeter-se a outro. Neste caso, aquilo que os unifica gera um vínculo que os inclina um ao outro, na lealdade comum à cidade. Este vínculo, diz Tomás, é um amor cívico, mas não é um amor natural. Por outro lado, entre dois irmãos de sangue, filhos dos mesmos pais, há um vínculo natural que os une, e este vínculo não pode ser rompido ou dissolvido artificialmente. Neste casso, aquilo que os inclina um para o outro é um amor natural, de acordo com o vínculo natural que os unifica.
Além do vínculo da geração comum, dois entes podem ter, entre si, o vínculo da espécie comum (como os cães, que formam matilhas com outros seres da sua espécie), ou do gênero comum (como determinado ecossistema em que peixes de espécies diferentes vivem em simbiose). Em todos estes casos, diz Tomás, há um vínculo natural, e, portanto, a respectiva inclinação é uma inclinação natural: um amor natural. O amor natural, portanto, vincula na medida da proximidade. Isto é verdade mesmo para as coisas inanimadas, diz Tomás, e nos dá o exemplo do fogo: o fogo atrai o fogo, e o multiplica. É certo que o exemplo de Tomás é cientificamente ultrapassado; hoje, citaríamos o exemplo da lei da gravidade; dois entes se atraem apenas porque compartilham a circunstância de serem corporais. É um caso muito interessante de amor natural entre seres inanimados.
E os anjos? Veremos no próximo texto.
Deixe um comentário