Tratamos, nos dois artigos anteriores, do amor natural e do amor de eleição, ou seja, das coisas para as quais os anjos se inclinam por natureza e das coisas para as quais eles escolhem inclinar-se. O debate, agora, é se os anjos têm amor-próprio, e que tipo de amor-próprio é este, se natural ou por eleição.
A hipótese controvertida é a de que o anjo não pode amar-se simultaneamente com estes modos de amar, ou seja, poramor natural e por amor eletivo. São três os argumentos objetores, no sentido desta hipótese inicial.
O primeiro argumento lembra que no artigo anterior nós debatemos a respeito da inclinação ao fim e da inclinação aos meios, e chegamos à conclusão, ali, de que o amor natural inclina aos fins, enquanto o amor eletivo inclina aos meios. Ora, diz o argumento, ou bem queremos algo como fim, e o amamos com amor natural, ou bem o queremos como meio, e o amamos com amor eletivo. Assim, a mesma coisa não poderia ser, ao mesmo tempo, amado com amor natural e eletivo. Disto, o argumento conclui que o anjo não pode ter, por si mesmo, amor natural e eletivo simultaneamente.
O segundo argumento cita o Pseudo Dionísio, que afirma que o amor é uma força que funde e unifica; ora, diz o argumento, fundir e unificar são verbos que se referem a ações que envolvem mais de um objeto. Para fundir e unificar, é preciso que coisas diversas venham a juntar-se, tornando-se uma só. Logo, o amor pressupõe a diversidade de objetos, e o amor-próprio seria algo impossível, deduz o argumento. Portanto, conclui que o anjo não pode se amar, nem por amor natural, nem por amor eletivo.
Por fim, o terceiro argumento lembra que o amor é um movimento, é uma dinâmica que inclina o ente até algo que, para ele, é um ponto de chegada, um termo para o movimento. Mas se houvesse algo como um amor-próprio do anjo, teríamos que admitir um movimento em que o ponto de partida e o ponto de chegada seriam iguais – o que representa um repouso, não um movimento. Logo, o argumento conclui que não há amor-próprio, nem no anjo.
O argumento sed contra cita o próprio Aristóteles, que afirma que a amizade que desenvolvemos com os outros surge da amizade que, em primeiro lugar, temos para conosco mesmo. Logo, todo amor pressupõe o amor-próprio, e ele deve existir também nos anjos, conclui o argumento.
Em sua resposta sintetizadora, Tomás vai iniciar logo dizendo que há dois modos pelos quais podemos considerar alguma coisa como boa: ou reconhecemos nela o bem substancialmente ou reconhecemo-lo acidentalmente. Isto significa que podemos amar alguma coisa 1) porque reconhecemos que ela é boa em si, e queremos o bem para ela. Ou 2) porque reconhecemos que ela é boa para nós, ou seja, ela é capaz de tornarmo-nos melhores, aperfeiçoar em nós os acidentes, como a nossa qualidade ou a nossa virtude.
Assim, somos capazes de amar um ser humano porque reconhecemos que ele é bom, e desejamos tudo de bom para ele. É o primeiro modo de amar, o amor substancial, que Aristóteles (e com ele toda a filosofia clássica e escolástica) chama de amor de amizade.
O segundo modo é desejar alguma coisa porque reconhecemos que vai nos tornar acidentalmente melhores, ou seja, amar alguma coisa porque será boa para nós. Assim, quando estamos com fome, amamos um bom prato de comida não porque queremos o bem para ele, mas porque ele, nutrindo-nos, será bom para nós. Um cientista ama o conhecimento não porque quer o bem da ciência para ela, como ente abstrato de razão, mas porque quer possuí-la e desenvolvê-la em seu intelecto, tornando-se mais sábio. Este é o chamado amor de concupiscência.
Como poderemos reconhecer isto nos anjos? É o que veremos no próximo texto.
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