Vimos que, nos anjos, existe a inclinação ou amor natural, que atrai a vontade para aquilo que os anjos conhecem naturalmente, pelo conhecimento infuso que Deus colocou em seus espíritos quando foram criados.
Ora, além deste amor natural, os santos anjos têm também o amor de caridade, que decorre do conhecimento que Deus lhes concede por graça, na bem-aventurança. Com isto, parece não haver mais espaço, na vontade dos anjos, para um terceiro tipo de amor, o amor escolhido. Se ele ama o que é natural de modo natural, e o que é sobrenatural de modo sobrenatural, parece que não há espaço para um amor por escolha. E é exatamente esta a hipótese controvertida aqui, proposta para debate: parece que não há algum amor ou inclinação por escolha, nos anjos. São apenas dois os argumentos objetores.
O primeiro argumento diz que toda escolha pressupõe uma deliberação, que é um raciocínio de discernimento, em que a inteligência pondera, avalia, sopesa, pede conselho. Ora, diz o argumento, todo este procedimento de raciocínio é estranho à inteligência angélica, que não é racional, mas intuitiva. Assim, por não contar com raciocínios e deliberação, o anjo tampouco conta com a possibilidade de escolher deliberadamente algum objeto de amor, diz o argumento. Logo, o argumento conclui que os anjos não têm algo como uma escolha ou eleição de amor.
O segundo argumento classifica todo o conhecimento dos anjos em infuso ou natural. Eles não têm nenhum conhecimento adquirido, portanto. O conhecimento infuso é aquele que lhes chega pela graça, quando optam pela santidade em Deus. O conhecimento natural é aquele que Deus infunde em seu intelecto na sua criação. Ora, com relação a este conhecimento natural, ele não é um conhecimento discursivo, ou seja, que caminha através de induções ou deduções; do mesmo modo que nosso intelecto humano intui simplesmente os primeiros princípios, como o princípio da não contradição e da identidade, que não são deduzidos por nós, mas simplesmente intuídos como fundamento de todo o conhecimento subsequente, nos anjos todo o conhecimento natural é desta maneira, intuído e não deduzido. Ora, como o amor segue o conhecimento, diz o argumento, e eles só têm o conhecimento natural e o infuso, segue-se que eles só têm o amor natural e o amor divino mas, conclui o argumento, não têm nenhum amor escolhido, ou eleito.
No argumento sed contra, há o resgate de um princípio moral: somente podemos ser elogiados ou repreendidos, ou seja, alcançar méritos ou deméritos, por aquilo que escolhemos, não por aquilo que nos é natural. Ninguém certamente será elogiado pela capacidade de comer, por exemplo; mas certamente o será pela escolha de alimentos saudáveis. Ora, prossegue o argumento, os anjos são passíveis de méritos e deméritos. Logo, eles são capazes de escolher. Disto, o argumento conclui que os anjos têm algum amor de eleição.
Na sua resposta sintetizadora, Tomás vai afirmar categoricamente que os anjos têm, de fato, um amor ou inclinação natural, mas também têm uma inclinação ou amor eletivo, ou seja, são também capazes de escolher suas próprias dileções.
Na verdade, diz Tomás, o seu amor natural é princípio do seu amor de escolha, isto é, aquelas inclinações naturais precedem e fundamentam as escolhas deliberadas de objetos de vontade, para os anjos. Aquilo que precede, ou seja, aquilo que é pressuposto é sempre princípio daquilo que é consequência. Ora, prossegue Tomás, uma vez que ter uma natureza é pressuposto para tudo o mais, precisamos admitir que ter alguma inclinação natural é pressuposto para ter quaisquer inclinações eleitas ou escolhidas.
Estudemos o caso dos humanos, propõe Tomás. Os seres humanos têm inteligência e vontade.
A nossa inteligência possui o conhecimento natural dos princípios. Exatamente porque o ser cai sob nossa apreensão, somos capazes de intuir que o ser exclui o não-ser, que o verdadeiro exclui o falso e assim por diante. A partir deste conhecimento natural, deduzimos, por aprendizagem, todas os outros conhecimentos que temos. Ou seja, aquele conhecimento natural é pressuposto em todo conhecimento adquirido que temos no intelecto. Se não tivéssemos a intuição de que o ser e o não-ser se excluem, de que o verdadeiro não pode ser falso e vice-versa, não poderíamos ter nenhum outro conhecimento. Mas a rigor, este princípio não nos dá nenhum conhecimento das coisas concretas, senão apenas a possibilidade de conhecê-las.
Com relação à vontade, o que primeiro nos vem, naturalmente, é o fim último. O nosso fim último, diz Tomás, é a felicidade, no sentido eudemônico de completude, perfeição, plenitude. A nossa vontade está natural e inevitavelmente inclinada a este fim. É esta, em nós humanos, a inclinação natural, isto é, o amor natural: o amor natural pela plenitude. É exatamente porque temos este amor natural que somos capazes de fazer todas as outras escolhas que fazemos: tudo o que escolhemos, na vida, escolhemos porque acreditamos que elas são capazes de nos levar a este fim. Assim, o amor natural, em nós, fornece o fundamento, o princípio pelo qual escolhemos todas as outras coisas, mas não é, ele mesmo, nem uma escolha, nem uma especificação: este amor natural pela plenitude não é capaz de especificar, de tornar necessário que escolhamos, dentre as coisas concretas com as quais nos deparamos, isto ou aquilo. Ou seja, o fato de que temos um amor natural pela plenitude é o pressuposto de todas as nossas escolhas, mas não é uma escolha, nem aponta para uma escolha concreta, apenas determina inevitavelmente o fundamento de qualquer escolha: a busca da plenitude.
E quanto aos anjos? É o que veremos no próximo texto.
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