No último texto, vimos que, para São Tomás, é necessário admitir nos anjos algo que se pode nomear de “amor natural”, ou “dileção natural”, como uma inclinação fundamental da própria natureza angélica em direção ao bem. De fato, todos os seres têm alguma inclinação natural que lhes dá dinamismo, que lhes dá a capacidade de relacionar-se com as outras coisas. Os anjos, portanto, não poderiam deixar de tê-la, também. Por outro lado, o fato de que eles são imateriais e inteligentes não implica que eles não tenham uma natureza: há um princípio metafísico que afirma que o fato de que um ente tenha um atributo superior, na hierarquia do ser, não implica que ele não tenha os atributos inferiores.

É certo que, em sentido próprio, natureza é aquilo que se dirige a um fim só, enquanto a inteligência é algo aberto, que se dirige aos diversos objetos de conhecimento. Mas o fato de que um ser se destaca por ser inteligente, como é o caso dos anjos, não significa que ele não tenha uma natureza. Na verdade, para ser inteligente, o anjo precisa ser, ou seja, precisa constituir-se na existência com uma essência, que é uma natureza angélica. Como lembra Tomás, com um dito proverbial muito utilizado em seu tempo, o anterior deve sempre existir no posterior. Ou seja, se o existir é anterior ao conhecer, o ser que conhece deve primeiro existir como uma natureza, para depois conhecer.

Ora, toda natureza tem uma inclinação, que é própria do seu modo de ser. Os seres inteligentes têm a inclinação da inteligência, que se chama vontade. Os seres sensíveis, como os animais irracionais, têm a inclinação instintiva da sensibilidade; mesmo os seres que são desprovidos de sensibilidade têm inclinações naturais, às quais tende sem qualquer consciência (como é o caso da gravidade nos seres corpóreos). Os anjos, como já vimos, têm conhecimento natural infuso de todas as coisas criadas. Mas não têm corpo, nem órgãos dos sentidos. Assim, neles, não há as inclinações naturais dos corpos inanimados, como nós, humanos, experimentamos, por sermos corporais. Tampouco há neles as inclinações sensíveis, instintivas, que nós, humanos, experimentamos por sermos animais. No entanto, os anjos têm uma natureza intelectual, e experimenta a inclinação para aquilo que conhece como bom. A inclinação da inteligência é a vontade; logo, nos anjos, o amor natural existe em sua vontade mesma.

Interessante anotar, como digressão, que, nos anjos, todo o conhecimento das coisas criadas é um conhecimento infuso, que os anjos recebem de Deus no ato mesmo de sua criação. Assim, pode-se dizer que saber de tudo sobre a criação é algo natural neles, enquanto em nós, humanos, é algo aprendido, conquistado. Nosso intelecto é uma tabula rasa, ao nascimento. Neste sentido, o conhecimento criatural não é, em nós, natural, como é para os anjos.

Com isto, podemos talvez afirmar que não temos, em nossa vontade, um amor natural pelas criaturas, mas um amor aprendido, conquistado, e também neste ponto somos diferentes dos anjos. Para nós, humanos, valeria o ditado de que “amor intelectual” se opõe ao natural. O conhecimento intelectual é, neles, natural, então também natural é a inclinação de sua vontade para aquilo que conhecem. Mas estamos nos adiantando a Tomás de novo.

Postos os princípios da resposta, passamos a examinar as objeções iniciais.

O primeiro argumento objetor é justamente aquele que afirma que “intelectual” se opõe a “natural”; se o amor do anjo é consequência da sua faculdade intelectual, diz o argumento, então não poderíamos chamá-lo de “natural”, conclui.

Tomás responderá que natural não é oposto a intelectual, pura e simplesmente; é apenas um modo de falar. Dizemos que os animais têm o “amor sensível”, isto é, suas inclinações decorrem do conhecimento sensível que eles têm, enquanto os entes dotados de inteligência têm um amor intelectivo, ou vontade, vale dizer, suas inclinações são consequência daquilo que conhecem. Mas os seres inanimados, ou mesmo aqueles seres vivos mais rústicos que são desprovidos de qualquer sensibilidade, também são providos de inclinações. Mas no caso destes últimos, suas inclinações não são sensíveis nem intelectivas, mas simplesmente naturais, no sentido de que não se relacionam com nenhum tipo de conhecimento neles. Assim, temos um “amor natural” em sentido estrito, como inclinação desprovida de conhecimento, que se opõe ao amor decorrente do conhecimento sensorial ou do conhecimento intelectual. Mas num sentido amplo, no sentido de ser um amor inscrito mesmo na natureza do ente, o amor intelectual pode ser chamado de “amor natural”, nos anjos.

O segundo argumento afirma que o “amor natural”, ou inclinação natural, é próprio daqueles seres que são conduzidos pela sua natureza, não daqueles seres que têm poder de conduzi-la. Mas os anjos têm livre arbítrio, logo são capazes de autonomia em sua própria condução, então não podem ter alguma coisa como amor natural.

A marca da criaturalidade, diz Tomás (embora não use este termo, que ele não conheceu), é que toda criatura é, de algum modo, conduzida por outro; a dependência é própria da criatura. Não há criatura que não seja dependente de seu criador. Somente Deus, o Criador, motor imóvel e causa eficiente primeira, conduz sem ser conduzido. Assim, diz Tomás, não há problema em afirmar que o anjo é, de algum modo, conduzido, em sua natureza, a amar naturalmente, ou seja, não há problema em afirmar que Deus concedeu aos anjos ter alguma inclinação natural; estas inclinações naturais, porém, não são de tal modo que anulem a iniciativa dos anjos por meio do seu livre arbítrio. Vale dizer, em nenhuma criatura a natureza é oposta ao livre arbítrio. Esta teoria, a de que de algum modo a existência de uma natureza seria oposta ao livre arbítrio, surgirá com o chamado existencialismo, no século XX. Para os existencialistas, a liberdade consiste em inventar-se, isto é, em moldar-se completamente, sem nenhuma consideração por qualquer tipo de natureza que pudesse ser vista como um dom de Deus, prévio ao próprio exercício do livre arbítrio. É uma tese falsa. Interessante ver como Tomás, de algum modo, já previu este desvio e já respondeu a ele com sete séculos de antecedência,

Por fim, a terceira objeção parte da afirmação de que toda inclinação pode ser reta ou desviada. A inclinação reta é adequada à caridade, enquanto o desvio na inclinação seria uma verdadeira iniquidade. Ora, diz o argumento, a caridade é sobrenatural, portanto o amor reto, sendo adequado a ela, não pode ser chamado de natural. Por outro lado, a iniquidade, que caracteriza o amor desviado, é contrário à natureza. Assim, nem o amor reto, nem o amor iníquo, poderiam ser chamados de “amor natural”, diz o argumento.

O amor natural não é algo como uma inclinação indiferente que pode direcionar-se às vezes para o reto ou às vezes para o iníquo; a inclinação do amor natural é sempre reta. Do mesmo modo que o conhecimento natural possuído pelos anjos é sempre verdadeiro.

Não faria sentido, diz Tomás, imaginar que Deus, ao prover os anjos de conhecimento natural sobre todas as coisas criadas, fornecesse a eles algum conhecimento falso. Tampouco faria sentido que, ao provê-los com uma inclinação natural, fizesse com que essa inclinação não fosse sempre reta, isto é, direcionada ao bem. Precisamos considerar que a liberdade, para Tomás, não consiste na possibilidade de escolher indiferentemente entre o bem e o mal, mas na capacidade de alcançar o bem a que se está inclinado. Assim, estar inclinado naturalmente ao bem não é algo que contraria a liberdade, mas antes o oposto. Possibilita-a.

Isto não acontece com as inclinações decorrentes das virtudes adquiridas ou mesmo das virtudes infusas, como a caridade. O amor natural, que decorre do conhecimento natural, tem como fim natural o bem. O amor resultante das virtudes adquiridas, ou seja, do conhecimento conquistado, inclinar-se-á na conformidade da verdade do conhecimento adquirido, ou seja, não tem a mesma retidão natural do amor natural. Por outro lado, o amor infundido, vale dizer, a caridade, pode ser perdida pelo pecado, mas o amor natural não. Estas formas de amor, no entanto, não são contrárias entre si, mas complementares, diz Tomás. Dentro daquela lógica de que a camada mais elevada do ser não destrói a camada anterior, mas a aperfeiçoa. Este tema será muitas vezes revisitado por Tomás.