Deus é amor. É o que nos ensina a Primeira Epístola de João, 4, 8. Se é assim, se amor é o nome mesmo de Deus, deveríamos imaginar que ele deveria ser a característica mais comum, mais profunda, da criação. E, para Tomás, ele de fato é.

O debate, aqui, é sobre o chamado “amor natural” ou dileção natural. Este tema tem um significado muito próprio, em Tomás, que está aqui na primeira parte, questão 20, resposta sintetizadora. Ali, Tomás nos ensina que “o amor é o primeiro movimento da vontade e de qualquer virtude apetitiva”. È uma noção muito interessante e rica: toda dinâmica, todo movimento, toda transformação, toda inclinação que há na natureza, seja nos seres inanimados, ou mesmo nos seres vivos, é um movimento de amor. Portanto, o amor é inscrito mesmo na natureza das coisas, e é ele que provoca toda relação que há entre elas. A gravidade, as leis de campo magnético, a inclinação das plantas ao sol, a atração que as coisas exercem sobre os sentidos dos animais, tudo isto é expressão, diz Tomás, do amor que move todas as coisas para a sua própria perfeição e para o aperfeiçoamento dos outros e da Criação como um todo. É certo que o próprio Tomás nos ensina que às vezes este movimento não se inclina para o bem, para a perfeição, mas no sentido oposto – é o mistério da iniquidade. Mas ele é secundário, acidental, como que parasitário do bem. Mas não vamos escapar do tema: aqui a conversa é sobre o amor como força natural, não sobre o mal.

Este amor, esta primeira e mais profunda dimensão do amor, que é intrínseca às naturezas mesmas, é o objeto do nosso debate aqui. Será que este amor natural existe também nos anjos?

A hipótese controvertida, para iniciar o debate, é a de que os anjos não possuem esta inclinação para o bem que é chamada de amor ou dileção natural. Há três argumentos objetores no sentido desta hipótese.

O primeiro argumento simplesmente opõe aquilo que é natural àquilo que é intelectual, citando o pseudo-Dionísio em favor desta distinção. Ora, o amor dos anjos, diz o argumento, é sempre uma inclinação intelectual. Portanto, conclui, não é uma inclinação natural.

O segundo argumento afirma que os seres que apresentam a chamada inclinação natural, ou seja, o amor ou dileção natural, são conduzidos passivamente por esta inclinação até o seu respectivo objeto. São, portanto, seres que não têm o domínio da própria natureza, são marcados pela passividade. Assim, por exemplo, a força da gravidade, que seria uma espécie de amor natural que atrai dois corpos, não pressupõe nenhuma ação dos respectivos corpos, que são, neste caso, inteiramente passivos quando estão sob sua influência. Ora, os anjos caracterizam-se por não apresentarem nenhuma passividade; são seres agentes por excelência, dotados que são de livre arbítrio, diz o argumento. Disso o argumento conclui que os anjos não podem apresentar algo como um amor natural.

Por fim, o terceiro argumento lembra que, mesmo nos anjos, nem toda inclinação é reta, e divide o amor em reto ou iníquo. O amor reto é conforme ao amor de Deus, e portanto é caritativo, enquanto o amor iníquo é oposto ao amor de Deus, e portanto inclina ao mal. Ora, a caridade é sobrenatural, porque é o próprio amor de Deus infundido como virtude teologal. Logo, não podemos chamá-la de natural. Por outro lado, a iniquidade leva o ente no sentido contrário à natureza; logo, tampouco neste caso poderíamos chamá-lo de “amor natural”. Assim, o argumento conclui que não podemos falar de “amor natural” no caso dos anjos.

No argumento sed contra, há uma citação de Agostinho, que afirma que o amor é sempre precedido pelo conhecimento, de tal modo que, ali onde há a possibilidade de conhecer, só se pode amar aquilo que se conhece. Ora, prossegue o argumento, os anjos têm um conhecimento natural. Logo, diz o argumento, é necessário reconhecer neles também um amor natural.

Sim, diz Tomás, é necessário admitir nos anjos algo que se pode nomear de “amor natural”, ou “dileção natural”, como uma inclinação fundamental da própria natureza angélica em direção ao bem.

Como se dá isto? É o que veremos no próximo texto.