No último texto, estávamos estudando a relação entre a vontade dos anjos e a sensibilidade, as emoções. Concluímos que os anjos não têm aquilo que chamamos de “apetite concupiscível” e “apetite irascível”, que se relaciona com as inclinações que atingem a nossa sensibilidade diante de algum objeto atraente ou repulsivo. A vontade dos anjos, por sua vez, não envolve emoções ou paixões. Seria fácil explicar isto a partir da ideia de que os anjos não têm corpos, e portanto não têm toda a parte ligada à sensibilidade que compartilhamos com os animais. Mas Tomás vai além.
Cada faculdade, cada potência que algum ente tem, diz Tomás, distingue-se de outra faculdade não por uma distinção material dos objetos, mas por uma distinção formal. Como entender isto?
Já vimos, quando estudamos a distinção entre a inteligência e a vontade, nos anjos, que os objetos materiais sobre os quais a inteligência se debruça não são distintos daqueles sobre os quais a vontade se debruça. Digamos que o sujeito esteja diante de uma maçã: a mesma maçã pode ser objeto da inteligência e da vontade. A maçã, como coisa, é objeto material da inteligência e da vontade. Mas o objeto formal é diferente: a inteligência quer conhecer, ou seja, quer descobrir a ratio, a species da maçã, sua inteligibilidade, e assimilar esta inteligibilidade na faculdade da inteligência. A vontade quer a própria maçã, seja para comê-la, seja para dá-la para alguém. Portanto, é assim que o mesmo objeto material pode ser formalmente diverso, quando se relaciona com duas faculdades diversas.
Assim, quando uma faculdade ou potência tem por objeto (materialmente e formalmente) uma noção comum, essa mesma faculdade também tem por objeto as noções próprias que esta noção comum engloba. O exemplo, aqui, é a visão. O objeto da visão é a cor, em sua noção comum. Qualquer cor. Por isto, não há uma capacidade de ver o azul, outra capacidade de ver o amarelo, e assim por diante. Há apenas uma capacidade de ver cores, porque esta capacidade envolve um objeto que é comum às diversas cores.
É assim com a vontade. Ela é a faculdade apetitiva da inteligência. E a inteligência é capaz de conhecer o bem sob a noção comum, universal. Ela conhece universalmente o bem em sua razão, ou seja, ela é capaz de identificar o bem tal como aparece em cada coisa particular e associá-lo ao bem como universal. Assim, qualquer que seja o bem, ele cai sob a vontade do anjo.
Mas naqueles entes que possuem a sensibilidade, ou seja, a capacidade de conhecer através dos sentidos, o bem se apresenta em sua concretude individual, não em sua razão universal. Assim, aquele bem facilmente atingível causa alegria, ou aquele outro bem árduo, cujo alcance pressupõe a superação de algum obstáculo, pode causar a ira ou mesmo despertar a esperança. Imaginemos um cão e um belo pedaço de carne. Se o pedaço de carne está a seu alcance, num momento de muita fome, despertará o sentimento de alegria no cão. Mas se ele está do outro lado de uma cerca, próximo a uma cobra venenosa, poderá despertar-lhe medo, ira ou mesmo a esperança de vencer a cobra e conquistar o naco. Nestes casos, a relação entre o objeto em sua materialidade (a carne) e o cão) muda formalmente: no primeiro caso há uma simples atração que causa imenso prazer. No outro caso há o despertar de instintos de fuga ou de luta, para atingir o objetivo. Pode-se, pois, falar em faculdades diferentes, aqui, porque há atitudes diferentes, em razão da particularidade do bem visado. Num caso, há o apetite concupiscível, que desperta o prazer, e no outro, o apetite irascível, despertando o medo ou a ira. Nada disto há nos anjos, conclui Tomás. Eles não são movidos por emoções ou por reações sensíveis frente a um bem particular, mas apenas pela vontade frente a um bem inteligível em razão de sua universalidade.
Havendo trazido os elementos para a resposta, Tomás passa a revisitar as objeções iniciais.
O primeiro argumento lembra que o pseudo-Dionísio falava em furor irracional e concupiscência insana, para referir-se à vontade dos demônios. Ora, se os demônios são anjos por natureza, o argumento conclui que os anjos têm o concupiscível e o irascível.
Mas não é assim, diz Tomás. Aqui, nesta passagem, o pseudo-Dionísio está falando apenas metaforicamente, ao atribuir furor e concupiscência aos demônios. Isto em razão de que eles são entes poderosos com uma vontade que foi distorcida pelo pecado, e assim, embora incapazes de sentir ou de emocionar-se, são capazes de provocar grandes desordens como resultado de sua atuação poderosa. É uma metáfora similar àquela que as Escrituras usam para referir-se à ira divina; Deus não possui a paixão da ira, mas sua atividade enérgica em resposta ao pecado muitas vezes é descrita pelas Escrituras como ira, metaforicamente.
O segundo argumento diz que o amor e a alegria são atribuídos ao concupiscível, enquanto a ira e o temor, ao irascível. Ora, diz o argumento, todas estas paixões são atribuídas aos anjos pelas Escrituras. Logo, os anjos têm apetites concupiscível e irascível.
Em resposta, São Tomás dirá que existe um amor e uma alegria que não são exatamente emoções sensíveis, isto é, alterações corporais em razão de estímulos percebidos pelos sentidos, mas são atos simples da vontade como apetite da inteligência: trata-se do amor que inclina o ente espiritual ao bem, para si ou para outro, e a alegria daquele que, alcançando o bem que é inteligido e desejado pela vontade, repousa nele, desfrutando de sua posse. São, portanto, verdadeiros estados espirituais, que, nos anjos, independem dos sentidos, e, em nós, são capazes de ordenar nossa estrutura inferior em razão da superior, espiritual. Este amor e esta alegria, como estados de espírito, estão realmente nos anjos, como estão em nós, como verdadeiros e profundos estados de espírito, e portanto não podem ser chamados de paixões ou emoções sensíveis; logo, não caracterizam algo como um apetite concupiscível em sentido próprio. Por outro lado, o temor de Deus e o desconforto com o mal, que implicam o movimento de afastamento, também existem nos anjos, mas tampouco existem nele como inclinações sensíveis. Assim, não se podem atribuir emoções, afetos ou paixões aos anjos, como podem atribuir-se aos animais e a nós, humanos. Podemos acrescentar, pedindo licença a Tomás, que há muitas doutrinas filosóficas e religiosas que pregam a necessidade de não sentir paixões e emoções, como marca de elevação para os seres humanos. Mas não são verdadeiras. As paixões e emoções são próprias do humano e, quando bem ordenadas pela razão, são parte necessária do caminho para a santidade. Além disso, devemos aprender também a amar, alegrar-nos, temer e afastar-nos como movimentos espirituais, profundos, de inteligência, sem desprezar os movimentos corporais sensíveis bem ordenados. Mesmo Jesus viveu muito profundamente as suas emoções humanas, vibrou, chorou, alegrou-se e entristeceu. Deixemos, pois, que apenas os anjos vivam sem a sensibilidade material.
O terceiro argumento lembra que há algumas virtudes que se relacionam ao irascível e ao concupiscível. A caridade e a temperança, lembra o argumento, pertencem ao apetite concupiscível, enquanto a esperança e a fortaleza pertencem ao irascível. Estas virtudes, diz o argumento, existem nos anjos, sem dúvida. Assim, se existem as virtudes, devem existir os apetites que elas regulam, conclui o argumento, afirmando que os anjos devem ter o concupiscível e o irascível.
Mas não é assim, diz Tomás. Os santos anjos têm a virtude da caridade, sem dúvida. Mas a caridade não pertence ao apetite concupiscível, porque o objeto da caridade não se relaciona ao apetite pelas coisas materiais, mas é o próprio bem divino, o amor que o próprio Deus dedica às suas criaturas. Não se pode confundir, pois, a caridade, virtude teologal que nos infunde o amor divino, com alguma filantropia que envolve dar esmolas ou distribuir comida aos necessitados. Esta filantropia pode ou não nascer da caridade, mas com ela não se confunde. Os anjos, pois, podem ter caridade sem relacioná-la com as paixões que movem-se emocionalmente pelo mundo do sensível.
Também assim a esperança: é uma virtude teologal que faz enfrentar as dificuldades para alcançar o bem que se confia encontrar em Deus. Ela não pertence, pois, ao apetite irascível, mas à vontade, que se move para Deus mesmo quando tem que superar dificuldades ou não consegue enxergar apenas no mundo natural o caminho para chegar a ele. É assim que ela existe também nos anjos.
Por outro lado, a temperança, como virtude humana, leva-nos a ordenar a concupiscência que nos impele aos bens que nos oferecem deleites sensíveis, como o alimento e o sexo. A fortaleza, humanamente falando, ordena nossos sentimentos de repulsa ou medo que são despertados pelos obstáculos que sentimos existir entre nós e algum bem cuja conquista é difícil. Assim, um bandido armado que ameaça um cidadão deve ser enfrentado com fortaleza pelo policial, ou os desconfortos de uma cirurgia devem ser encarados pelo paciente que quer a cura. Neste sentido, nem a temperança, nem a fortaleza, existem nos anjos.
Mas podemos falar analogicamente de uma certa temperança nos santos anjos, quando eles são capazes de moderar a vontade de impor ao mundo os mandatos divinos que recebem, exercendo a paciência para com aqueles que assistem, e podemos falar de certo modo de uma fortaleza angelical no sentido de que são capazes de executar firmemente a vontade divina sem hesitações, mesmo quando encontram resistência. Em ambos os casos, porém, não há relação com a sensibilidade ou as emoções corporais, que não estão presentes neles, mas apenas com a vontade mesma.
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