Vimos, portanto, que os anjos têm vontade, têm-na como uma faculdade distinta do próprio intelecto e da própria natureza, e que têm livre arbítrio. Nosso exame, agora, estende-se até os limites do modo pelo qual os anjos vivenciam sua vontade, ou seja, a relação entre sua vontade e suas emoções. Em nós, humanos, há a nítida relação entre nossa vontade e nossas emoções, ou seja, aquilo que nos atrai ou nos repele também é capaz de nos provocar a empolgação da atração, por um lado, ou, ao contrário, aquilo que nos repele é capaz de provocar o afastamento enérgico, por outro. É isto que Tomás chama de apetite concupiscível (a empolgação pelo que nos atrai) ou apetite irascível (a repulsa enérgica frente àquilo que nos repele).

Não caiamos, aqui, na tentação estoica de imaginar que nossas emoções são algo ruim, ou mesmo na ideia puritana de que as paixões são todas pecaminosas. A concupiscência, aqui, não é mencionada como se fosse o pecado interior que nos inclina ao mal, mas simplesmente como aquele movimento de sensibilidade que nos inclina àquilo que nos é agradável. Isto em si não é pecado; pecado existe somente quando nosso relacionamento com as coisas agradáveis ferem a razoabilidade. Tampouco podemos imaginar, aqui, que a inclinação irascível, ou seja, aquele movimento de sensibilidade que nos causa repugnância frente a situações que nos ameaçam ou nos enojam, seja algo pecaminoso ou desprezível. Na verdade, o movimento da irascibilidade, quando bem compreendido, é o que garante a nossa segurança, evitando que nos exponhamos temerariamente ao perigo; por outro lado, a esperança consiste exatamente na capacidade de enfrentar as adversidades, vencendo a irascibilidade, graças à confiança de que, vencendo-a, alcançaremos o chamado “bem árduo”, aquele que só está disponível em razão do nosso esforço.

Será que os anjos têm reações análogas a estas?

A hipótese controvertida, aqui, para provocar o debate, é a de que os anjos experimentam aquilo que chamamos de apetite concupiscível e apetite irascível, quando a sua vontade é atraída ou repelida por algum objeto. São três os argumentos, no sentido desta hipótese controvertida inicial.

O primeiro argumento cita o pseudo-Dionísio, que, falando dos demônios, diz que eles têm um furor irracional e uma concupiscência insana. Ocorre, lembra o argumento, que os anjos e os demônios têm a mesma natureza; a diferença entre eles é apenas a perda da graça, já que os demônios são os anjos que, escolhendo o pecado, caíram. Logo, se os demônios têm irascibilidade e concupiscência, conclui o argumento, deve-se afirmar que os anjos também as têm.

O segundo argumento afirma que o amor e a alegria pertencem ao apetite concupiscível, que é aquele sentimento que nos faz atrair às coisas que se apresentam como objetos à nossa vontade, enquanto a ira e a esperança, ao apetite irascível, que é aquela repulsa que sentimos àquilo que nos provoca o impulso de afastar-nos. Ora, a Bíblia menciona, em algumas passagens, que os anjos experimentam essas paixões, ao descrevê-los como possuidores de emoções deste tipo. Assim, o argumento conclui que há fundamento bíblico para imputar aos anjos esses apetites.

O terceiro argumento avalia a questão das virtudes. Há algumas virtudes que são associadas ao concupiscível, enquanto outras ao irascível. A caridade e a temperança, por exemplo, são consideradas virtudes associadas ao concupiscível, ou seja, àquilo que nos provoca emoções de atração, enquanto a fortaleza e a esperança são associadas ao irascível, vale dizer, às emoções de repulsa e afastamento. Ora, prossegue o argumento, ninguém pode duvidar de que os anjos são seres virtuosos. Logo, se há neles virtudes, conclui o argumento, também devem haver o apetite concupiscível e o irascível.

O argumento sed contra vai citar ninguém menos do que o próprio Aristóteles. Para o Filósofo, falamos de “irascível” e “concupiscível” para classificar aquelas inclinações que se relacionam diretamente com a sensibilidade humana, e portanto com as relações da nossa corporeidade com o ambiente que nos circunda. Ora, prossegue o argumento, anjos não são corporais, e portanto não têm sensibilidade. Logo, conclui, neles não poderia haver algo como o apetite concupiscível e o apetite irascível.

Tomás, em sua resposta sintetizadora, concorda fundamentalmente com esta posição. De fato, devemos lembrar que os entes inanimados e os vegetais têm apetites naturais, ou seja, inclinações que os guiam como que de fora. Os seres dotados de sensibilidade, como os animais, possuem o chamado “apetite sensível”, guiado pela percepção das coisas individuais e pelos instintos que guiam os seres vivos. Os seres inteligentes possuem, por seu turno, o apetite intelectual, isto é, aquela inclinação para o bem apreendido em sua razão universal. Este apetite é chamado de vontade.

Ora, explica Tomás, não é com relação à vontade (que é o apetite da inteligência) que falamos em inclinações irascíveis e concupiscíveis, mas apenas com relação ao chamado “apetite sensível”, próprio dos seres corporais sensíveis, vale dizer, dos animais. No caso dos humanos, estamos na situação de sermos corporais, vivos e sensíveis, além de intelectuais. Ou seja, para nós é próprio falar que compartilhamos as inclinações irascíveis e concupiscíveis com os demais animais, e a vontade (apetite da inteligência) com os anjos. Mas os anjos, sendo incorpóreos, desconhecem inclinações emocionais, sensíveis, como aquelas classificadas de irascíveis e concupiscíveis. E a razão mais profunda disto será explicada por Tomás mais detalhadamente em seguida. É o que veremos no próximo texto.