Como vimos no texto anterior, o debate aqui é sobre o livre arbítrio dos anjos.

Em sua resposta sintetizadora, São Tomás inicia uma bela lição sobre o modo pelo qual as criaturas movem-se para o seu fim. De fato, é preciso retomar, aqui, a questão da causa final. Nós esquecemos, hoje, que a causa final é uma característica estrutural do universo, e acreditamos que só os seres inteligentes movem-se por um fim. Mas não é assim. Tudo, todos os entes, têm uma causa final, mas eles não chegam a ela do mesmo modo.

Alguns entes, aqueles desprovidos de inteligência, são guiados para a sua causa final como que de fora. Como a flecha que é atirada pelo arqueiro em direção ao alvo, compara Tomás. Isto é mais claro com os entes inanimados. Neles, as forças que conduzem ao fim agem implacavelmente. As coisas caem no chão em razão da gravidade, ou os vulcões explodem por causa das pressões internas. Mesmo nos vegetais há esta condução implacável. A semente de milho, plantada, vira um pé de milho. Não há, aqui, qualquer ambiguidade, qualquer margem para resultados diversos. Apresentadas as condições, os resultados seguem-se como que automaticamente.

No caso dos animais, diz Tomás, há um certo arbítrio, embora não se possa denominá-lo de livre arbítrio, porque ele ainda está adstrito a condições concretas, particulares. As ovelhas fogem do lobo, mas são capazes de adotar certas estratégias para despistá-lo, como escolher um caminho diverso do que normalmente usam, ou espalhar-se. Ou seja, não reagem invariavelmente do mesmo modo, mas não são capazes de não reagir. Ou de usar o intelecto para estudar os lobos e desenvolver estratégias mais sofisticadas de defesa. Nem de argumentar com os lobos sobre a necessidade de estabelecer diálogos de concórdia. Isto tudo porque nem lobos nem ovelhas são inteligentes, e portanto não podem chegar a conhecer razões universais, mas só particulares. Por isto, sua margem de escolha também é bastante particular.

Mas não é assim com os entes inteligentes. Ele pode exercer seu arbítrio de forma livre, exatamente porque pode conhecer a razão universal das coisas. Por isto, ele pondera o bem que se lhe apresenta concretamente em cada momento e lugar, mas o faz sob o enfoque de uma inteligência capaz de entender a razão universal do bem e de uma vontade capaz até mesmo de contrariar as inclinações naturais particulares e escolher contra elas. Os seres inteligentes são capazes de julgar se alguma coisa é boa pela consideração do próprio Bem, no sentido absoluto. E de escolher o bem universal mesmo em detrimento daqueles bens particulares que parecem mais caros ao indivíduo. Estão aí os mártires cristãos para demonstrar este princípio. Esta capacidade de avaliar o bem sob a razão universal fundamenta aquilo que chamamos de livre arbítrio. Onde existir esta capacidade, ou seja, a inteligência, haverá livre arbítrio.

Ora, conclui Tomás, os anjos são inteligentes. Aliás, sua inteligência é mais nobre, mais elevada do que a inteligência humana. Logo, eles atendem aos requisitos para que a sua vontade seja dotada de livre arbítrio, conclui Tomás.

Colocados os princípios para resolver o debate, Tomás passa a revisitar as objeções iniciais.

O primeiro argumento lembra que o ato próprio do livre arbítrio, segundo Aristóteles, é a escolha, a eleição de uma conduta. Essa escolha, diz o argumento, é informada pela razão, que, examinando as circunstâncias, pondera e raciocina para encaminhar a vontade a eleger. Ora, diz o argumento, os anjos não raciocinam, não fazem discursos, não ponderam, porque simplesmente sabem. Seu conhecimento é direto e intuitivo, não discursivo. Assim, não pode haver livre arbítrio nos anjos, conclui o argumento.

Tomás responderá, simplesmente, que Aristóteles se refere, aí, ao livre arbítrio dos seres humanos, não dos anjos. De fato, a razão prática dos seres humanos, que pondera e encaminha a eleição, é diferente do modo de eleger dos anjos. Nos seres humanos, há raciocínio, ponderação, debate, conselho, todo um caminho que a razão percorre para possibilitar a eleição. Nos anjos, a inteligência não caminha por raciocínios, mas por intuição direta e completa da verdade. Assim, nos anjos, a eleição não é precedida de um caminho de raciocínios e conselhos, mas, com a intuição da verdade, os anjos escolhem, sempre cientes de tudo o que precede e de tudo o que decorre de sua eleição. Há aqui, acrescentamos, assunto para refletirmos sobre a questão do arrependimento e do perdão: se a escolha dos anjos é assim, não há espaço neles para qualquer arrependimento ou para um pedido de perdão. Eles sempre decidem com total domínio da situação. Anjos não se enganam nem voltam atrás. Anjos não “pensam melhor” no que fizeram. Anjos não se arrependem nem pedem perdão, porque não há obscuridades na sua inteligência quando tomam alguma decisão.

O segundo argumento afirma que o livre arbítrio existe porque a vontade humana pode inclinar-se para duas coisas ao mesmo tempo. Mas os anjos têm perfeito conhecimento do mundo natural; logo, nunca hesitariam entre duas opções. Daí o argumento conclui que, uma vez que não hesita entre duas opções, eles não teriam algo como o livre arbítrio.

Na sua resposta, Tomás diferenciará a inteligência, que foi debatida na primeira objeção, da vontade, que está sendo debatida agora. O intelecto, diz Tomás, traz para si as coisas que conhece, enquanto a vontade inclina o ser para aquilo que está fora dele. De fato, o intelecto angélico tem em si todas as species das coisas criadas. Assim, seria imperfeito o intelecto do anjo se não tivesse em si todas as coisas que conhece. Mas a vontade do anjo o inclina para aquilo que está fora dele, ou seja, o anjo apetece aquilo que atrai sua vontade. Por um lado, seria uma imperfeição se o anjo não conhecesse aquilo que está em seu intelecto. Mas não é uma imperfeição que ele não tenha aquilo que o apetece. Dentre as coisas que atraem sua vontade, porém, existem aquelas que o atraem porque são mais perfeitas do que ele (como as coisas divinas), e que ele não poderia deixar de querer sem tornar-se imperfeito; o anjo que escolhe não querer Deus transforma-se nesse ser deformado que chamamos de demônio. Mas as criaturas que atraem a vontade do anjo são menos perfeitas que ele, e portanto não há nenhuma imperfeição em que ele seja atraído simultaneamente por duas criaturas, de tal modo que tenha que escolher entre elas; assim, naquelas coisas que não representam uma atração para a perfeição, como é o caso das coisas divinas, pode acontecer que o anjo tenha que escolher entre duas coisas que atraem simultaneamente sua vontade, sem que isto signifique alguma distorção ou degeneração de sua natureza. É neste sentido que o anjo tem livre arbítrio entre as coisas criadas que atraem sua atenção. Como as criaturas não são dotadas do bem absoluto, o fato de que a vontade angélica possa escolher entre duas delas não representa nenhuma contradição.

O terceiro argumento objetor diz que os anjos são diferentes entre si, e são hierarquicamente organizados. Há anjos mais simples, inferiores em perfeição e profundidade de faculdades, e há anjos superiores, mais elevados, mais perfeitos nas faculdades. Ora, se eles tivessem o livre arbítrio, seria inimaginável que houvesse gradação entre o livre arbítrio de um e de outro anjo, como há entre a perfeição das inteligências e das vontades. As inteligências e as vontades, diz o argumento, podem ser mais ou menos perfeitas, mas o livre arbítrio não; existe ou não, diz o argumento. Mas como tudo nos anjos é organizado em hierarquias de perfeição, uma faculdade que não está sujeita a hierarquia, como o livre arbítrio, não poderia existir neles, conclui.

Sim, é possível que existam gradações de perfeição no livre arbítrio, diz Tomás. É claro que aqueles anjos que têm uma inteligência mais profunda, uma vontade mais apurada, têm um livre arbítrio mais rico. São capazes de atrair-se por motivos mais nobres, para ações mais nobres, para estabelecer relações mais perfeitas. Mas a liberdade mesma, entendida como aquela capacidade de encaminhar-se por si mesmo para o bem, sem coações externas, não conhece gradações em si mesma. Ou o ente é livre, isto é, é capaz de conduzir-se por si mesmo ao bem que reconhece, ou não é, e é conduzido desde fora, como a flecha é arremessada pelo arqueiro, e não é capaz de atingir o alvo por si mesma. A única gradação que se poderia encontrar na liberdade diz respeito ao grau de opressão externa, ou seja, à existência de forças estranhas ao sujeito que dificultam ou mesmo impedem-no de atingir o bem. Mas esta é uma gradação acidental, externa à liberdade mesma, e que não pode excluí-la em sua essência. Aquele que é livre é livre, ainda que circunstancialmente esteja oprimido ou limitado por algum poder que o impede, total ou parcialmente, de atingir atualmente o bem. Pensemos, aqui, nos chamados vícios capitais, e como aqueles que os exibem são escravizados por eles. Ou mesmo nos reis e soberanos maléficos que não criam, para os seus povos, as condições para o atingimento do bem comum. Aqueles cuja vontade está presa pelos vícios, ou que está submetido a um soberano inadequado, está certamente tolhido, mas não perdeu sua dignidade de ser, de ser pessoa.