Eis uma discussão interessantíssima: sobre o livre arbítrio dos anjos. E, como sempre, estudando o livre arbítrio deles, aprendemos mais sobre o nosso.

É interessante lembrar que a noção de livre arbítrio não se confunde com a própria liberdade. A liberdade é a capacidade de atingir seus fins. O livre arbítrio é a possibilidade de escolher indiferentemente na presença de dois objetos que atraem a vontade. O livre arbítrio, portanto, é um pressuposto da liberdade (os seres que não o têm não são livres, mas são conduzidos aos seus fins como que “de fora”, por forças estranhas a eles mesmos), mas não a esgota. Ao contrário, o livre arbítrio, quando mal compreendido, pode levar o sujeito a perder sua liberdade; pensemos num sujeito humano que usa o livre arbítrio para viciar-se em drogas pesadas; pode destruir irremediavelmente sua saúde neste processo, e com ela a sua capacidade de escolha para sair do vício.

Estamos nos adiantando a Tomás. Vamos voltar ao debate proposto no artigo.

A hipótese controvertida, proposta agora para estabelecer a polêmica e gerar o debate, é a de que os anjos não têm livre arbítrio. São três os argumentos objetores, no sentido desta hipótese inicial.

O primeiro argumento apresenta a própria estrutura do ato de escolher, ou de eleger, como denomina Tomás. O ato de eleger, isto é, de escolher entre as alternativas com que o livre arbítrio se depara, sempre pressupõe um exame ponderado, isto é, pressupõe, como ensina Aristóteles, que se reconheça que determinado objeto é atrativo para a vontade e que se submeta esta atração à avaliação racional da inteligência, comparando bens e males, examinando a oportunidade, aconselhando-se com a sabedoria que se tem e com o conselho alheio. Ora, prossegue o argumento, tudo isto envolve estabelecer raciocínios, discursos, aprendizagem e avaliações, coisas que, como já vimos em debates anteriores, não existem na inteligência dos anjos. Assim, se os anjos não passam pelo processo deliberativo que conduz à eleição, então, conclui o argumento, (pelo modo que funciona sua inteligência), eles não têm algo que se possa chamar de livre arbítrio.

O segundo argumento diz que o livre arbítrio supõe uma vontade que se depara com, pelo menos, duas possibilidades simultâneas de eleição, dentre as quais ela deve decidir. Mas o argumento pondera que o anjo nunca se encontra confrontado com duas opções, porque ele sempre conhece perfeitamente tudo o que existe no mundo natural e, portanto, nunca pode se enganar ou mesmo hesitar a respeito daquilo que se apresenta naturalmente a ele, atraindo-o. Sua vontade, segundo o argumento, tem sempre um só e único termo, que eles conhecem sempre adequadamente. Portanto, tampouco pelo modo que funciona a sua vontade, eles jamais teriam algo que se pudesse chamar de livre arbítrio, conclui o argumento.

Por fim, o terceiro argumento lembra que os anjos não são todos da mesma espécie; aliás, cada anjo, cada indivíduo angélico é de uma espécie diferente, porque eles não têm o elemento material para individualizá-los. Todos os seres humanos são da mesma espécie, e individualizam-se apenas pela matéria. Faz sentido dizer que os seres humanos têm, todos e sem exceção, a mesma dignidade.

As espécies de anjos, por sua vez, diferenciam-se em razão da perfeição. Cada indivíduo angélico é de uma espécie diferente, e eles se diferenciam em razão do grau de perfeição. Os anjos superiores são mais perfeitos, têm uma inteligência mais profunda, têm uma vontade mais apurada. Os inferiores, portanto, são mais limitados. Há, portanto, no mundo angélico, uma verdadeira hierarquia do ser, em que as faculdades diferenciam os indivíduos em razão do seu grau de perfeição. Mas se é assim, diz o argumento, e se eles são diferentes na perfeição da inteligência e da vontade, então também o seu livre arbítrio deveria ter graus diferentes, conforme eles fossem mais ou menos perfeitos. Mas o livre arbítrio não é uma característica sujeita a graus: ela existe ou não. Em seres sujeitos a graus, como os anjos, conclui o argumento, ela simplesmente não poderia existir.

O argumento sed contra lembra que o livre arbítrio relaciona-se estreitamente com a dignidade de ser pessoa humana; ora, diz o argumento, os anjos, sendo ainda mais semelhantes a Deus, são, neste sentido, ainda mais dignos do que os seres humanos. Logo, conclui o argumento, não poderiam não ser dotados de livre arbítrio.

Em sua resposta sintetizadora, São Tomás mais uma vez vai nos dar uma aula sobre o modo pelo qual as criaturas movem-se para o seu fim. Isto é muito interessante, porque nós, hoje, temos uma ideia de que só os seres inteligentes movem-se por um fim. A causa final deixou de ser, para nós, uma causa universal, como era para Aristóteles e para Tomás.

No próximo texto voltaremos a Tomás e à causa final.