Que os anjos têm vontade é algo que ficou claro no último artigo, que comentamos em dois textos. O debate agora é um pouco mais técnico. O que é, qual a estrutura dessa vontade angelical? Ela é uma faculdade, ou seja, uma capacidade que os anjos têm e que podem exercer ou não? Ou ela é a própria essência dos anjos, ou seja, eles são essencialmente seres volitivos? Ou ainda, será que a vontade dos anjos nada mais é do que seu intelecto mesmo, reconhecendo o bem?

Esta discussão parece um pouco estéril e até ultrapassada, mas não é. De fato, saber exatamente em que consiste o querer do anjo permite não somente distingui-lo de Deus, por um lado, como permite compreender melhor o processo de querer nos seres humanos.

A hipótese controvertida, aqui, é a de que a vontade, nos anjos, nada mais é do que sua natureza mesma, ou ainda seu intelecto, e não uma estrutura específica manifestando-se como uma capacidade de inclinar-se para fora de si mesmo. Mais uma vez, neste artigo, vemos que os conceitos necessários para compreender o próprio debate só serão apresentados na resposta sintetizadora; por isto, a hipótese inicial e os argumentos objetores parecem difíceis de compreender no início. É necessário ter paciência: o assunto ficará mais claro quando examinarmos as respostas de Tomás.

São três os argumentos no sentido da hipótese inicial.

O primeiro argumento parte da afirmação de que a estrutura metafísica do anjo, em sua natureza, é mais simples do que a estrutura das criaturas corporais. Ora, prossegue o argumento, sabemos que, nas criaturas corporais, é a forma, e não a matéria, que determina a criatura e a encaminha para a sua perfeição. Mas os anjos são seres espirituais, ou seja, não têm matéria, mas apenas forma. E, uma vez que a sua forma é inteligente, é claro que eles têm muitas outras formas, as species de todas as coisas que conhecem, no seu intelecto. Portanto, se é a forma a responsável por encaminhar o ser na direção do bem (como foi visto na análise das criaturas materiais), e se os anjos são essencialmente puras formas, e sua inteligência está plena das formas daquilo que conhecem, fica certo que a inclinação para o bem, que chamamos de vontade, coincide, segundo o argumento, com a própria natureza do anjo, ou com sua inteligência, conclui.

O segundo argumento lembra que o objeto próprio da inteligência é a verdade, e o objeto próprio da vontade é o bem. Mas a verdade não é realmente diferente do bem; ambos são chamados de transcendentais do ser, porque a verdade é o ser sob a noção de sua inteligibilidade, e o bem é o ser sob a noção de sua atratividade, isto é, o ser como desejável. Portanto, a diferença entre o verdadeiro e o bom não é uma diferença real, mas apenas de noção. Disto, o argumento conclui que tampouco haveria uma diferença real entre a inteligência e a vontade, mas que seriam a mesma coisa, apenas com uma diferença de ponto de vista.

O terceiro argumento afirma que uma diferença entre próprio e comum não é capaz de diversificar as faculdades humanas. E dá um exemplo: a noção de cor é uma noção comum, enquanto a noção de amarelo é uma noção própria. Comum é a noção genérica, e próprio é a noção específica, portanto. Ora, a noção comum de cor e a noção própria de amarelo estão sob a mesma faculdade de enxergar que está incluída no sentido da visão. Ora, prossegue o argumento, a noção de verdadeiro está para a noção de bem de uma maneira análoga àquela pela qual a noção de amarelo se relaciona com a noção de cor, diz o argumento. De fato, a verdade é um tipo de bem, isto é, a verdade é o bem que move o intelecto ao conhecimento. Ora, se a verdade e o bem não se distinguem senão como o próprio se distingue do comum, então a faculdade que se relaciona com a verdade não pode ser distinta da faculdade que se relaciona com o bem (como a faculdade que se relaciona com o amarelo não é distinta da faculdade que se relaciona com a cor em geral, a saber, a visão). Portanto, a faculdade que se relaciona com o bem é a mesma que se relaciona com a verdade, afirma o argumento: é a inteligência. E conclui que a vontade não é algo diverso da inteligência.

O argumento sed contra lembra que, nos anjos, a vontade tende sempre para o bem, mas a inteligência, que tende ao conhecimento da verdade, é capaz de conhecer o bem e o mal. Logo, a inteligência dos anjos é distinta de sua vontade, porque seu objeto mesmo é distinto.

E com isto São Tomás concorda na sua resposta sintetizadora. A vontade é uma faculdade, nos anjos, que não se confunde nem com a sua própria natureza, nem com a sua inteligência.

No próximo texto veremos a razão disto.