Estudamos longamente a inteligência dos anjos, e foi um estudo muito proveitoso. De fato, conhecer a maneira pela qual os anjos inteligem pode ser uma maneira de afastar erros sobre a inteligência humana. É muito interessante entender como uma criatura imaterial pode inteligir, e como isto difere da maneira pela qual nós, seres materiais inteligentes, conhecemos.

Entramos agora no estudo da vontade dos anjos.

Se a inteligência caracteriza os anjos a ponto de que eles são chamados de “inteligências” por alguns escritores eclesiásticos, como se caracteriza a vontade dos anjos? Como funciona? O que move um anjo?

Uma vez que os nossos apetites são tão profundamente materiais, e nossa vida é marcada pela mortalidade, será realmente muito interessante debater a vontade dos anjos. Eles são seres simples, e portanto não são perfectíveis como nós. São completos em suas potencialidades. Não poderiam mover-se, portanto, por amor de algo que lhes falte. O que os move, então? O que eles desejam?

A hipótese controvertida, aqui, adotada para provocar o debate, diz exatamente que os anjos não têm vontade. São seres inteligentes e imóveis, incapazes de mover-se por qualquer motivo, de buscar qualquer fim, de perseguir qualquer interesse ou inclinar-se para o bem.

São três os argumentos objetores, no sentido de comprovar que os anjos não possuem esta dimensão da pessoalidade que chamamos de vontade. Acompanhá-los com atenção nos ensinará muito sobre esta dimensão da pessoalidade que é chamada de “o apetite da razão’: a vontade.

O primeiro argumento lembra exatamente esta definição; a vontade, diz Aristóteles, é o apetite da razão. Assim como os animais têm o apetite da sua sensibilidade, que é o instinto, os humanos têm o apetite da sua razão, que é a vontade. Mas a inteligência dos anjos, como nós vimos, não usa a razão, porque não é discursiva, isto é, não aprende. A inteligência angélica é de um tipo diferente, puramente intuitiva, e já contém em si, de modo inato, as species de todas as coisas naturais, inscritas neles por Deus mesmo. Assim, se a vontade é o apetite da razão, e os anjos não são criaturas racionais, porque sua inteligência é de outra configuração, então os anjos não têm vontade, conclui o argumento, mas talvez algum outro tipo de apetite superior à vontade.

O segundo argumento lembra que a vontade é o apetite que inclina a criatura inteligente a desejar aquilo que lhe falta, e que ele intelige como sendo bom. Ora, a vontade pressupõe, portanto, algum tipo de carência, ou seja, a busca de um bem ainda não possuído, mas identificado como desejável. Mas os anjos não têm carência de nada, porque não têm potencialidades: todas as suas características são plenas, perfeitas, consumadas. Logo, o argumento conclui que os anjos não podem ter vontade, porque não carecem de nada, já são plenos, perfeitos.

Por fim, o terceiro argumento entra na estrutura metafísica da vontade. A vontade, diz o argumento, é aquilo que nos move, como criaturas, a buscar um bem. Ela é, portanto, nosso motor, isto é, a estrutura capaz de nos mover. Mas ela própria, por sua vez, é movida pela inteligência, que apresenta a ela um objeto atraente, que a provoca a nos mover na sua busca. Assim, a vontade seria um motor movido: ela nos move porque, por sua vez, é movida pela inteligência. Ora, diz o argumento, como os anjos são seres espirituais, e portanto são simples, eles não sofrem mais transformações. Quer dizer, já são plenos, atuais, e portanto, diz o argumento, imóveis. Não se há de falar, portanto, de motores que possam mover seres imóveis como os anjos, aduz o argumento. Logo, conclui, os anjos não têm vontade.

O argumento sed contra cita Santo Agostinho. Ele lembra que na alma humana há a imagem da Trindade, consistente na estrutura formada de memória, inteligência e vontade. Ora, diz Agostinho, é exatamente o fato de que o ser humano é imagem de Deus que nos torna capazes de conhecê-lo, dentro do princípio de que o semelhante conhece o semelhante. Ora, prossegue, os anjos também são capazes de conhecer a Deus, como, aliás, já debatemos num artigo anterior. Logo, o argumento conclui que os anjos possuem vontade.

Sim, os anjos possuem vontade, diz Tomás em sua resposta sintetizadora. E ele nos explicará que apetecer é próprio da estrutura de qualquer ser, mesmo os inanimados. E isto se dá porque todos os seres são, em última instância, fruto da vontade de Deus de que eles existam. Vale dizer, as coisas existem porque Deus as quer. Portanto, a marca do inclinar-se, do tender a outra coisa, está inscrita na mais profunda estrutura do ser de todas as coisas.

Como isto se dá? Temos que ter em conta, aqui, que Tomás está lidando com a ciência do seu tempo, que não poderia tratar, ainda, de forças como a gravitação e o eletromagnetismo. Mas ainda assim a sua lição é perfeitamente válida naquilo que Tomás quer demonstrar, isto é, que há uma inclinação como característica estrutural de todas as coisas. Nada existe que não busque relacionar-se com tudo mais, conforme sua própria natureza. É o que veremos no próximo texto.