Debatemos, neste artigo, se há diferença entre o chamado “conhecimento matutino” e o “conhecimento vespertino” no intelecto angélico.
No caso do conhecimento matutino, o objeto do conhecimento é o próprio Verbo divino; ao contemplá-lo, os anjos contemplam nele as razões de todas as coisas que existem, inclusive o fato de que elas existem realmente como criaturas.
No caso do conhecimento vespertino, as razões das coisas, que existem como species inatas na inteligência do anjo, são contempladas nas próprias coisas, assim como existem naturalmente em si mesmas.
Diríamos, então, que falamos de conhecimento matutino quando falamos de anjos que, contemplando a Deus, veem nele todas as coisas criadas. E de conhecimento vespertino quando falamos de anjos que, contemplando as coisas criadas, conhecem-nas pelas razões inatas delas que Deus lhes colocou na inteligência ao criá-los. São, portanto, as mesmas coisas referidas num e noutro caso. Mas sob uma perspectiva diferente.
Ora, se pensamos nos anjos bem-aventurados, não há, na prática, diferença entre o conhecer as coisas pela contemplação de Deus ou nelas mesmas. Mas se pensamos nos demônios, vemos o tamanho da liberdade que Deus deu aos anjos: pelo fato de que eles têm o conhecimento vespertino, certo e livre de enganos, inato e concedido pelo próprio Deus na criação do anjo, significa que, mesmo quando eles escolhem contra Deus e rebelam-se, não perdem em nada sua capacidade de conhecer a realidade criada. Ou seja, o ato de escolher a bem-aventurança, para os anjos, não implica, a rigor, vantagem cognitiva. É um ato de amor, já que não há prejuízo cognitivo se eles escolhem contra Deus. Portanto, não é para levar vantagem cognitiva que o anjo opta por Deus. Mas estas são especulações nossas; a resposta de Tomás não tece tais considerações.
É claro que conhecer a razão das coisas em Deus é uma forma muito mais rica de conhecê-las, porque inclui em si a ordenação de amor que Deus tem para a criação. E é por isto que Santo Agostinho pode afirmar que o conhecimento matutino é perfeito com relação ao vespertino: porque inclui a contemplação do próprio Amor. Mas isto não implica descartá-lo. Mesmo imperfeito, ele tem um sentido: o sentido da liberdade no amor.
Colocados, pois, os parâmetros para a solução do problema, São Tomás passa a examinar as objeções iniciais.
A primeira objeção lembra que a própria Bíblia, no trecho do Gênesis aqui debatido, inclui a manhã e a tarde como partes do mesmo dia. Assim, o conhecimento matutino e o vespertino seriam um só, diz o argumento.
Retomando a interpretação de Agostinho sobre o Gênesis, Tomás nos recorda que Agostinho interpreta os seis dias da narrativa de criação como, na verdade, seis gêneros de coisas cujo conhecimento é dado aos anjos. Ora, diz Tomás, as coisas conhecidas são as mesmas em cada dia, tanto no conhecimento matutino quanto no vespertino. Por causa do objeto material do conhecimento, então, estas duas maneiras de conhecer são reunidas no mesmo dia. No entanto, o modo de conhecer é diverso, no conhecimento matutino ou vespertino, e por isso não podem ser considerados como idênticos entre si.
O segundo argumento diz que, uma vez que a operação de conhecer decorrente da contemplação de Deus, no conhecimento matutino, já leva à perfeição a capacidade cognitiva dos anjos, que contemplam a Deus sem cessar (Mt 18, 10), o conhecimento vespertino seria redundante, já que uma mesma potência não pode ter duas operações simultâneas.
Sim, uma mesma capacidade, ou seja, uma mesma potência, pode ostentar duas operações simultâneas, desde que uma se refira à outra, o que é exatamente o caso aqui, diz Tomás. É o caso de uma mente que planeja uma atuação concreta, digamos, um assalto ao banco. A vontade do agente, neste caso, quer o fim e o meio, ou seja, as duas operações – o agir e o seu resultado – estão simultaneamente na vontade, porque uma se ordena à outra, na vontade. A vontade quer o meio (o assalto) porque quer o fim (o lucro). De modo similar, a inteligência, ao raciocinar, intelige os princípios e, atingindo a ciência, intelige nele as conclusões. Nada impede, pois, que o conhecimento vespertino, por species inatas, refira-se ao matutino quando contempla nele as razões das coisas em Deus. Estaria, aqui, mais uma consequência daquele famoso princípio que nos diz que a graça não aniquila a natureza, mas a pressupõe, eleva e aperfeiçoa.
Por fim, o terceiro argumento cita 1 Cor 13, 10 (quando vier o que é perfeito, o que é parcial será abolido) para defender que o conhecimento matutino, perfeito por ser em Deus, elimina o vespertino, das coisas em si mesmas.
Não é assim, Diz Tomás. A chegada do perfeito só elimina aquelas coisas imperfeitas que lhe são opostas, como o conhecimento direto de Deus na visão beatífica torna desnecessária a fé; a visão, neste caso, é oposta à fé, que é a posse do que não se vê.
No caso do conhecimento vespertino, ele não é oposto ao matutino. Conhecer uma coisa em si mesma, em sua concretude existencial, não é oposto a contemplá-la em Deus, que é a sua causa. Nada impede, diz Tomás, que conheçamos uma coisa por duas maneiras; imaginemos que podemos saber a quantidade de coisas numa caixa, quer pela contagem direta, quer por alguma operação de cálculo de densidade; a contagem direta é, certamente, um meio mais preciso do que o cálculo de densidade, mas eventualmente podemos usar um deles para confirmar o outro.
Assim, diz Tomás, a concretude existencial da coisa é um elemento que torna o conhecimento vespertino, que em si mesmo é menos imperfeito, rico, como relação direta com a realidade criatural.
E assim encerramos o estudo da inteligência angélica. A partir do próximo texto estudaremos a vontade dos anjos.
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