Este é um debate interessante e importante. Todo este capítulo sobre o intelecto dos anjos pode ser lido como um grande manifesto anti-idealista feito por Tomás muitos séculos antes que o idealismo se tornasse uma forma disseminada de pensar, como é hoje em dia. De fato, os anjos têm um conhecimento sobre todas as coisas que não decorre de exame empírico, mas de todo um saber que lhes está impregnado congenitamente na inteligência. Ao tratar das inteligências angélicas, Tomás nos dá uma noção fortíssima daquilo que é a inteligência humana, e nos previne de quaisquer tentações gnósticas ou idealistas na forma humana de conhecer e pensar.
E a questão que se levanta, agora, é a seguinte: qual a utilidade em falar-se de “conhecimento matutino” e “conhecimento vespertino”, em que eles se diferenciam? Quem contempla as coisas em Deus não sabe tudo o que há para saber sobre elas?
Esta é a hipótese controvertida, para iniciar o debate. O conhecimento vespertino e o matutino seriam a mesma coisa, diz a hipótese. Não haveria maneira de distinguir, nos anjos, entre aquilo que eles conhecem contemplando a Deus e aquilo que eles contemplam na natureza. São três os argumentos objetores, no sentido desta hipótese inicial.
O primeiro argumento é bíblico. Ele lembra que, no primeiro capítulo do Gênesis, em que a Bíblia narra o relato da criação aqui debatido, sempre repete a seguinte frase: houve uma tarde e uma manhã, primeiro dia (ou segundo, terceiro, e assim por diante). Ora, se o Gênesis está a referir-se ao conhecimento angélico, quando trata de “manhã” e “tarde”, diz o argumento, então temos que admitir que ao reunir a tarde e a manhã, declarando-os como “um dia” da criação, as Escrituras demonstram que eles são o mesmo conhecimento. Não haveria, pois, diferença entre eles, conclui o argumento.
O segundo argumento toma a estrutura metafísica ato-potência. Cada potência aponta para seu ato, e portanto tem apenas uma operação. Assim também ocorre com a capacidade intelectual, que é uma potência para conhecer. Uma vez que a inteligência conhece, ela esgota a sua operação de saber, diz o argumento. Ora, os anjos conhecem tudo em Deus, ou seja, estão sempre em conhecimento matutino, conforme o testemunho bíblico de Mt 18, 10: seus anjos sempre veem a face do meu Pai. Ra, se a capacidade cognitiva dos anjos está sempre em ato de saber, pela operação de contemplar permanentemente a Deus, não haveria sentido em atribuir a eles um conhecimento vespertino em ato, que seria uma segunda operação da mesma potência, e portanto redundante, diz o argumento.
Por fim, o terceiro argumento também cita a Bíblia (1 Cor 13, 10), que diz: “quando chegar o que é perfeito, o imperfeito desaparecerá”. Ora, prossegue o argumento, se o conhecimento vespertino é diferente do matutino, isto só poderia se dar à maneira pela qual aquilo que é imperfeito (o vespertino) se diferencia daquilo que é perfeito (o matutino). Logo, conclui o argumento, o conhecimento vespertino, mesmo que fosse diverso do matutino, não poderia subsistir simultaneamente com ele.
Por fim, o argumento sed contra cita a autoridade de Santo Agostinho, o próprio autor destas noções de conhecimento matutino e vespertino. O Santo Doutor diz que o conhecimento de qualquer coisa pela contemplação do Verbo é muito diferente de conhecê-la em sua própria natureza. Assim, por reconhecer esta diferença, ele chama o primeiro de matutino e o segundo de vespertino.
Na sua resposta sintetizadora, São Tomás já inicia nos chamando a atenção para um aspecto importantíssimo: o fato de que, quando falamos em conhecimento vespertino, estamos a nos referir ao conhecimento que os anjos têm das coisas na própria natureza delas, isto não significa que o anjo aprenda sobre as coisas a partir do contato com as coisas mesmas. Isto significa, apenas, que os anjos podem relacionar-se com as próprias coisas que conhecem, contemplando-as. Assim, embora o conhecimento matutino e o vespertino envolvam saber sobre as mesmas coisas, o objeto do conhecimento, em cada um dos dois casos, é diferente.
Veremos isto no próximo texto.
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