Este artigo está fundamentado numa interpretação de Santo Agostinho sobre o primeiro capítulo do Gênesis. Para este grande santo, padre e doutor da Igreja, quando o relato fala em “manhã” e “tarde” na criação, fala do conhecimento dos anjos sobre a criação: na manhã, Deus dá aos anjos o conhecimento sobre os seus próprios planos, sobre as species naturais que estão em sua própria inteligência. Na tarde, Deus permite que os anjos entrem em relação com as próprias coisas criadas, na história delas, em sua concretude existencial. Assim, os anjos teriam, de acordo com esta bela interpretação, um conhecimento matutino e um conhecimento vespertino sobre a criação.
Tomás registra, aqui em sua resposta sintetizadora, que esta interpretação de Santo Agostinho faz sentido, já que uma interpretação literal sobre os “dias” da criação, neste relato, seria impossível; de fato, se o “dia” é o percurso do sol, neste relato o sol e a lua foram criados apenas no quarto “dia”. Assim, diz Tomás, há aqui o relato de Deus que não apenas cria, mas quer revelar a inteligibilidade da sua criação às suas criaturas inteligentes e, fazendo-o, revela-se ele mesmo a elas na criação. Esta revelação, diz Tomás, dá-se no Verbo, quando, ao contemplá-lo, os anjos veem, de antemão e na própria inteligência de Deus, toda a ratio da criação. Esta contemplação é o que o relato bíblico chama de “houve uma manhã…”. Por outro lado, Deus quer que suas criaturas inteligentes realmente estabeleçam uma relação entre si, que se conheçam e se amem. À contemplação da criação em si mesma, que Deus propõe aos anjos, é o que o relato bíblico chama de “houve uma tarde…”.
Assim, à contemplação das coisas em Deus, feita pelos anjos, chamamos de “conhecimento matutino”. E à contemplação da criação em si mesma, “conhecimento vespertino”.
Havendo, pois, colocado os princípios para resolver o debate, São Tomás passa a revisitar as objeções iniciais.
A primeira objeção lembra que a própria noção de “manhã” e de “tarde” envolvem mistura de luz e trevas, já que estes momentos do dia não são tão brilhantes, por exemplo, do que o sol pleno do meio-dia. Mas, como vimos no artigo anterior, os anjos não se enganam em seu conhecimento natural. Assim, o seu conhecimento não está misturado com trevas. Portanto, diz o argumento, não se pode chamar o conhecimento dos anjos de “matutino” ou “vespertino”.
São Tomás explica que as expressões “manhã” e “tarde” aqui não são tomadas a partir da sua mistura de luz e trevas no sentido cronológico, físico mesmo. Elas são tomadas no sentido de que a “manhã” é o princípio do dia, como Deus é o princípio da inteligibilidade de todas as criaturas, e a “tarde” é o termo, a completude do dia, como a criação, em sua concretude existencial, é o termo, a completude da ação divina.
Ou ainda, diz Tomás, a metáfora pode relacionar-se com o fato de que, comparado com uma coisa, algo pode ser tido como luminoso, enquanto, em comparação com outra, é ainda obscuro. Assim, a manhã, comparada com o entardecer, é muito mais luminoso. Neste sentido, Tomás nos lembra que a nossa própria vida, após o batismo, é considerada “luminosa” em comparação com as trevas em que vivíamos antes (Ef 5, 8), enquanto, se compararmos com a Glória dos santos, que já contemplam a luz de Deus, a nossa vida, mesmo como batizados, ainda é obscura, enquanto somos peregrinos na Terra (2 Pd 1, 19). De modo análogo, diz Tomás, o conhecimento vespertino, ou seja, a luz que decorre da contemplação das coisas em si mesmas, é luz, comparada com a escuridão da ignorância; mas é, de certo modo, ainda penumbra, comparada com a contemplação delas no próprio Verbo de Deus em que consiste o conhecimento chamado de matutino.
O segundo argumento alega que a analogia estaria incompleta, se afirmasse apenas um conhecimento “matutino” e “vespertino” para os anjos, uma vez que existe, ao longo do dia, também o meio-dia e a noite. Assim, deveria haver também um conhecimento meridiano e um conhecimento noturno, para que a analogia ficasse adequada.
Não é assim, diz Tomás. Quando falamos, analogicamente, que os anjos têm o conhecimento matutino e vespertino, referimo-nos apenas aos anjos bem-aventurados; um conhecimento noturno, obscuro, sombrio, não seria uma analogia adequada a eles. Talvez aos demônios se pudesse atribuir algum conhecimento noturno.
Quanto a uma analogia com o zênite do sol no meio-dia, diz Tomás, para que ela fosse adequada teria que ser referente ao conhecimento divino em si mesmo. Assim, um conhecimento meridiano seria o conhecimento que o próprio Deus ostenta, ou ainda a referência que os anjos bem-aventurados fazem, de tudo que conhecem, a Deus, de tal modo que a luz plena é sempre o princípio e o termo de tudo o que contemplam.
Por fim, o terceiro argumento diz que, se a ciência se distingue por seu objeto, e se falamos em “conhecimento matutino” quando o objeto é a razão das coisas como existe na inteligência divina, e de “conhecimento vespertino” quando o objeto são as coisas como existem em si mesmas, deveria haver uma outra nomenclatura para o modo como a razão das coisas existe na própria inteligência angélica, já que esta ratio, ou seja, a species das coisas, existe na inteligência angélica tal como colocada ali por Deus, ou seja, trata-se de uma terceira forma de existir para as coisas, e portanto haveria uma terceira ciência para elas. Portanto não se poderia simplesmente classificar seu conhecimento em matutino e noturno.
Os anjos são apenas criaturas, diz Tomás. Assim, embora as coisas existam, por suas species, na mente angélica, este não é um terceiro modo de existir, para elas, senão uma existência criatural. É certo que, quando conhecemos alguma coisa, esta coisa passa a existir intencionalmente em nossa inteligência. Mas quando, reflexivamente, damo-nos conta de que conhecemos, e que portanto temos a species da coisa como existente em nossa inteligência, este não é um terceiro modo de existir para as coisas. É apenas mais um modo criatural de existir: elas existem como criaturas em si mesmas, e existem como criaturas, intencionalmente, na inteligência que as conhece. Assim, tanto a ciência da existência real das coisas em si mesmas, como a ciência da existência intencional de suas species na mente do anjo também são classificadas sob a noção de conhecimento vespertino.
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