No princípio era o Verbo. Este princípio dá inteligibilidade a tudo o que existe. Isto é o princípio do Evangelho de João, mas é também o princípio da relação do cristianismo com a realidade: vivemos num universo criatural que não é o fruto da decisão arbitrária de um deus prepotente, mas a doação de amor de Deus, uno e trino, para nos fazer filhos no seu Filho. E o seu Filho é o Verbo, ou seja, aquilo que faz sentido em si, que é sentido, que é inteligibilidade plena e que dá inteligibilidade a tudo.
Eis então uma questão interessante que se levanta aqui: se o Verbo é o sentido intrínseco a tudo, será que conhecer o Verbo implica conhecer tudo de antemão e independentemente de estabelecer qualquer relação com as próprias coisas?
Se for assim, então os anjos bem-aventurados, que contemplam Deus, não precisariam estabelecer uma relação com as coisas que conhecem. Eles veriam tudo em Deus, no verbo de Deus, e este seria todo o conhecimento que eles teriam sobre a realidade da criação. Além disso, considerando que eles recebem todo o conhecimento, as species das coisas, de Deus, como conhecimento infuso em seu intelecto no momento de sua criação, pareceria então que eles sabem e veem as coisas em Deus mesmo, e não em si mesmas.
Há uma interpretação muito interessante do primeiro capítulo do Gênesis, feita por Santo Agostinho, na qual ele nota que há uma sequência de acontecimentos seguidas por uma manhã e uma tarde. Ele interpreta, então, esta sequência como se a “manhã” dissesse respeito às coisas, tal como existem no Verbo, e a “tarde” tal como existem em si mesmas. Assim, na criação, as coisas existem primeiro na inteligência do Verbo (manhã) e depois em si mesmas (tarde).
O presente artigo quer testar esta hipótese, a partir da inteligência dos anjos. Será que há, de fato, na inteligência dos anjos, o conhecimento das coisas, tal como existem na mente de Deus (conhecimento matutino), ou apenas o conhecimento vespertino (ou seja, na relação com as coisas em si mesmas, assim como historicamente existentes)?
A hipótese controvertida, para provocar o debate, é a de que não se pode fazer esta distinção, isto é, não há, nos anjos, algo como um “conhecimento matutino” e um “conhecimento vespertino” das coisas.
São três os argumentos objetores, no sentido desta hipótese inicial.
O primeiro argumento diz que a terminologia usada para interpretar o Gênesis é inadequada para aplicar-se ao conhecimento angélico, porque tanto o amanhecer quanto o entardecer envolvem uma mistura de luz e trevas; ora, diz o argumento, trevas implicam erro ou engano. Mas o conhecimento dos anjos sobre as coisas criadas, como vimos no artigo anterior, nunca envolvem erro ou engano. Logo, conclui, não se pode designar o conhecimento angélico de “matutino” ou “vespertino”.
O segundo argumento diz que a jornada de um dia envolve mais do que o amanhecer e o entardecer; além destes momentos, há o sol pleno do meio-dia e a escuridão da noite. Assim, para que a analogia fosse completa, deveríamos poder falar de um conhecimento meridiano, ou seja, do meio-dia, e um conhecimento noturno. Mas a Bíblia não menciona estes momentos, logo, conclui o argumento, a analogia é inadequada, e não deve ser utilizada para descrever o conhecimento angélico.
O terceiro argumento diz que a ciência, isto é, o conhecimento pleno, pelos princípios, das coisas, diferencia-se pelo objeto; uma é a ciência dos mares, outra é a ciência dos seres vivos, e assim por diante. Mas as coisas existem de três modos, e não apenas de dois modos, prossegue o argumento. Elas existem no conhecimento divino (no Verbo), em si mesmas e no intelecto angélico, onde suas species são colocadas a existir por Deus. Assim, se uma é a ciência que os anjos têm das coisas no Verbo, chamada de conhecimento matutino, e outra é a ciência que os anjos têm das coisas em si mesmas, chamada de conhecimento vespertino, deveríamos então achar um outro termo para designar o conhecimento que os anjos têm das coisas como existentes em seu próprio intelecto. Por isto, conclui o argumento, é inadequado falar apenas de dois tipos de ciência, matutina e vespertina, nos anjos.
Por fim, o argumento sed contra cita mais uma vez a autoridade de Santo Agostinho. Este santo diz que os anjos têm conhecimento matutino e vespertino, correlacionando-os ao primeiro capítulo do Gênesis. Logo, conclui o argumento, este conhecimento deve existir deste modo neles.
No próximo texto veremos a resposta sintetizadora de São Tomás.
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