Como vimos no último texto, estamos tratando aqui da possibilidade de engano na mente dos anjos. Será que eles podem equivocar-se, quanto àquilo que conhecem? Anjos podem errar? Podem ter conhecimentos equivocados sobre alguma coisa, ou mesmo ignorar aspectos substanciais daquilo que conhecem?

Vimos a hipótese controvertida que afirma que pode haver erro ou engano na mente dos anjos, quanto àquilo que conhecem. E três argumentos objetores, no sentido desta hipótese inicial. O primeiro lembra que os demônios podem ter pensamentos perversos, e portanto enganam-se, já que a perversidade é um engano. O segundo lembra que os anjos podem ignorar aspectos da realidade, como o futuro, o segredo dos corações e os mistérios divinos; se há coisas que ignoram, então há margem para que cometam enganos em seu intelecto, diz o argumento. Finalmente, o terceiro argumento também lembra que os demônios, que rejeitam a sabedoria de Deus, estão cheios de falsidade e mentira. Por fim, o argumento sed contra cita Aristóteles, para quem o objeto do intelecto é a verdade; e que, portanto, uma vez que sabem por conhecimento infundido por Deus, e não por um processo de aprendizagem sujeito a falhas como o nosso, os anjos não podem enganar-se em seu intelecto, quanto ao conhecimento das coisas naturais.

Vimos, então, que. em sua resposta sintetizadora, São Tomás resgata o debate feito no artigo anterior: o anjo não chega à verdade por meio do julgamento, do caminho de “compor e dividir”, ou seja, às apalpadelas, como nós. Ele intelige a quididade, ou seja, conhece de logo e completamente o objeto do seu conhecimento. Ora, como nos lembra Aristóteles, o intelecto que intelige a quididade não erra, é sempre verdadeiro, como os sentidos o são para o seu sensível próprio. Assim, quando vemos as cores (se nossos olhos são saudáveis, é claro), vemos de fato as cores. Não enxergamos cheiros ou sons. Assim, quando inteligimos quididades, isto é, percebemos que há algo diante de nós como objeto de conhecimento, inteligimos de fato aquilo que examinamos, e não outra coisa.

É preciso, pois, lembrar que, no modo clássico e escolástico de pensar, o intelecto e a vontade das pessoas (sejam pessoas angélicas, humanas ou divinas) têm por objeto próprio, respectivamente, a verdade e o bem. O intelecto não existe para “construir” conhecimentos sobre um objeto que examina. Ele existe para atingir a verdade sobre as coisas. Portanto, nesta visão tradicional, o intelecto não é uma espécie de “acumulador” e “organizador” ativo de informações, mas o receptáculo da verdade sobre as coisas. Portanto, quando o intelecto se engana, ou comete erro sobre o objeto de conhecimento, ele simplesmente não atingiu seu estado de conhecimento adequado. Um intelecto que se engana ou erra é simplesmente um intelecto que ainda não conhece adequadamente.

Portanto, diz Tomás, um intelecto que atinge a quididade de uma coisa, tomando-a por objeto de conhecimento, não pode equivocar-se. Isto significa que quando inteligimos algo, de fato inteligimos aquilo e não outra coisa. Como no caso dos sentidos, com relação aos seus objetos próprios: se vejo algo colorido, sei que vejo as cores daquilo, e não, digamos, seus sons ou sua textura. O olho não pode enganar-se no fato de que enxerga aquilo que existe como cor e luz, e não aquilo que existe como som ou cheiro, por exemplo.

Ocorre que aquelas coisas que se apresentam naturalmente ao nosso intelecto não são simples, isto é, são compostas de vários elementos, e isto pode causar o engano para nós, que conhecemos processualmente, mediante a experiência empírica e o raciocínio. Assim, imaginemos que percebemos um animal voando e notamos, numa observação apressada, que ele tem quatro patas. Assim, chegamos à conclusão de que há animais voadores de quatro patas. Mas na verdade trata-se de um esquilo planador, que não é um animal voador, mas apenas um animal terrestre que tem a capacidade de planar. Neste caso, nosso intelecto não se engana na percepção de que há ali um ente, nem na percepção de que ele é um ser vivo que tem a capacidade de locomover-se, ou seja, um animal. Mas engana-se com relação a um elemento que, por um erro de percepção, é atribuído a um ser que não o ostenta. Poderia haver engano, também, quando, ao nos depararmos com um minério dourado brilhante, atribuíssemos a ele a definição do ouro, quando na verdade trata-se de pirita, o chamado “ouro dos tolos”. Assim, diz Tomás, há duas maneiras pelas quais um intelecto pode se enganar, ao conhecer alguma coisa: atribuindo-lhe algum elemento que não lhe pertence, como o voar não pertence ao esquilo planador, ou quando atribuímos a alguma coisa, em razão de semelhança, a definição que pertence a outra coisa. Ambas as hipóteses envolvem ter como objeto de conhecimento uma coisa composta de diversos elementos, por um lado, e um processo de aquisição de conhecimento processual e por meio sensível, por outro.

Este engano não ocorreria em duas condições:

1) Se o objeto do conhecimento fosse uma coisa simples, sem composição, ou

2) se o intelecto do sujeito que conhece não precisasse de um processo para atingir o seu conhecimento.

Quanto à primeira hipótese, objetiva, é certo que nós, humanos, não chegamos a conhecer naturalmente nenhum ser simples, porque nosso intelecto está condicionado pela composição que é própria de nossa essência. Somos capazes de descobrir e aprender naturalmente apenas sobre os seres compostos. Mas se pudéssemos conhecer naturalmente um anjo, não nos enganaríamos com sua identidade, porque ele é simples, isto é, não tem composição. Tomás, citando Aristóteles, diz que, com relação às coisas simples, não há engano possível: ou as conhecemos ou as ignoramos. Assim, um anjo não se engana quando conhece outro anjo, porque não há composição de elementos no objeto capaz de levar ao engano. Não haveria, como no exemplo do esquilo, quatro patas e uma membrana que se assemelha a uma asa, além do efeito de planar, capaz de levar à conclusão de que se trata de um quadrúpede capaz de alçar voo, quando na verdade ele não o é.

Quanto à segunda hipótese, subjetiva, tampouco neste caso os anjos poderiam errar no seu conhecimento natural, mesmo tendo por objeto de conhecimento algum ente composto. É que o anjo não adquire conhecimento de modo processual, por exploração empírica, por raciocínio indutivo ou dedutivo. Anjos não aprendem, porque são criados com todas as species, ou seja, com a similitude intelectual de todas as coisas em seus intelectos. Eles recebem sua intelecção sobre as coisas naturais diretamente de Deus. Assim, deparando-se com o nosso esquilo planador, por exemplo, o anjo é capaz de saber, direta e infalivelmente, que tipo de ser é aquele, todas as suas características e capacidades, sem enganar-se, mesmo quando se trata de um ser composto. Uma vez que não precisa do exame empírico nem do processo de raciocínio para conhecer, ele simplesmente sabe do que se trata, porque já tem a species de todos os entes naturais em seu intelecto. Portanto, pelo aspecto subjetivo do conhecimento, isto é, pela própria estrutura do seu modo de conhecer, o intelecto angélico não pode enganar-se no conhecimento das coisas naturais.

Ocorre que a species da coisa, que está infusa no intelecto do anjo, dá a ele um conhecimento infalível sobre aquilo que pertence naturalmente à coisa. Os elementos sobrenaturais não estão abrangidos por este conhecimento. Portanto, aos anjos bem-aventurados, o conhecimento a respeito dos aspectos sobrenaturais advém da participação na sabedoria divina, não da species naturalmente infusa. Ora, se eles participam da sabedoria divina, não se enganam tampouco com relação a estes aspectos, na medida que Deus lhas revela e eles podem alcançar.

Mas os demônios, ou seja, aqueles anjos que escolheram rebelar-se contra Deus, não têm acesso à sabedoria divina, e portanto não podem julgar infalivelmente sobre os aspectos sobrenaturais de algo que conhecem apenas sob os aspectos naturais. Tomás exemplifica com a ressurreição dos justos: o demônio não pode saber infalivelmente quem ressuscitará para a vida e quem ressuscitará para a perdição, porque isto envolve conhecer sobre a graça divina e eles não têm acesso a este conhecimento. Também não seriam capazes de conhecer a divindade de Jesus Cristo apenas contemplando a pessoa humana de Jesus.

Estabelecidos estes princípios, Tomás passa a responder em bloco às objeções iniciais. Os anjos maus, diz ele, escolheram afastar-se da sabedoria divina. Entregues, pois, à própria perversidade, enganam-se com relação ao verdadeiro bem, e por isto enganam-se no conhecimento do que é sobrenatural e depende da ordenação direta de Deus. Quanto ao conhecimento das coisas naturais, basta o que já foi dito: há engano possível, acidental, com relação às coisas compostas, mas este engano não atinge o conhecimento dos anjos, mesmo daqueles maus, quanto àquelas coisas naturais.