O debate aqui consiste em perquirir exatamente em que sentido o intelecto dos anjos pode estar “em potência”, ou seja, num estado potencial, não atual, não efetivamente portador de conhecimento. Vimos, no texto passado, que a hipótese aqui é a de que o intelecto dos anjos às vezes está em estado potencial. São três os argumentos objetores, todos no sentido de que há potências no intelecto angélico, e um argumento sed contra, que cita Santo Agostinho, no sentido de que os anjos beatos contemplam o Verbo, e portanto têm a plenitude do conhecimento em ato.
Em sua resposta sintetizadora, São Tomás faz uma daquelas suas distinções maravilhosas, que ajudam a posicionar corretamente o problema.
Precisamos lembrar, neste momento, que, para Tomás, o conhecimento é um hábito, ou seja, uma virtude que, sendo um meio caminho entre a natureza e o ato, aperfeiçoa seu portador, habilitando-o a atualizar suas capacidades de maneira fácil. O hábito é uma verdadeira segunda natureza. Estamos acostumados a pensar nos hábitos como aspectos da vida moral da pessoa, e a ciência ou conhecimento como o acúmulo impessoal de dados e informações sobre determinado assunto. Mas para Tomás não é assim. A ciência existe propriamente no intelecto de alguém, e consiste no aperfeiçoamento das capacidades intelectuais através do conhecimento sobre algum aspecto da natureza. Assim, tanto quanto dizemos que a coragem é uma virtude que aperfeiçoa a vontade, fazendo-a superar o medo, podemos dizer que um cientista tem o hábito da ciência quando ele tem o conhecimento sobre o campo de estudo em que atua, de tal modo que seu intelecto, neste aspecto, é mais perfeito do que o intelecto de alguém que ignora. A ciência não está nas bibliotecas nem nos laboratórios como acúmulo frio de informações. Está nas mentes que conhecem e são capazes de acessar e articular este conhecimento. É neste sentido que a ciência é um hábito, e não um mero acúmulo.
Feita esta digressão inicial, voltemos a Tomás.
Há duas maneiras, diz Tomás, em que podemos dizer que um intelecto está em potência para algum conhecimento.
A primeira maneira é aquele potencial que se encontra na mente de quem ignora alguma coisa. Antes de aprender ou descobrir, a inteligência tem a capacidade de saber, mas ainda não sabe. Ou seja, o intelecto está, neste caso, em potência para o conhecer.
Mas há outra maneira de entender que um intelecto pode estar em potência: é quando ele tem a ciência em hábito, mas não está atualmente utilizando o conhecimento. Assim, um grande cientista que dorme, ou um professor de matemática genial que está conversando animadamente sobre o desempenho do seu time de futebol com os amigos não deixam de ter o hábito da ciência que os aperfeiçoa, mas não o estão utilizando naquele momento; e, em certo sentido, o seu intelecto está em potência para o uso do conhecimento que eles têm.
Assim, prossegue Tomás, o intelecto dos anjos, com relação às coisas naturais, nunca está em potência para algum conhecimento. Os anjos não ignoram nada do mundo natural, nem precisam aprender sobre ele. Já vimos isto na questão 57. Eles têm todo este conhecimento em hábito em seu intelecto.
E quanto às coisas divinas? Quanto aos mistérios de Deus, inclusive o mistério da nossa redenção, os anjos não os conhecem naturalmente. Ignoram-nos, portanto, até que lhes sejam revelados pelo próprio Deus, e na medida que Deus os quiser revelar. Neste sentido, podemos dizer que, mesmo no sentido pelo qual dizemos que um intelecto está em potência porque ignora algum conhecimento, certamente o intelecto dos anjos está naturalmente em potência para os mistérios divinos, no primeiro sentido acima, ou seja, de potência intelectual como ignorância e capacidade de aprender.
Também com relação ao segundo sentido, temos que considerar que os anjos não são oniscientes. Ou seja, nem sempre eles estão pensando atualmente sobre tudo o que sabem. Há conhecimentos que estão sendo considerados neste momento, e outros que permanecem latentes, como hábito, em seu intelecto, mas não estão atualmente em uso. Neste sentido, se consideramos as coisas que os anjos consideram efetivamente num momento, perante todas as coisas que eles sabem, podemos dizer que o seu intelecto pode estar, de certo modo, em potência para o conhecimento habitual das coisas naturais que não está sendo considerado em ato num determinado momento.
Aqui, é preciso acrescentar um detalhe: quando falamos dos anjos que optaram por Deus, ou seja, os anjos bem-aventurados, em oposição àqueles que se recusaram a servir, e são os demônios, precisamos lembrar que a sua bem-aventurança consiste justamente em contemplar o Verbo de Deus, e, nele, contemplar todas as coisas. Eles veem, portanto, por graça, o Verbo em sua essência, e é exatamente nesta visão que consiste a sua bem-aventurança. Ora, com relação a esta visão beatífica, diz Tomás, eles não estão em potência, mas em ato, porque a beatitude consiste exatamente no ato de ver a essência divina no Verbo.
Colocados os elementos para encaminhar a solução do debate, Tomás passa a examinar os argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento lembra que a noção de mover-se é muito mais ampla do que a ideia de deslocamento espacial, porque envolve, como lembra Aristóteles, qualquer passagem da potência ao ato. Ora, prossegue o argumento, o Pseudo-Dionísio lembra que as mentes angélicas, quando inteligem, movem-se; disso, o argumento conclui que os anjos às vezes estão em potência em seus intelectos.
Tomás responderá que este movimento intelectual mencionado pelo Pseudo-Dionísio não pode ser compreendido, aqui, como uma passagem de um estado de imperfeição, de ignorância, a um estado de conhecimento, mas apenas como a capacidade de efetivamente usar um intelecto que já é perfeito. É neste sentido que podemos dizer que inteligir e sentir são movimentos de perfeição naqueles que têm a perfeição do hábito de usá-los. Pensemos num perfumista hábil experimentando um raro perfume; ele sente de fato o aroma, e é capaz de apreciá-lo perfeitamente, não porque antes o desconhecesse, mas exatamente porque o conhece previamente. Este, portanto, é o movimento da perfeição, não o trânsito da incompletude à completude.
O segundo argumento diz que desejar algo é querer o que ainda não se tem, mas que se é capaz de ter. Assim, se dissermos que alguém deseja inteligir alguma coisa, temos que admitir que ele ainda não tem aquele conhecimento, mas tem a capacidade de tê-lo. O que equivale a dizer, conclui o argumento, que o intelecto dos anjos às vezes está em potência.
A resposta de Tomás é bem interessante. De fato, diz Tomás, quando dizemos que os anjos desejam o conhecimento, nem sempre isto significa que eles querem adquirir um conhecimento novo sobre algo que ignoram. Com relação às coisas naturais, ou mesmo às coisas sobrenaturais que já são de seu conhecimento, isto significa simplesmente que o anjo tem prazer, ama o conhecimento que tem; os anjos nunca estão entediados ou fastidiosos com o que conhecem, mas sabem dar valor ao que sabem. Com relação às coisas sobrenaturais e divinas, isto significa de fato que os anjos estão sempre prontos para conhecer coisas novas sobre Deus e seus mistérios maravilhosos, sempre que é oportuno ou necessário à sua missão.
Por fim, a terceira objeção diz que, como cada inteligência intelige ao modo de sua substância (a inteligência divina intelige divinamente, a inteligência humana depende da matéria para inteligir), é próprio dos anjos que a sua essência e a sua existência relacionem-se como potência e ato; ora, se os anjos não são puro ato, mas ato e potência, então sua inteligência também deve ser ato e potência, conclui o argumento.
Mas não é assim. Eis aí um erro metafísico, diz Tomás. Nada há no anjo que seja uma potência sem o respectivo ato. Mesmo a sua essência, se estava em potência para existir, uma vez criado o anjo ele existe em ato. Portanto, tampouco se pode concluir disso que ele tenha potências intelectuais. Sua inteligência está plenamente em ato, nos termos da resposta sintetizadora acima.
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