Vimos, então, no artigo anterior, exatamente em que sentido um anjo sabe, e em que sentido ele é capaz de aprender. Neste artigo o debate será sobre outro aspecto da inteligência angélica; será que ele pode pensar em diversas coisas simultaneamente?

É muito interessante ver como Tomás está interessado em testar os limites e o funcionamento da inteligência dos anjos, e como ele está, a um só tempo, marcando sua criaturalidade (de modo a desfazer qualquer ideia de que eles possam ter atributos divinos) e, por outro lado, mostrando como eles diferem de nós, humanos. Isto é de uma importância enorme, porque desfaz qualquer risco de uma religiosidade gnóstica: no fundo, todo desvio gnóstico ou vem de ideia de que os anjos são deuses, ou de que nós, humanos, somos anjos. Assim, marcar a diferença entre ao anjos e Deus, por um lado, e os anjos e os seres humanos, por outro, é entender melhor o ser humano, sua inteligência e sua fé. De essencial importância, portanto.

A hipótese controvertida, para provocar o debate, é a de que o anjo não poderia pensar simultaneamente em muitas coisas. Ou, em linguagem técnica, o anjo não pode inteligir muitas coisas simultaneamente. São três os argumentos objetores iniciais.

O primeiro cita Aristóteles (ou “o” filósofo, como a Suma se refere a ele), que ensina que podemos conhecer muitas coisas, mas inteligir efetivamente apenas uma de cada vez. Assim, o argumento conclui que o anjo não pode pensar em muitas coisas ao mesmo tempo.

O segundo argumento diz que o intelecto, quando traz alguma coisa ao pensamento, toma a forma daquela coisa, como se pegássemos um pedaço de massa de modelar e esculpíssemos aquilo que estamos pensando. Não dá para esculpir várias coisas simultaneamente no mesmo pedaço de massinha sem transformar a massinha em alguma coisa irreconhecível. Nossa inteligência é como aquela massinha: toma uma forma de cada vez, para não ficar ininteligível aquilo em que pensa. Assim, o argumento conclui que os anjos inteligem apenas uma coisa de cada vez.

O terceiro argumento lembra, como vimos nos últimos textos do artigo anterior, que inteligir é um tipo de movimento. Mas qualquer movimento só faz sentido se tiver um rumo certo, ou seja, quando move-se para um lugar só, um lugar distinto e determinado (tomando a palavra “lugar”, aqui, em seu sentido figurado de meta, ponto de chegada). Assim, o argumento conclui que o intelecto, ao inteligir, move-se de modo a pensar numa coisa só de cada vez, ou então não entende nada. Isto inclui os anjos, diz o argumento, que seriam capazes de inteligir apenas uma coisa de cada vez.

O argumento sed contra cita Santo Agostinho, que, falando da capacidade intelectual dos anjos, afirma textualmente que o poder da mente dos anjos é tão grande que eles são capazes de compreender tudo o que quiserem, de modo fácil e simultâneo.

No próximo texto veremos a resposta sintetizadora de São Tomás.