Como vimos nos artigos anteriores, os anjos não precisam aprender sobre o mundo natural. Eles têm todo o conhecimento impresso em sua inteligência desde a sua criação. Mas não podem entrar nos corações alheios para ler pensamentos, muito menos podem conhecer naturalmente aquilo que está no coração de Deus mesmo. Então os anjos não têm o conhecimento natural sobre aquilo que está no coração de Deus.
Como poderiam eles conhecer, então, os mistérios da graça? Foi esta pergunta que encerrou o texto anterior. Vamos examinar agora sua resposta.
Além do modo natural de conhecimento, existe outro modo angélico de conhecer, que envolve a posse de conhecimentos de modo não natural, ou sobrenatural. É o modo próprio daqueles anjos bem-aventurados, que estabelecem amizade com Deus e passam a ver as coisas no Verbo divino. É certo que, mais adiante, ainda aqui no Tratado sobre os Anjos, debateremos a bem-aventurança dos anjos e sua visão beatífica. Por ora, basta-nos saber que a visão beatífica no verbo é uma relação do anjo com a liberdade suprema de Deus. Assim, não concede a todos os anjos todo o conhecimento da intimidade divina no mesmo grau, mas na medida com que Deus mesmo a quiser revelar a quem ele ama, no seu Espírito (cf. 1 Cor 2, 10). Assim, os anjos superiores, que contemplam mais profundamente os mistérios divinos na bem-aventurança, podem conhecer mais profundamente estes mistérios, iluminando com eles os anjos inferiores, que não têm tal poder de penetração. Ora, se os anjos não precisam aprender nada quanto ao mundo material, aqui, no terreno da graça e da intimidade com Deus na bem-aventurança, os anjos têm que aprender do Espírito Santo estes mistérios; alguns o fazem desde o princípio, havendo optado por Deus desde logo. Outros receberam este conhecimento posteriormente, conforme seria necessário às suas respectivas missões. Eis aqui, portanto, um campo em que os anjos têm o que aprender.
Colocados os critérios para encaminhar o debate, Tomás passa a revisitar os argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento lembra Agostinho, que diz que os anjos conhecem os grandes mistérios ocultos de Deus, e cita 1 Tim 3, 16, no mesmo sentido. E conclui que os anjos conhecem os mistérios da graça de Deus.
Tomás vai mais uma vez fazer uma das suas célebres distinções. Os anjos bem-aventurados receberam, por graça, conhecimento dos mistérios ocultos de Deus relacionados com a encarnação salvífica de Nosso Senhor Jesus Cristo. E esta Revelação ocorreu desde o momento em que eles entraram na bem-aventurança, ou seja, que optaram, definitiva e irrevogavelmente, por Deus. Mas este conhecimento tem dois modos, diz Tomás.
O primeiro modo é o conhecimento genérico destes mistérios. Este conhecimento, diz Tomás, é dado a todos os anjos bem-aventurados, no momento mesmo em que escolhem a vida em Deus. É que este conhecimento do fato da encarnação é pressuposto do seu ministério angelical, como registrado na Carta aos Hebreus, 1, 14: “Não são, todos os anjos, espíritos a serviço de Deus, que lhes confia missões para o bem daqueles que devem herdar a salvação?” Ora, se é assim, é necessário que todos os anjos que estão na vida divina, servindo a Deus, tenham um conhecimento, ao menos, genérico, dos mistérios da salvação, desde o momento mesmo em que escolheram a vida beatífica e o serviço a Deus.
Mas quanto aos detalhes da missão salvífica de Jesus, à concretude mesma de suas vicissitudes, estes aspectos especialíssimos não foram revelados a todos os anjos beatos; eles a aprenderam depois. E isto se aplica mesmo a anjos superiores, como testemunha a citação do Pseudo-Dionísio, citada no argumento sed contra, que mostra os anjos aprendendo de Jesus sobre a sua missão.
O segundo argumento diz que, uma vez que as razões da missão salvífica de Jesus estão na sabedoria divina, todos os anjos bem-aventurados as conheceriam apenas pelo simples fato de serem beatos, e contemplarem a sabedoria de Deus em sua beatitude.
De fato, diz Tomás, os anjos bem-aventurados, ou beatos, que são aqueles que optaram irrevogavelmente por servir a Deus, contemplam a sabedoria divina e têm acesso aos seus mistérios. Mas não são capazes de esgotar os mistérios divinos nem de conhecê-los em todo seu número e profundidade. Assim, o fato de contemplarem a sabedoria divina não determina que eles sabem tudo sobre Deus.
Por fim a objeção dos profetas. Se Deus não faz nada sem informar aos profetas, diz o argumento, e se os profetas são informados dos desígnios de Deus através dos anjos, então os anjos conhecem todos os mistérios da graça, conclui.
De fato, tudo o que os profetas conheceram e anunciaram foi conhecido mais perfeitamente, e anteriormente, pelos anjos, ensina Tomás. Mas há algumas considerações a respeito da própria pedagogia da Revelação divina que é preciso levar em conta aqui, como nos ensinará São Tomás.
A Revelação é gradual, lembra Tomás. E isto é perfeitamente adequado com o que foi dito, acima, a respeito do conhecimento que os anjos têm sobre ela. De fato, os profetas conheceram o desígnio de Deus, mas não o conheceram de uma vez, de forma completa. Houve um aprofundamento deste conhecimento, que chegou ao seu ápice nos Apóstolos, como diz São Paulo na Carta aos Efésios (3, 4-5): “Lendo-me, podereis entender a compreensão que me foi concedida do mistério cristão, que em outras gerações não foi manifestado aos homens da maneira como agora tem sido revelado pelo Espírito aos seus santos apóstolos e profetas”.
Por isto, o fato de que os anjos revelaram os desígnios divinos aos profetas, e que os anjos conheciam tais desígnios ainda mais perfeitamente que eles, não implica que eles conhecessem tudo desde sempre.
A própria Revelação na primeira aliança conhece a gradualidade, sendo certo que os profetas mais antigos conheciam-na de modo menos completo que os profetas posteriores. E ele cita, aqui, o salmo 118, em que, no versículo 100, o salmista assegura: “Sou mais sensato do que os anciãos, porque observo os vossos preceitos”. São Gregório Magno, numa de suas homilias, nos assegura esta gradualidade, ensinando que “com o passar dos tempos, cresceu o conhecimento de Deus”.
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