Até agora, examinamos os princípios do conhecimento natural dos anjos. Neste artigo, embora inserido na questão sobre o conhecimento que os anjos têm a respeito das coisas materiais, aparentemente trata da coisa mais imaterial possível, a graça de Deus. Mas não se trata da graça como favor, como relação com Deus, como força que Deus concede àqueles que recebem os sacramentos ou visam fazer o bem. Trata-se, aqui, dos mistérios da graça como relacionados com a encarnação do Verbo; trata-se, portanto, de conhecer aquilo que se esconde mais além da materialidade de Jesus, vale dizer, que ele, segunda Pessoa da Trindade, encarnar-se-ia, sofreria, morreria e ressuscitaria para nossa salvação. Em que medida isto era do conhecimento dos anjos?
A hipótese controvertida, aqui, é a de que os anjos conhecem estes mistérios em toda a sua densidade teológica, isto é, todos os anjos sabem, naturalmente, que Jesus é Deus e que se encarnaria, padeceria, morreria na cruz e ressuscitaria por nós.
São três os argumentos objetores, no sentido desta hipótese controvertida inicial.
O primeiro lembra que o mistério mais importante, o mistério fundamental, é a encrnação da segunda pessoa da Trindade em Jesus Cristo. Ora, diz o argumento, Santo Agostinho nos ensina que os anjos conhecem este mistério “desde o princípio”, dizendo que ele estava escondido em Deus desde toda a eternidade, “mas não deixou de ser conhecido pelos principados e potestades no céu”. Ora, prossegue o argumento, sabemos que a expressão “principados e potestades” indica os anjos, e isto é confirmado pelas Escrituras, quando São Paulo nos ensina, em 1Tim 3, 16, que este grande mistério foi “visto pelos anjos”. Disto tudo o argumento conclui que os anjos conhecem os mistérios da graça desde sempre.
O segundo argumento diz que as razões de todos estes mistérios, ou seja, dos mistérios da graça contidos na encarnação redentora de Jesus, estão contidas na divina Sabedoria. Ora, prossegue o argumento, os anjos contemplam a própria Sabedoria divina, na essência de Deus. Logo, conhecem em primeira mão tais mistérios, conclui o argumento.
Por fim, o terceiro argumento resgata a ideia bíblica de que os profetas são instruídos pelos anjos. Mas, lembra o argumento, o profeta Amós (3, 7) expressamente nos diz que “Deus não faz nada sem revelar antes os seus segredos aos profetas, seus servos”. Assim, se os anjos são os mestres dos profetas, e os profetas chegam ao conhecimento dos mistérios da graça divina através deles, diz o argumento, seria forçoso admitir então que os anjos conhecem esses mistérios.
Por fim, o argumento sed contra lembra que quem conhece alguma coisa não precisa perguntar sobre ela nem aprendê-la. Mas o Pseudo-Dionísio traz um relato de que os anjos, mesmo os mais elevados, interrogam a Jesus e aprendem dele os mistérios da graça divina, em passagens das Escrituras que ele interpreta como se refletissem este relacionamento dos anjos com Jesus, em que eles perguntam e Jesus responde. São passagens como Isaías 63, 1, que ele interpreta como se os anjos perguntassem a Jesus: “Quem é este que vem de Edom, de Bosra, as vestes tintas, envolvido em um traje magnífico, altaneiro na plenitude de sua força?”; e a resposta, que ele interpreta como sendo de Jesus aos anjos: “Sou eu, que luto pela justiça e sou poderoso para salvar”. Assim, por entender que estes diálogos representam a demonstração de que os anjos têm que perguntar pelos mistérios da graça a Deus, de modo a serem neles instruídos, o argumento conclui que eles não sabem naturalmente sobre tais mistérios.
Em sua resposta sintetizadora, São Tomás vai nos ensinar sobre o modo de conhecer dos anjos. De fato, diz Tomás, os anjos têm dois modos de conhecer.
O primeiro modo de conhecer é o conhecimento natural. De fato, com relação às coisas criadas, os anjos não precisam aprender nada. Eles têm impressas em sua inteligência, desde a sua geração, as espécies de todas as criaturas, de modo a conhecê-las sem precisar aprender sobre elas.
Mas há o conhecimento sobrenatural, isto é, daquilo que é próprio de Deus e está na vontade divina. Ora, se, como vimos nos artigos anteriores, os anjos não podem entrar nos corações alheios para ler pensamentos, muito menos podem conhecer naturalmente aquilo que está no coração de Deus mesmo. Então os anjos não têm o conhecimento natural sobre aquilo que está no coração de Deus.
Como poderiam eles conhecer, então, os mistérios da graça?
É o que veremos no próximo texto.
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