No texto anterior, percebemos que a primeira maneira de conhecer o que está oculto nos corações alheios, ou seja, ler os pensamentos, é a maneira indireta, partindo dos efeitos para as causas. É deste modo que, examinando os sinais exteriores, podemos eventualmente perceber o que uma pessoa está pensando ou sentindo, mesmo que ela muitas vezes não nos diga, ou nem queira dizer. Estão aí os fundamentos dos aparelhos detectores de mentira ou as técnicas de psicólogos ou psiquiatras para lidar com criminosos ou psicopatas, por exemplo. Nesta forma indireta de conhecer, diz Tomás, os anjos e os demônios são muito mais hábeis do que nós. Com uma inteligência muito mais aguda, eles são capazes de perceber as intenções ocultas nos corações alheios de uma forma muito mais precisa. Mas não conseguem ler pensamentos. Não diretamente.

A segunda maneira pela qual as coisas ocultas nos corações, nas consciências e nas vontades podem ser conhecidas é a maneira direta. Trata-se propriamente de conhecer diretamente os segredos dos pensamentos dos outros. Somente o próprio sujeito e Deus têm acesso a estes segredos. A razão disto é que, sendo Deus nosso criador e nosso fim último, somente com ele temos uma relação de dependência absoluta, tanto com relação ao nosso ser mesmo, como com relação às nossas atividades e operações, que têm nele o fim último. É certo, diz Tomás, que este assunto, o da nossa total dependência para com Deus, bem como a nossa completa transparência para com ele, deve ainda ser aprofundado aqui na Suma, em artigos mais adiante. A nossa vontade, sendo criada por Deus e estando dirigida a ele, é um segredo, portanto, para qualquer criatura. E como os nossos pensamentos, o nosso conhecimento e mesmo os nossos sentimentos mais profundos estão intrinsecamente ligados à nossa vontade, porque pensamos, conhecemos e sentimos o que queremos e quando queremos, as demais criaturas só podem ter acesso a estas camadas de nosso ser se quisermos (ressalvado o conhecimento que elas podem ter pela via dos efeitos, que examinamos no parágrafo anterior). E isto está muito bem documentado nas Escrituras, quando por exemplo, São Paulo nos diz em 1 Coríntios 2, 11, que ninguém conhece as coisas que há no homem, senão o espírito do homem que nele reside. Portanto, os anjos não podem conhecer diretamente o conteúdo da nossa intimidade espiritual. Mas são muito capazes de deduzi-los.

Tendo estabelecido os princípios, Tomás passa a examinar os argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento lembra que Jesus afirmou que, na ressurreição, seremos semelhantes aos anjos (Mt 22, 30). E São Gregório, comentando o Livro de Jó, diz (28, 17) que, após a ressurreição final, em nossos corpos gloriosos, seremos transparentes a todos, quanto a nossos pensamentos e desejos. Ora, se os corpos gloriosos são semelhantes aos anjos e são transparentes quanto aos seus pensamentos, então, para os anjos, pensamentos e desejos íntimos são transparentes, e eles conseguem ler pensamentos.

São Tomás responde que esta dupla equiparação está equivocada. Hoje, diz Tomás, nosso corpo está maculado pelo pecado original, e ainda não é um corpo glorioso. Assim, ele é como que opaco, capaz do engano, da mentira, do encobrimento. Na ressurreição, não haverá mais o engano, a mentira e o encobrimento, e neste sentido seremos transparentes, ou seja, verdadeiros e coerentes em pensamentos e palavras, atos e omissões. Mas esta opacidade não é a única causa pela qual os pensamentos e desejos íntimos estão ocultos dos outros. A outra causa é a vontade da pessoa. Como somos livres, podemos eleger com quem compartilhar mais nossa intimidade mais secreta, e com quem manter uma relação menos íntima, ou mesmo deixar de expor sua própria intimidade. Entre os anjos é assim hoje. Eles têm livre arbítrio com relação à sua própria intimidade, e assim podem deixar-se ver em seus pensamentos íntimos, ou podem simplesmente decidir ocultá-los de alguém. Isto acontecerá também conosco, mesmo na ressurreição final.

O segundo argumento diz que os seres corpóreos manifestam-se pelo formato, ou seja, pela figura externa com que aparecem para os outros; a figura corpórea é a manifestação fenomenológica dos corpos, diríamos nós hoje. Ora, prossegue o argumento, a manifestação das inteligências incorpóreas é a sua inteligência em ação, isto é, o conteúdo dos seus pensamentos e conhecimentos. Ora, se a manifestação fenomenológica das inteligências incorpóreas é a expressão do conteúdo da inteligência, e se um anjo pode conhecer o outro, significa que eles podem ler os respectivos pensamentos.

De fato, diz Tomás, as espécies inteligíveis dos anjos, que lhes constituem a inteligência, são transparentes para os outros anjos, quando eles se conhecem. Mas isto não significa, completa ele, que os anjos sejam capazes de conhecer o que o outro está efetivamente pensando ou querendo num determinado momento. Isto é o segredo dos seus corações, e eles escolhem revelar ou não, a quem e quando.

Por fim, o terceiro argumento objetor afirma que a nossa faculdade intelectual é mais semelhante aos anjos do que as nossas faculdades sensoriais, como os sentidos, a memória e a imaginação. Mas os anjos podem atuar sobre as nossas faculdades sensoriais, que lhes é mais dessemelhante. Logo, conclui o argumento, com muito mais razão eles poderiam atuar nas faculdades intelectuais humanas.

São Tomás vai nos dar, agora, uma pequena aula sobre a estrutura das faculdades sensoriais. Nos animais, as faculdades sensoriais estão presentes, como sabemos. Eles têm sentidos, têm o senso comum, têm a estimativa, a memória e a imaginação. Mas, como são desprovidos de intelecto, seus apetites não se submetem à crítica da inteligência, de tal modo que reagem por instinto aos estímulos sensoriais que percebem ou recebem. Assim, uma vez que os anjos têm poder sobre a matéria, como já vimos, é fácil para eles conhecer e até atuar nas faculdades sensórias animais. Ora, nós humanos também somos animais, e por isso temos as mesmas faculdades sensórias que eles, sobre as quais os anjos podem atuar – em razão do poder que eles têm sobre a matéria. Eles podem, de fato, influenciar em nossa memória e em nossa imaginação, sugerindo, alterando e insinuando, eventualmente até tentando. Mas, lembra Tomás, somos animais racionais, e isto significa que, de regra, nossos apetites sensoriais estão submetidos à nossa inteligência. Por isto, num homem virtuoso, a memória e a imaginação estão ordenados à inteligência, de tal modo que os anjos podem influir nelas, mas não ter acesso aos conteúdos, se devidamente ordenados pela vontade do sujeito. Por isto, o acesso que os anjos podem ter a faculdades humanas como a memória e a imaginação não implica acesso à própria vontade e à própria consciência humana, quando a pessoa humana não o quer. Daí, acrescentamos, a importância do desenvolvimento das virtudes para impedir acessos demoníacos ao nosso coração.