Ainda na linha de descobrir os limites da capacidade cognitiva dos anjos, trata-se aqui de debater se os anjos são capazes de ler pensamentos. Se são capazes de penetrar na intimidade da nossa consciência e descobrir nossos sentimentos, nossos desejos, nossos segredos, tudo aquilo que está em nossa mente mas não expressamos para o exterior. E não só o que está no segredo dos nossos corações humanos, mas até os pensamentos dos outros anjos. E a hipótese controvertida proposta agora, para provocar o debate, é a de que os anjos podem ler pensamentos e descobrir o que há no segredo de mentes e corações, quer dos humanos, quer de outros anjos, mesmo sem ser expressado.
São três os argumentos objetores no sentido desta hipótese controvertida inicial.
O primeiro argumento resgata uma passagem do Livro de Jó (28, 17), em que se diz que a sabedoria é superior ao ouro ou ao cristal; ao que São Gregório Magno, em seu Comentário ao Livro de Jó (Moralia), afirma que, na ressurreição final, quando ressurgirmos corporalmente, conheceremos aos outros assim como conhecemos a nós mesmos, quer dizer, seremos transparentes mesmo em nossos pensamentos mais íntimos. Mas ocorre que o próprio Jesus, numa passagem registrada em Mateus 22, 30, diz que, na ressurreição, seremos “semelhantes aos anjos”. Ora, se na ressurreição seremos transparentes por sermos semelhantes aos anjos, diz o argumento, então parece haver fundamento para deduzir que os pensamentos mais reservados nas consciências são transparentes aos anjos, e disso o argumento conclui que os anjos podem ler pensamentos.
O segundo argumento sugere que, dentre as coisas materiais, o que nos torna visíveis é a nossa aparência, ou seja, a figura, o nosso formato, nos torna manifestos aos demais. Mas os anjos não têm olhos, e portanto não enxergam a aparência. Mas são capazes de perceber aquilo que é inteligível. Ou seja, eles percebem as coisas pela inteligibilidade delas. Ocorre que, nos seres imateriais inteligentes como os anjos, a sua inteligibilidade se confunde com a sua inteligência, que existe por pensar e conhecer. Assim se dá também com a alma humana: somos evidentes para os anjos por sermos seres inteligentes, e a nossa inteligência se torna manifesta na sua operação, ou seja, pensando. Portanto, o argumento acredita que o pensamento está para a percepção dos seres inteligentes como a figura está para a percepção dos seres materiais. Portanto, como os anjos são seres inteligentes imateriais que percebem os outros seres, eles o fazem exatamente conhecendo-lhes o pensamento. E disso o argumento conclui que os anjos podem ler pensamentos.
O terceiro argumento lembra que o nosso intelecto é semelhante ao intelecto do anjo: é uma faculdade imaterial capaz de pensar e de conhecer. Ora, prossegue o argumento, sabe-se que o anjo é capaz de exercer poder sobre os nossos sentidos, fazendo-nos, por exemplo, ver ou ouvir o que não existe, e portanto tem poder sobre nossa memória e nossa imaginação, que são atributos materiais em nós, ligados às nossas faculdades sensoriais. É através deste poder que tanto recebemos boas inspirações do anjo da guarda quanto somos eventualmente tentados pelos demônios. Ora, prossegue o argumento, se os anjos têm acesso às nossas faculdades sensoriais como a memória e a imaginação, que são faculdades materiais, e portanto bastante dessemelhantes aos anjos, muito mais terão acesso, conclui o argumento, à nossa inteligência, onde estão guardados nossos pensamentos. E disso o argumento deduz que os anjos podem ler nossos pensamentos.
O argumento sed contra vai lembra que os anjos não são deuses, mas criaturas. Assim todos os poderes e faculdades que são privativas de Deus não estão presentes nos anjos. Ora, diz o argumento, as Escrituras nos ensinam que esquadrinhar as consciências e conhecer os segredos das mentes e dos corações é um poder privativo de Deus. E cita Jeremias 17, 9-10: “Nada mais ardiloso e irremediavelmente mau que o coração. Quem o poderá compreender? Eu, porém, que sou o Senhor, sondo os corações e escruto os rins”. Portanto, o argumento conclui que ler pensamentos e conhecer o segredo das consciências e dos corações não é algo que os anjos possam fazer, mas apenas Deus.
Colocados os argumentos contrários e favoráveis, São Tomás passa a dar sua própria resposta sintetizadora. Que, mais uma vez, não é um simples “sim” ou “não”, mas uma abordagem bastante matizada ao assunto.
Há duas maneiras de se dizer que os segredos existentes no intelecto de alguém podem ser conhecidos por outro. A maneira indireta e a maneira direta.
Pela maneira indireta conhecemos aquilo que está oculto nos corações através dos efeitos corporais que evidenciam externamente estes estados interiores. De fato, esta capacidade também existe entre os seres humanos. É o princípio, por exemplo, dos aparelhos detectores de mentiras, que medem as pulsações e a pressão arterial para determinar se alguém está mentindo; é também por este meio que alguns médicos conseguem determinar o estado de espírito de um paciente, ou mesmo que alguns pilantras conseguem enganar e fraudar pessoas ingênuas pela manipulação. Ora, estes efeitos são externos, são manifestos externamente, e podem ser lidos pelos anjos com muito mais precisão e habilidade do que por nós, humanos. Eles são, portanto, capazes de deduzir com grande precisão, a partir de sinais externos sutis, o estado de espírito, as emoções ou mesmo as cogitações secretas de alguém. É o que nos ensina Santo Agostinho, quando diz que os demônios são capazes de descobrir muito facilmente as disposições ocultas nos corações dos homens, mesmo aquelas que o sujeito não expressa pela fala, mas cala em seu coração, porque o corpo muitas vezes expressa os sinais delas, e os demônios conseguem facilmente perceber estes sinais. Embora, numa obra posterior, o próprio Agostinho tenha dito que não e capaz de dizer exatamente por qual maneira eles são capazes de fazer isto.
No próximo texto examinaremos a maneira direta de conhecer os pensamentos.
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