O futuro a Deus pertence, diz o ditado. Mas será que o fato de ter criado inteligências imateriais, para quem cedeu a própria inteligibilidade do universo, não implica também que os anjos receberam de Deus o conhecimento sobre as coisas futuras?
Este é o debate que se inicia agora. A hipótese controvertida, para provocar o debate, é a de que os anjos conhecem o futuro. Esta hipótese, aliás, parece extraída de um dos livros de New Age que pululam nas livrarias hoje em dia, e que atribuem aos anjos poderes esotéricos, conhecimentos ocultos e principalmente a capacidade de prever o futuro. Mas será que os anjos têm mesmo esta capacidade?
Há quatro argumentos objetores, no sentido desta hipótese inicial.
O primeiro argumento afirma que há seres humanos com a capacidade extraordinária de prever o futuro, como os profetas. Ora, prossegue o argumento, os anjos são superiores intelectualmente aos seres humanos. Logo, qualquer poder manifestado entre os seres humanos deve ser ainda mais presente nos anjos; logo, o argumento conclui que os anjos ordinariamente conhecem o futuro.
O segundo argumento lembra que presente e futuro são diferenças existentes dentro do tempo. Mas o tempo submete apenas as criaturas materiais; o anjo, sendo imaterial, não está submetido ao tempo, mas à eternidade, ou melhor, ao evo, como lembra o chamado “Liber de Causis”, citado pelo argumento. Ora, prossegue o argumento, se o anjo não está submetido ao tempo, então para ele não há diferença entre passado, presente e futuro. E disso o argumento conclui que os anjos conhecem igualmente o passado, o presente e o futuro.
O terceiro diz que os anjos não aprendem, ou seja, não adquirem seu conhecimento pelo exame sensorial das coisas, mas pelas espécies universais que Deus lhes infundiu na inteligência no instante de sua criação. Ora, diz o argumento, espécies universais são abstratas, intemporais, e portanto não estão submetidas a passado, presente e futuro. Assim, diz o argumento, estas espécies devem dar a ele conhecimento das coisas além do tempo, ou seja, das coisas passadas, presentes e futuras.
Por fim, o quarto argumento compara a distância física com a distância temporal. Ora, prossegue o argumento, a distância física não condiciona o movimento dos anjos, que pode deslocar-se sem submeter-se a ela. Analogicamente, a distância temporal também não deve detê-lo. Assim, o anjo seria capaz de conhecer o futuro.
O argumento contrário pondera que os anjos não são deuses, mas criaturas. O conhecimento do futuro é um atributo exclusivamente divino, diz o argumento, citando Isaías 41, 23: “Revelai o que acontecerá mais tarde, e admitiremos que vós sois deuses”. Logo, os anjos não podem ter conhecimento do futuro.
Em sua resposta sintetizadora, Tomás já começa explicando que a expressão “conhecer o futuro” tem dois sentidos. O futuro pode ser conhecido, de certo modo, em primeiro lugar, por quem conhece o encadeamento das causas; é assim que, conhecendo a causalidade física do universo, sou capaz de prever que o sol nascerá amanhã; e, se tiver o conhecimento astronômico adequado, sou capaz de predizer inclusive a hora exata, o local exato e a luminosidade que ele trará, bem como o tempo que levará até o entardecer. Neste caso, quanto aos fenômenos astronômicos, há um conhecimento certo do encadeamento das causas que leva a um conhecimento seguro sobre os acontecimentos futuros.
Mas há também a possibilidade de prever com certa segurança os eventos futuros a partir de causas contingentes, embora neste caso não se chegue a um conhecimento tão certo quanto no caso dos eventos cósmicos. É o caso do médico que, examinando o paciente, é capaz de chegar a um prognóstico bem razoável sobre suas chances de cura. E ele é tão mais capaz de dar um prognóstico
preciso quanto melhor médico seja.
No entanto, a imprevisibilidade do futuro decorre do próprio fato de que o universo não é um grande mecanismo capaz de ser calculado e antecipado; o fluxo da história está sujeito à casualidade, ao caso fortuito, ao imprevisível, enfim, está nas mãos de Deus e só dele.
O outro modo de conhecer o futuro é conhecê-lo diretamente, em si mesmo, tendo-o como presente, vendo-o. Este é o modo próprio de Deus, para quem a eternidade é a posse plena e simultânea de uma vida perfeita. Deus tem o passado, o presente e o futuro em suas mãos, e os conhece porque os quer como eles são. Para Deus, tudo é presente e simultâneo, e com sua visão simples e perfeita vê todas as coisas em si mesmas completa e simultaneamente. Só Deus é assim.
Mas os anjos são apenas criaturas. Assim, sua inteligência não está na eternidade. Eles não têm a vida divina em si, e portanto não podem contemplar todas as coisas e todos os tempos simultaneamente, como Deus faz. Assim, uma vez que sua inteligência é muito mais perfeita do que a inteligência humana, eles são capazes de prever com muita precisão o futuro, a partir das causas presentes, muito mais do que qualquer astrônomo ou médico humano, ou do que qualquer cientista. Deste modo, em manifestações angélicas (ou demoníacas) pode haver a ilusão de que o futuro é conhecido por eles, mas trata-se apenas de uma grande capacidade de previsão pelas causas. Os anjos não conhecem o futuro em si mesmo, como somente Deus é capaz de fazer.
Postos os critérios para solucionar o debate, Tomás passa a examinar as objeções iniciais.
O primeiro argumento diz que alguns seres humanos são capazes de conhecer o futuro. E, se a inteligência dos anjos é superior à dos humanos, eles devem conhecê-lo ainda melhor.
Tomás vai lembrar que os seres humanos não conhecem o futuro em si mesmo, a não ser em suas causas (como o astrônomo que calcula a hora do nascer do sol amanhã) ou por revelação divina, como no caso dos profetas. Mas nestes dois casos, diz Tomás, a capacidade de previsão dos anjos excede a dos seres humanos, o que poderia nos dar a impressão de que eles conhecem diretamente o futuro.
O segundo argumento lembra que futuro e presente são categorias do tempo. Mas o tempo é uma categoria material, e os anjos, imateriais, não estariam sujeitos a ele. Logo, eles conheceriam o presente e o futuro indiferentemente.
De fato, responde Tomás, o tempo é a medida da sucessão de eventos materiais. Os entes imateriais não estão sujeitos ao tempo, neste sentido estrito, porque não podem ser medidos pela medida do movimento daquilo que é material, e de que eles não participam. Mas a natureza criatural do seu intelecto determina que eles estejam submetidos ao fluxo de eventos da história, pois a inteligibilidade dos eventos históricos somente se apresenta conforme o fluxo do tempo faz com que eles se sucedam. Há, portanto, sucessão de inteligibilidade na inteligência angélica, mesmo não havendo a sucessão do movimento físico. Por isto, chamamos à sucessão do movimento físico de tempo, a sucessão dos eventos inteligíveis de “evo” e a simultaneidade da vida divina de “eternidade”. Uma vez que os anjos estão criaturalmente sujeitos ao evo, que é sucessivo, eles não conhecem diretamente o futuro.
O terceiro argumento lembra que os anjos conhecem por espécies universais infundidas em sua inteligência por Deus. Mas as espécies universais são abstratas, e portanto independentes de tempo e espaço. Assim, por uma conclusão platônica, o argumento afirma que os anjos conhecem diretamente o futuro.
Sim, diz Tomás, de fato as espécies universais, sendo abstratas, referem-se igualmente ao passado, ao presente e ao futuro. Mas o passado, o presente e o futuro não se referem igualmente às espécies, diz Tomás, num paradoxo interessante. De fato, as espécies universais somente existem concretamente no tempo, e assim a sua inteligibilidade se dá diferentemente no tempo. As coisas passadas já não existem mas podem ter sido objeto de conhecimento; as futuras ainda não existem factualmente e não podem ser objeto de conhecimento criatural direto; apenas as presentes se dão plenamente em inteligibilidade mediante as espécies que existem na inteligência angélica. Portanto, nem a nós, nem a eles, é dado ter conhecimento direto do futuro.
Por fim, o quarto argumento compara a distância física com a distância temporal, e afirma que, do mesmo modo que a distância física não restringe o anjo, que pode mover-se daqui para bem longe de modo instantâneo, tampouco a distância temporal poderia submeter o anjo, e ele poderia deslocar-se por qualquer tempo indiferentemente.
Mas não há analogia entre as distâncias físicas e as temporais neste caso, diz Tomás. As coisas, por terem extensão, apresentam de modo natural e factual a distância física, isto é, tanto o que está aqui quanto o que está longe existem igualmente neste momento. Mas a distância temporal não possui esta simetria, porque o que está no presente existe, o que está no passado existiu mas já não existe para nós, e o que está no futuro ainda não existe. Logo, a regra do deslocamento geográfico instantâneo não se aplica a um suposto deslocamento temporal do anjo. Eles não podem deslocar-se no tempo de modo a conhecer diretamente o futuro.
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