Vimos, no texto anterior, o debate sobre o conhecimento que os anjos poderiam ter sobre as coisas materiais singulares. A hipótese controvertida é a de que eles não conhecem as coisas singulares, concretas, mas apenas os universais e suas relações. Depois dos argumentos objetores, que partem da ideia de que o meio próprio para aprender sobre os singulares são os sentidos, que dependem de um corpo que os anjos não têm, o argumento objetor simplesmente reafirma a esta capacidade citando a tutela que os anjos da guarda têm sobre os seus protegidos, singularmente. Eles não poderiam guardá-los se não só conhecessem.
Em sua resposta sintetizadora, Tomás nos lembra que alguns estudiosos simplesmente negam que os anjos pudessem conhecer coisas singulares, mas apenas universais. Eles conhecem os cães, a espécie canina, mas não este cãozinho aqui, a minha cadelinha Pipoca, Mas se fosse assim, diz Tomás, eles não poderiam exercer suas funções de custodiar as criaturas, que é tão claramente registrada nas Escrituras. Alguns outros estudiosos dizem que os anjos conhecem os singulares, mas apenas a partir dos universais, como um astrônomo não precisa olhar para o telescópio para saber que tal dia, tal hora, haverá um eclipse. Neste caso, diz Tomás, o tal astrônomo pode até saber do eclipse, calcular sua intensidade, sua duração, seu início e seu fim e deduzir as suas consequências a partir das inferências científicas da física teórica. Mas não podemos dizer que ele conheceu particularmente este eclipse se ele não esteve lá para vivenciar pessoalmente sua ocorrência e seus efeitos. Ele seria mais ou menos como um estatístico da Polícia, capaz de predizer que há certo número de assaltos ocorrendo em tais e tais ruas, mas incapaz de efetivamente intervir e proteger a população.
Este tipo de conhecimento, o conhecimento a partir das causas universais, pode ser valioso e útil, mas não torna o conhecedor um sujeito existencial do evento, mas apenas uma espécie de espectador externo, alheio à concretude existencial do aqui e agora, o que é incompatível com a noção do anjo como guardião. Para guardar, mais do que deduzir a partir de causas universais, como um teórico, ele tem que conviver, relacionar-se concreta e existencialmente com o objeto de sua custódia. Estas posições são, portanto, inaceitáveis, diz Tomás.
De fato, os seres humanos possuem dois modos de conhecer: o modo intelectual, que se relaciona com o universal e abstrato, e o modo sensorial, que se relaciona com o concreto, o singular, aquilo que está submetido ao tempo e ao espaço. O ser humano tem um intelecto em branco, como uma folha de caderno, e precisa do contato sensorial para, mediante a abstração, conhecer intelectualmente a realidade. Em suma, o ser humano sabe porque aprende.
O anjo, porém, tem ambos os tipos de conhecimento por maio de uma única maneira, que é a maneira intelectual. Ele conhece intelectualmente tanto o universal e abstrato quanto o singular e concreto. O anjo não aprende; simplesmente sabe, porque saber é parte do que ele é, e o conhecimento que tem não decorre de aprendizagem, mas de participação no conhecimento divino, que lhe é infundido na sua criação. Assim, no anjo, não há esta diferença entre o conhecimento adquirido sensorialmente e o conhecimento adquirido intelectualmente; ele simplesmente não passa pelo processo de aprendizagem intelectual. Assim, no anjo, o conhecimento dos singulares é intelectual, e recebido de Deus diretamente no seu espírito.
Tomás nos diz que não deveríamos nos surpreender com o fato de que uma faculdade superior possa unificar o conhecimento típico de faculdades inferiores, como a faculdade intelectiva do anjo unifica aquilo que, em nós, está separado em conhecimento sensível e conhecimento intelectual. De fato, mesmo em nós, os sentidos internos são capazes de unificar o conhecimento que vem pelos sentidos externos. Assim, nosso senso comum, recebendo dos olhos a informação visual, dos ouvidos a informação auditiva, do tato a textura e assim por diante, é capaz de unificar estas informações e nos dar a conhecer que todos estes estímulos, embora de natureza diferente, na verdade procedem de um só e mesmo ente que está se relacionando conosco. De modo analógico, a inteligência do anjo é capaz de unificar em si, em sua inteligência superior, aquilo que, nos seres humanos, divide-se em conhecimento sensorial concreto e conhecimento intelectual abstrato.
Como se dá isto? Trata-se de evitar projetar no anjo aquilo que é uma limitação humana, e não uma forma de ser da própria criação. Na criação, na natureza criada, não há uma oposição entre o material, concreto e individual, por um lado, e o universal, abstrato e imaterial, do outro. De fato, todas as coisas existem em sua concretude, e em sua concretude foram concebidas e criadas por Deus. Tanto em sua inteligibilidade formal, quanto em sua materialidade existencial. Não podemos imaginar, como faziam os gregos antigos e os gnósticos contemporâneos, que não foi o mesmo Deus o criador das formas e da matéria. Isto é um pensamento falso e perigoso. Um só e o mesmo é o Deus que concebe as coisas em sua inteligibilidade e as cria em sua materialidade. Deus cria as coisas, o mundo, as substâncias que encontramos em nossa vida cotidiana, e não simplesmente as ideias ou formas que estão por trás delas. Ora, por ser causa das coisas em sua concretude, Deus as conhece como um maestro conhece sua composição mesmo sem ouvi-la, ou um arquiteto conhece sua casa mesmo sem vê-la construída. Deus não aprende sobre as coisas; ao contrário, as coisas têm inteligibilidade, podem ser aprendidas por nós, porque Deus as concebeu assim em primeiro lugar.
E por ter este conhecimento como fonte, Deus pode doá-lo aos anjos, em sua constituição. E assim os anjos conhecem as coisas singulares em sua singularidade, porque elas existem em sua singularidade. Mas eles não recebem este conhecimento do exame empírico das coisas, mas diretamente da fonte que é Deus. Por isto eles conhecem as coisas, porque sua inteligibilidade, sua species, existe singularmente e concretamente nas coisas individuais, como criadas por Deus. E Deus as conhece assim, e os anjos recebem dele este conhecimento.
Tendo colocado, pois, os princípios capazes de fornecer a direção para o debate, Tomás passa a enfrentar os argumentos iniciais.
O primeiro argumento cita Aristóteles, que diz que os sentidos têm por objeto próprio os singulares, enquanto a inteligência tem por objeto próprio os universais. Anjos não têm sentidos, logo, segundo o argumento, não poderiam conhecer os singulares.
Tomés vai lembrar que Aristóteles está falando das faculdades humanas de conhecimento, que precisam passar pelo processo de aprendizagem empírica para chegar ao conhecimento intelectual. Anjos não precisam deste processo para aprender, porque já receberam de Deus todo o conhecimento que têm, na sua criação. Portanto, a citação de Aristóteles não se aplica.
O segundo argumento lembra que todo conhecimento envolve alguma assimilação do objeto pelo sujeito. Mas os anjos são imateriais, e portanto, diz o argumento, não poderiam assimilar objetos materiais. Assim, conclui o argumento, os anjos não conhecem as coisas particulares.
Aqui é necessário entender bem o modo de pensar de São Tomás, e de toda a teoria do conhecimento desde Aristóteles até a escolástica. Conhecer é ter a própria coisa na sua inteligência, e portanto é transformar-se, tornar-se semelhante àquilo que se conhece, por ter em si a essência do ente conhecido. A mesma essência está no conhecedor e no conhecido. Há, portanto, duas maneiras de assemelhar-se: ter em si a mesma espécie que a outra coisa, como uma vaca se assemelha a outra vaca, ter em si o mesmo gênero que a outra coisa, como um macaco se assemelha a um ser humano, ou conhecer e ser conhecido, quando a species da coisa conhecida está na inteligência de quem conhece. Mas neste último caso a semelhança não é física, mas intencional. Em duas coisas da mesma espécie ou do mesmo gênero, a semelhança é física mesmo. Mas entre conhecedor e conhecido, a semelhança é intencional. A forma está no conhecido fisicamente, mas está no conhecedor intencionalmente. E mais, no conhecedor não está simplesmente a forma, mas a própria quididade da coisa, isto é, não é simplesmente a forma da maçã que está na minha cabeça, mas a forma da maçã com o conhecimento de que ela é uma coisa material. Por isso, eu posso dizer que a matéria da maçã também está de certa forma em minha inteligência, mas não materialmente, senão imaterialmente; ou, mais precisamente, intencionalmente. Por isto, Tomás responde a este argumento dizendo simplesmente que o fato de que o conhecedor, pelo conhecimento, passa a assemelhar-se ao conhecido, ao assimilá-lo na sua inteligência, não significa que o conhecedor passe a ter, em si, matéria e forma parecida com a do conhecido, senão que a inteligibilidade do conhecido informa o intelecto do conhecedor, de modo que ele passa a ter em si, intencionalmente, aquilo que no conhecido está fisicamente. Por isto, ao conhecer uma coisa material, o anjo sabe que ela é material, mas este conhecimento é imaterial. O anjo conhece imaterialmente aquilo que é material, e sabe que aquilo é material sem ter matéria em si.
O terceiro argumento lembra que o anjo, sendo inteligente, conhece por espécies. Assim, para conhecer as coisas universais, ele tem, no seu intelecto, as espécies universais das coisas, que é a inteligibilidade das próprias coisas; mas a espécie universal dá apenas o conhecimento potencial das coisas singulares, já que é um conhecimento abstrato, incapaz de determinar a concretude singular. Para conhecer os seres materiais em sua particularidade, pois, ele deveria ter, em sua inteligência, uma espécie para cada coisa concreta que ele viesse a conhecer, o que determinaria que ele tivesse uma inteligência infinita, capaz de conhecer cada coisa singular como se fosse uma espécie. Porém, a inteligência do anjo não é infinita. Logo, o argumento conclui que ele não conhece as coisas em sua concretude singular.
Tomás vai responder que os anjos conhecem perfeitamente, por conhecimento infundido por Deus, não somente os universais das coisas, mas os princípios de individuação – ou seja, a matéria e seus efeitos sobre a forma universal da coisa. Os anjos sabem exatamente como Deus insere concretamente no tempo e espaço o exemplar concreto daquela species, ou seja, ele sabe porque aquele cãozinho é a Pipoca e não o Rex; ele sabe quais são os acidentes, ele sabe como aquele espécime da raça canina se insere no tempo e no espaço concretos para ser este cãozinho e não aquele. E o sabe de modo muito mais perfeito do que os humanos, que dependem da investigação empírica para chegar a este mesmo conhecimento. É que eles conhecem o cãozinho como criatura de Deus, como concebido e querido por Deus, e não como um objeto de exame e aprendizagem.
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