É fácil imaginar que os anjos, tendo recebido de Deus as espécies das coisas em sua inteligência, conheçam as coisas materiais em sua inteligibilidade, ou seja, universalmente. Assim, é fácil conceber que os anjos conheçam a inteligibilidade dos cães, pelo conhecimento da espécie universal de cão. Mas os anjos não possuem corpos, logo tampouco possuem os órgãos dos sentidos. Como poderiam, então, conhecer concretamente a minha cadelinha Pipoca, sem poder vê-la fisicamente, acariciá-la ou ouvir seus latidos? Será que os anjos seriam como aquele cientista que, tendo todas as informações sobre a maça, conhecendo toda a ciência do mundo sobre as maçãs, jamais teve uma maçã nas mãos, jamais mordeu uma maçã e jamais sentiu o sabor da maçã?
A hipótese controvertida, aqui, é a de que os anjos não conhecem as coisas materiais em sua particularidade individual, isto é, os indivíduos concretamente existentes na vida real, seja aquela pedrinha ali, seja a minha cadelinha Pipoca. São três os argumentos no sentido desta hipótese inicial.
O primeiro argumento cita Aristóteles, que ensinava que o conhecimento sensorial é próprio para o conhecimento das coisas singulares, em sua individualidade existencial, concreta; enquanto o intelecto é o responsável pelo nosso conhecimento universal, abstrato, das coisas. Mas os anjos não possuem o conhecimento sensorial. Assim, o argumento conclui que eles não possuem o meio adequado para conhecer as coisas singulares, e portanto não as conhecem.
O segundo argumento afirma que todo conhecimento consiste numa certa assimilação do objeto do conhecimento com o sujeito do conhecimento, em que o objeto passa a existir, de certo modo, na inteligência do sujeito. Mas as coisas particulares são sempre materiais, porque a matéria é o princípio da individuação. Pensemos numa fábrica de automóveis. A concepção do modelo ali produzido é uma só, e está registrada nas plantas dos engenheiros. É a matéria-prima, que a fábrica compra e coloca em sua linha de produção, que permite multiplicar as unidades de carros ali produzidas, porque cada carro, mesmo compartilhando um só e mesmo modelo, é singularizado pela matéria com que é fabricado. Portanto uma coisa material, em sua individualidade existencial concreta, é singular porque é material. Ora, o anjo é imaterial por essência; assim, jamais poderia assimilar uma coisa material em sua inteligência, diz o argumento. Portanto, se conhecer é assimilar, e o anjo não pode assimilar a matéria, então ele não pode conhecer as coisas singulares, conclui o argumento.
O terceiro argumento lembra que o anjo, sendo inteligente, conhece por espécies. Assim, para conhecer as coisas universais, ele tem, no seu intelecto, as espécies universais das coisas, que é a inteligibilidade da própria coisa; mas a espécie universal dá apenas o conhecimento potencial das coisas singulares, já que é um conhecimento abstrato, incapaz de determinar a concretude singular. Para conhecer os seres materiais em sua particularidade, pois, ele deveria ter, em sua inteligência, uma espécie para cada coisa concreta que ele viesse a conhecer, o que determinaria que ele tivesse uma inteligência infinita, capaz de conhecer cada coisa singular como se fosse uma espécie. Porém, a inteligência do anjo não é infinita. Logo, o argumento conclui que ele não conhece as coisas em sua concretude singular.
O argumento sed contra leva em conta uma realidade teológica: a fé nos revela que os anjos são guardiões dos seres humanos, como está registrado no Salmo 90, 11, que registra que Deus ordenou aos anjos a tarefa de serem guardiões dos seres humanos, sendo sólida a doutrina de fé sobre os anjos da guarda. Ora, prossegue o argumento, ninguém poderia guardar aquilo que não conhece. Se eles têm a incumbência de guardar os indivíduos humanos, eles devem conhecê-los; assim, o argumento conclui que os anjos conhecem os singulares.
Postos os termos do debate, São Tomás começa sua resposta sintetizadora lembrando que há estudiosos que simplesmente negam que os anjos possam conhecer as coisas materiais singulares. Mas esta negativa pura e simples não seria possível, por dois motivos:
1) a revelação nos mostra que os anjos são gestores do mundo criado, em passagens como Hb 1, 14: “Não são todos os anjos espíritos a serviço de Deus, que lhes confia missões para o bem daqueles que devem herdar a salvação?”. Ora, se os anjos não conhecessem as coisas singulares, como poderiam receber missões relacionadas com elas? De fato, eles participam da administração da Providência Divina, e portanto sabem relacionar-se com as coisas singulares. Negá-lo seria negar as Escrituras, que, em passagens como Eclesiastes 5, 5, advertem-nos do perigo de negar, perante os anjos, a existência da Providência divina.
2) A filosofia clássica atribui aos anjos a responsabilidade pelos movimentos celestes. É certo que a física contemporânea vê as forças cósmicas como energias impessoais que seguem leis, porque entendem o que é pessoal como imprevisível e não uniforme, e reconhecem a uniformidade das forças universais. Mas para os gregos a inteligência e a vontade levam exatamente à previsibilidade e à uniformidade, pelo que a existência de leis universais uniformes não seria, para eles, um argumento contra a atuação angélica no governo do universo. Em todo caso, eis um debate que não vamos travar aqui; vamos apenas seguir Tomás neste ponto, por enquanto. Para ele, negar o conhecimento dos singulares, aos anjos, é contradizer a filosofia clássica.
Há, ainda, outros que admitem algum conhecimento dos singulares pelos anjos, mas apenas um conhecimento deduzido, a partir das causas universais, como aquele conhecimento que leva os astrofísicos do século XXI a preverem a existência de entes que denominaram de “Buracos Negros” no universo, apontando inclusive as regiões em que eles devem existir, mas sem efetivamente jamais tê-los visto materialmente. Seria deste mesmo tipo o conhecimento que os anjos têm dos singulares, para estes. Mas isto não seria admissível, diz Tomás. Não seria razoável imaginar que Deus encarregasse seus anjos de missões providenciais junto às criaturas se eles tivessem apenas um conhecimento deduzido, teórico, não concreto, das coisas singulares. O governo divino, sua providência, tem por objeto a concretude existencial das coisas singulares, e para isto ele se vale de anjos que as conhecem.
Mas como as conhecem? Veremos isto no próximo texto.
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