É muito difícil para nós imaginar um ser inteligente que não precisasse aprender nada, e que conhecesse todas as coisas materiais sem o uso dos sentidos. Ou seja, para nós é muito difícil entender o modo de conhecer dos anjos. Podemos até admitir que uma inteligência pudesse saber matemática independentemente de ter os sentidos; mas como admitir que um ser assim, completamente espiritual, desprovido de corpo, sem qualquer possibilidade de contato físico com qualquer ente material, pudesse conhecer o mundo material? É esta possibilidade, a possibilidade de que os anjos conheçam o mundo material que vamos debater nesta questão e, em primeiro lugar, neste artigo. A hipótese controvertida, aqui, para provocar o debate, é a de que os anjos não podem conhecer o mundo material. São três os argumentos objetores, no sentido desta hipótese inicial.

O primeiro argumento afirma que as coisas que são objeto de conhecimento aperfeiçoam o intelecto que as conhece. Mas os anjos são seres imateriais, e portanto não podem ser aperfeiçoados por coisas materiais, diz o argumento. Logo, o argumento conclui que os anjos não conhecem as coisas materiais.

O segundo argumento lembra aquela classificação entre conhecer as coisas pela presença de sua essência na inteligência (como a essência do anjo está presente à inteligência dele) ou conhecer pela sua species, que é a similitude formal abstraída das coisas materiais, individuais e concretas com que nos deparamos. No caso do conhecimento pela presença da essência, é a própria coisa conhecida que está no conhecedor, como a luz está no olho de quem vê, ou o anjo está na inteligência dele mesmo, ao conhecer-se. As coisas materiais não podem estar, elas mesmas, na inteligência de quem as conhece; ninguém, ao conhecer uma pedra, por exemplo, sai por aí carregando uma pedra na mente. O argumento prossegue, então, dizendo que as coisas materiais não podem ser conhecidas intelectualmente, mas apenas experimentadas sensivelmente (cheiradas, apalpadas, medidas, provadas) e imaginadas mentalmente na memória. Mas os anjos não possuem órgãos de sentido capazes de realizar experimentações, nem possuem uma imaginação capaz de construir imagens mentais do que foi experimentado. Possuem apenas a inteligência, o intelecto, portanto apenas o conhecimento estritamente intelectual é próprio a eles. Disso, o argumento conclui que os anjos não podem conhecer as coisas materiais.

Por fim, o terceiro argumento lembra que as coisas individuais não são inteligíveis em ato, ou seja, ninguém adquire a ciência sobre alguma realidade material examinando apenas um exemplar daquilo que deseja estudar. Quem quer estudar os sapos, por exemplo, precisa examinar inúmeros sapos, de modo a extrair de cada um deles aquela parcela de informação capaz de gerar, ao final, o conhecimento efetivo e universal da espécie dos sapos. Mas este processo, diz o argumento, demanda o exame do objeto de conhecimento pelos sentidos, a organização dos dados sensíveis pela memória e a formação das imagens pela imaginação, de modo a permitir alcançar a ciência universal sobre aquele objeto de estudo. Mas os anjos não possuem sentidos nem imaginação, e disso o argumento conclui que eles são incapazes de atingir a ciência das coisas materiais.

No argumento sed contra, o argumento é simplesmente de hierarquia de inteligências: se um ente inferior pode fazer algo, é de se presumir que o ente superior também o possa, pelo menos no mesmo grau que o inferior. Ora, prossegue o argumento, se a inteligência humana, que é muito menos poderosa que a angélica, pode conhecer as coisas materiais, também a angélica o pode, com muito mais razão, conclui.

É este também o ponto de partida da resposta sintetizadora de São Tomás. A hierarquia do ser.

Os seres dividem-se hierarquicamente, diz Tomás. E tudo aquilo que é individual, fragmentado e múltiplo nos seres mais baixos, é simplificado e unificado nos seres superiores, até chegar à suprema unidade e simplicidade de Deus, no qual todas as coisas preexistem de modo supra-substancial, isto é, como concebidas e queridas antes mesmo de existirem historicamente.

Ora, prossegue Tomás, dentre todas as criaturas, as mais elevadas, por mais semelhantes a Deus, são, sem dúvida, os anjos. E nos anjos a fragmentação é mínima, até por sua elevada semelhança com Deus. De fato, acrescentamos, vale lembrar que cada anjo é único em sua espécie, enquanto os seres humanos são bilhões de exemplares da mesma espécie.

Prosseguindo, Tomás nos lembra que os anjos recebem de Deus o conhecimento das razões de todas as coisas, antes mesmo que as coisas sejam criadas em sua multiplicidade concreta. Assim, os anjos conhecem as coisas por possuírem em sua inteligência a própria inteligibilidade das coisas, suas species, de modo simples e unificado; portanto a inteligibilidade das coisas materiais, que se apresenta nas próprias coisas de modo fragmentado, múltiplo e parcial, a ponto de levar Tomás a dizer que os entes individuais são inteligíveis apenas em potência, apresenta-se no anjo de modo unificado e completo, porque Deus as inscreve na natureza angélica mesma, ao criá-la. Assim, os anjos conhecem as coisas materiais por terem em sua inteligência as espécies inteligíveis delas, antes e acima da existência individual das próprias coisas. Mas este conhecimento está nos anjos de modo recebido, derivado da inteligência divina, na qual ele está de modo originário e eficaz. Assim, o modo de conhecer dos anjos, ficando acima do modo humano, está infinitamente abaixo do modo divino.

Postos, pois, os critérios para resolver o debate, Tomás passa a examinar os argumentos iniciais.

O primeiro argumento lembra que a perfeição do intelecto é conhecer; mas as coisas materiais não podem aperfeiçoar as imateriais, que lhe são superiores. Assim, o intelecto angélico não conhece as coisas materiais.

Tomás responde simplesmente que o intelecto que conhece não é aperfeiçoado pela coisa conhecida, mas pela inteligibilidade da coisa, que é imaterial. Quando conheço uma pedra, não é a pedra que aperfeiçoa meu intelecto, mas a inteligibilidade da pedra, que passa a existir como ciência em mim. Assim, o intelecto dos anjos é mais perfeito por conter em si a inteligibilidade de todas as coisas materiais. Sem conter matéria.

O segundo argumento afirma que o conhecimento intelectual se caracteriza quando as coisas estão, por sua própria essência, no intelecto que as conhece, seja o intelecto do anjo, seja algum intelecto humano. Mas as coisas materiais não podem estar, por sua própria essência, ou seja, substancialmente, em nenhuma inteligência, seja angélica, seja humana; seria impensável imaginar, por exemplo, que, ao conhecer uma pedra, carregássemos pedras em nossas mentes. Portanto, diz o argumento, tais coisas somente podem ser conhecidas pelos sentidos, pela memória e pela imaginação, faculdades que são materiais e portanto não estão presentes nos anjos. Assim, os anjos não poderiam, diz o argumento, conhecer as coisas materiais.

Tomás vai nos dar uma aula sobre a aprendizagem humana, aqui. Nossos sentidos, ou seja, nosso conhecimento sensível, atinge apenas os acidentes das coisas, mas não a sua essência mesma. Vemos as cores, apalpamos a textura e o formato, sentimos o aroma, ouvimos o ruído e provamos o sabor da coisa. Mas todos estes aspectos são aspectos acidentais das coisas. Mesmo quando guardamos estas informações na memória e formamos imagens delas na imaginação, trata-se de um conhecimento que fica na acidentalidade: vemos um ente que rasteja e é multicolorido, mas não sabemos se é uma cobra ou algum verme, ou mesmo se é uma coral verdadeira ou uma falsa coral. Somente com o conhecimento intelectual, abstraído dos particulares, chegamos a formar uma verdadeira ciência das coisas. O intelecto, portanto, tem por objeto a inteligibilidade da coisa, ou, como diz Aristóteles, a sua quididade, aquilo que ela é, para além dos seus acidentes. Do mesmo modo que os sentidos, quando saudáveis, não erram com relação aos seus objetos próprios (vejo as cores como são, sinto os sabores como são), tampouco a inteligência erra com relação ao seu objeto próprio, que é a quididade, a inteligibilidade da coisa (excluídos, aqui, as patologias e as fraudes deliberadas). Assim, diz Tomás, as essências das coisas conhecidas não estão na inteligência fisicamente, como estão na natureza, mas espiritualmente, como informação, como inteligibilidade extraída (ou recebida, no caso dos anjos). Claro que as coisas espirituais, como os anjos ou os entes matemáticos, podem estar essencialmente presentes nas inteligências, mas não os entes materiais. Em todo caso, tanto no caso da inteligibilidade das coisas materiais, quanto na presença essencial das imateriais, temos aqui a visão intelectual, que ocorre tanto para os anjos quanto para os seres humanos, quando conhecem alguma coisa. É assim, portanto, que os anjos conhecem as coisas materiais.

Por fim, o terceiro argumento alega que as coisas materiais, em sua concretude individual, não são inteligíveis em ato, mas apenas potencialmente. É preciso o exame empírico delas pelos sentidos e a organização das informações na memória e na imaginação para que possamos extrair a sua inteligibilidade em ato. Mas os anjos não têm sentidos nem memória ou imaginação, que são faculdades materiais. Logo, conclui o argumento, não podem conhecer as coisas materiais.

O argumento somente prova que os anjos não aprendem sobre as coisas por meio do exame empírico como os humanos fazem, diz Tomás. Não é pelo exame concreto das coisas individuais, nem pela formação de imagens mentais, nem pela abstração que os anjos conhecem as coisas materiais. Ele as conhece porque possui, na sua inteligência, as species de todas as coisas, que Deus infunde em sua inteligência no ato de sua criação. Pela posse dessas species, os anjos conhecem todas as coisas que têm a mesma natureza delas.