Vimos, no texto anterior, que, na resposta de Tomás, ele explica que há três maneiras pelas quais podemos dizer que conhecemos uma coisa. A primeira é quando a própria essência da coisa está presente no conhecer do sujeito, como no caso da luz que atinge o olho, ou a presença do espírito ao autoconhecimento; a segunda, quando a species da coisa está na inteligência do sujeito que conhece, como no caso do sujeito que abstrai, das pedras que encontra, a ideia de pedra; e a terceira, por reflexão, como no caso de alguém que vê uma imagem do outro no espelho, ou lê sobre ele num livro. E terminamos com a pergunta: qual destas três formas é adequada ao anjo, para descrever o modo pelo qual ele conhece Deus naturalmente?
O anjo não conhece Deus pelo primeiro modo, diz Tomás. Somente Deus pode conhecer-se naturalmente pela presença da própria essência a si mesmo. E somente pela graça, não pelas forças da natureza, os bem-aventurados (sejam anjos ou seres humanos) podem vir a conhecer Deus assim.
Restam o segundo e o terceiro modo. Todos dois se referem aos modos humanos de aprender, e portanto nenhum dos dois descreve exatamente o modo pelo qual o anjo pode conhecer Deus naturalmente. Mas Tomás vai nos explicar que o modo pelo qual o anjo conhece Deus naturalmente poderia ser descrito como algo intermediário entre o segundo e o terceiro modo de conhecer. De fato, como no segundo modo, o anjo tem em si inscrita, pelo próprio Deus, no momento de sua criação, a noção de que ele próprio é imagem e semelhança de Deus, por ser espiritual, inteligência e vontade numa estrutura ontológica pessoal. Esta imagem inscrita em sua natureza, assemelhando-se à presença da species na inteligência humana (segundo modo humano de conhecer) permite ao anjo, ao conhecer-se e saber-se imagem de Deus, contemplar Deus em si, como reflexo, num modo análogo àquele do terceiro modo humano de conhecer. É assim que o conhecimento angélico de Deus usa elementos do segundo modo e do terceiro modo humano de conhecer; mas guarda mais analogias com o terceiro, conclui Tomás, porque envolve a capacidade de reflexão a partir do autoconhecimento.
Colocados estes princípios para a solução do problema, Tomás passa a enfrentar os argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento busca uma citação do Pseudo-Dionísio, na qual ele afirma que o poder de Deus é de tal modo elevado que não pode ser abarcado pelo conhecimento de nenhuma criatura. E por isto o anjo não poderia ter conhecimento natural de Deus.
Mas Tomás vai responder que o Pseudo-Dionísio refere-se aqui ao conhecimento que abarca, que é capaz de controlar, de compreender; mas não é este o conhecimento natural que as criaturas inteligentes podem ter de Deus, senão aquele conhecimento que representa uma primeira notícia, uma noção que informa sobre a existência, mas não envolve a compreensão.
O segundo argumento faz uma comparação de naturezas: Deus está infinitamente distante, por sua natureza divina, da natureza de qualquer criatura. Aquilo que é infinitamente distante não pode ser naturalmente atingido, diz o argumento. Assim, conclui que os anjos não podem conhecer nada de Deus por vias naturais.
Sim isto é verdade, diz Tomás. Por estarem infinitamente distantes como naturezas, os anjos não podem conhecer Deus com aquele conhecimento que compreende, que faz presente o outro. Mas não é deste tipo de conhecimento que estamos tratando aqui, mas daquela notícia, daquela percepção de que deus existe. Trata-se de saber que há Deus; mas não se trata de saber quem é Deus. Este último modo de conhecer não é acessível naturalmente a nenhuma criatura, nem mesmo a Adão antes da queda. E é preciso ter atenção aqui: para saber naturalmente quem é Deus, é preciso ser Deus, ou estar na graça. Adão antes da queda estava na graça, mas não era Deus. Sabia, pois, quem era Deus por força da graça, não da sua natureza pré-queda. Mas mesmo após a queda, é capaz de saber que há Deus, pelas vias discutidas na questão 2 desta parte da Suma. Também os anjos sabem que há Deus, mesmo quando não são bem-aventurados; vale dizer, os demônios sabem de Deus. E sabem-no de modo muito mais perfeito que os humanos depois da queda; é o que se depreende da Carta de São Tiago, 2, 19.
Por fim, a terceira objeção fala de duas maneiras de conhecer a Deus que estão documentadas na Bíblia, em especial em 1 Coríntios 13, 12:hoje vemos [Deus] como num espelho, confusamente; mas depois veremo-no face a face. O conhecimento face a face, diz o argumento, não é possível a nenhuma criatura. E o conhecimento especulativo de que fala o versículo não seria possível ao anjo porque ele implica conhecer Deus de modo reflexo, pelo conhecimento das coisas sensíveis. Mas os anjos não chegam ao conhecimento de Deus pelo exame das coisas sensíveis, simplesmente porque eles não passam pelo processo de aprendizagem a partir das coisas materiais para poder especular analogicamente até Deus a partir delas. Assim, os anjos não seriam capazes de conhecimento natural sobre Deus, conclui o argumento.
Esta questão foi bem analisada na resposta sintetizadora, diz Tomás. Há três modos humanos de conhecer, e o modo humano de adquirir conhecimento analógico sobre Deus é a terceira maneira, aquela via da especulação a partir do conhecimento das coisas materiais. Mas os anjos têm um conhecimento natural de Deus que se coloca entre a segunda maneira e a terceira maneira dos seres humanos, aproximando-se mais desta última.
E assim chegamos ao final desta questão 56.
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