Numa passagem muito interessante da Carta de São Thiago (2, 19) , o autor afirma o seguinte: “Tu crês que há um só Deus? Faze-o bem. Nisto também os demônios creem, e tremem.”

Este trecho parece indicar duas coisas: 1) os anjos (e os demônios) sabem de Deus, independentemente do conhecimento revelado e da graça (que os demônios, obviamente, não recebem); e 2) O tipo de conhecimento natural que os demônios possuem de Deus não é completo, mas é um conhecimento similar aos que os seres humanos chegam a ter pela fé. Que tipo de conhecimento é este?

Vimos, em questões anteriores, que é possível aos seres humanos, independentemente da revelação religiosa, ter algum conhecimento sobre Deus, de modo natural, pela contemplação das coisas criadas e por analogia. Mas que conhecimento natural sobre Deus os anjos poderiam ter, se eles não passam pelo processo de aprendizagem das coisas criadas?

Notemos que Deus ultrapassa, em si mesmo, toda capacidade da criatura. Seria, pois, complicado falar num conhecimento natural de Deus, pelas criaturas, que fosse suficiente para fazer contemplar a Deus mesmo. Com relação aos seres humanos, vimos que nós somos capazes de chegar a saber que há Deus, mas não somos capazes de saber quem é Deus, como ele é em si mesmo, sem recorrer à revelação. Mas e quanto aos anjos?

A hipótese controvertida, aqui, para provocar o debate, é a de que os anjos não chegam a ter nenhum conhecimento natural de Deus, através da capacidade de suas próprias inteligências. São três os argumentos objetores, no sentido desta hipótese inicial.

O primeiro argumento lembra que o Pseudo-Dionísio, numa passagem, registra que “Deus, por seu poder incompreensível, está colocado acima de todas as criaturas celestes”. E conclui, dizendo que, “por estar acima de toda substância, está afastado de todo conhecimento”. Portanto, conclui o argumento, a inteligência do anjo não pode alcançar Deus.

E é na mesma linha do segundo argumento. Aqui, trata-se simplesmente de constatar: o intelecto angélico é um intelecto criatural; está, portanto, infinitamente distante de Deus. Ora, prossegue o argumento, aquilo que é infinitamente distante não pode ser atingido. Logo, conclui que o intelecto angélico não pode atingir Deus naturalmente.

Por fim, o terceiro argumento cita a primeira carta aos Coríntios, 13, 12: “Hoje vemos como por um espelho, confusamente; mas então veremos face a face”. Disto, o argumento conclui que, quando se fala em “conhecimento de Deus”, a frase tem dois sentidos: 1) Encontrar-se pessoalmente com Deus mesmo, vendo-o face a face. Trata-se do chamado “conhecimento de Deus pela essência”. E 2) ver Deus reflexivamente, pela contemplação das criaturas, que, por analogia, pode levar a saber algo de Deus. Mas o anjo não pode, naturalmente, ver Deus face a face, porque nenhuma criatura é capaz disso naturalmente (ver questão 12, artigo 4, desta primeira parte da Suma). Se somente o semelhante pode ver o semelhante, somente Deus pode ver Deus face a face naturalmente. E quanto ao conhecimento reflexivo de Deus pela contemplação do mundo criado? Ora, o próprio Pseudo-Dionísio lembra que, uma vez que os anjos não possuem a capacidade de conhecer por meio de sentidos, já que não possuem corpo, para eles não seria possível percorrer um caminho de ir aprendendo sobre a criação para, refletindo sobre ela, chegar a algum conhecimento natural sobre Deus pela via da analogia. Assim, o argumento conclui que não há via de conhecimento natural sobre Deus para os anjos.

O argumento sed contra lembra que a capacidade intelectual dos anjos excede muito a humana. Mas as Escrituras atestam que algum conhecimento natural de Deus é possível pelas próprias forças intelectuais dos seres humanos, independentemente de revelação ou da ajuda da graça. Em Romanos 1, 19, está registrado que há um conhecimento sobre Deus que é acessível aos seres humanos por sua própria inteligência. Ora, se o intelecto dos anjos é superior ao dos humanos, e se há um conhecimento natural de Deus acessível aos seres humanos, conclui o argumento, com muito mais razão seria possível aos anjos alcançar este conhecimento.

Na sua resposta sintetizadora, Tomás vai afirmar, sem hesitação, que há, de fato, algum conhecimento natural sobre Deus ao qual os anjos podem chegar por sua própria natureza, independentemente de revelação ou da ajuda da graça divina.

três maneiras pelas quais podemos conhecer alguma coisa naturalmente, pelas próprias forças de nossa inteligência criatural, diz Tomás. A primeira maneira é quando a própria coisa que é objeto do conhecimento se faz presente, por sua essência mesmo, naquele que é sujeito do conhecimento. É o que acontece, aqui, quando a luz atinge os olhos, ou o som atinge os ouvidos. É a própria luz, como objeto de conhecimento, que está nos olhos do sujeito do conhecimento. Este é o conhecimento por presença da essência. É desta maneira que o anjo conhece a si mesmo: ele está presente, em essência, na sua própria inteligência.

A segunda maneira é aquela pela qual eu conheço, digamos, uma pedra. Não é a essência da pedra que me atinge, como no caso da luz. Mas, ao encontrar diversas pedras, submetendo-as ao escrutínio de minha razão, sou capaz de abstrair a própria species, a forma universal da pedra, que passa a existir intencionalmente na minha inteligência. Assim, quando vejo a pedra, sei que se trata de uma instância particular da que a espécie universal que tenho na inteligência; trata-se, pois, de um conhecimento por similaridade; não no sentido nominalista de que temos na mente imagens similares, representações das coisas reais, mas no sentido de que o símile da coisa conhecida, a mesma forma, passa a existir de modo intencional em nossa inteligência.

A terceira maneira é aquela maneira reflexiva, que a Carta aos Romanos 13, 12, menciona: quando o conhecimento de uma coisa leva, por reflexão, ao conhecimento de outra. É quando eu conheço, digamos, um espelho, e descubro que este espelho reflete a imagem de um homem que está num ângulo que não consigo enxergar diretamente. Ou quando pesquiso numa biblioteca todos os livros e informações sobre uma fruta que só existe num país remoto, e que nunca vi ou provei pessoalmente.

Por qual desses modos o anjo chega a conhecer alguma coisa de Deus por meios naturais?

No próximo texto veremos a resposta de São Tomás.