Nos dois textos anteriores, vimos a colocação do problema: será que um anjo conhece outro anjo?
No primeiro texto, vimos os argumentos objetores e o argumento sed contra. No segundo texto, vimos a resposta sintetizadora de Tomás; que fundamenta-se, basicamente, nos dois modos pelos quais uma forma existe; em si mesma, como um ente real, ou numa inteligência, como conhecimento, ou seja, de maneira intencional. No anjo, sua própria forma subsiste como ente real e como intencionalidade. Assim, também nos demais anjos, sua forma subsiste como intencional, diferente da própria forma do anjo que o conhece. Cada anjo, portanto, é ente por sua própria forma existente e conhece pelas formas que tem intencionalmente na inteligência, e que estão ali naturalmente, impressas por Deus no próprio ato de criação do anjo.
Colocados estes pressupostos, Tomás passa a reexaminar as objeções iniciais.
O primeiro argumento diz que a presença de uma natureza específica, num órgão de conhecimento, impede o conhecimento de naturezas semelhantes. Em suma, do mesmo modo que uma lente verde faz ver tudo verde, porque absorve as outras cores, uma natureza angelical impediria de ver as outras naturezas angelicais, segundo o argumento.
Não é assim. De fato, se nossos olhos fossem verdes em sua retina, eles seriam cegos a tudo o que não fosse verde. Eles têm que estar abertos a todas as frequências diferentes da sua própria frequência, para conseguirem enxergar.
Mas os anjos não são todos idênticos, de tal modo que um não pudesse se distinguir de outro. Como vimos em textos anteriores, há uma hierarquia angélica pela qual cada anjo é o único representante de sua espécie, e portanto especificamente diverso de todos os outros anjos. Assim, embora todos tenham a mesma natureza angelical, o fato de que suas espécies diferem, de tal forma que uns sejam superiores aos outros, permite que eles possam distinguir perfeitamente quem são e quem é o outro. Portanto, a natureza angelical, em sua multiplicidade, não é um impedimento, ao contrário. É exatamente em razão dessa diversidade que o anjo se conhece e conhece os outros anjos.
O segundo argumento reduz todo o conhecimento a um processo de causalidade; lembrando que há mais causas do que simplesmente a causa eficiente, a que estamos acostumados hoje em dia. Assim, é examinando a relação de causalidade que, através das chamadas “cinco vias” (questão 2) chegamos a ter algum conhecimento sobre aquilo que nos supera, isto é, sobre Deus. Por outro lado,é por um processo de causalidade formal (a abstração a partir do conhecimento sensível) ou de causalidade eficiente (a nossa capacidade de criar e fazer coisas, arte, artesanato…) que chegamos a ter conhecimento sobre aquilo que está abaixo de nós. Mas os anjos não passam por esta relação de causalidade formal, especialmente com relação a outro anjo, com quem não podem ter nenhuma relação sensível. Portanto, o argumento conclui que não podem ter conhecimento recíproco.
Há uma confusão neste argumento, no entanto. A relação de causalidade formal, que passa pela aquisição de conhecimento sensível e, por abstração, de conhecimento intelectual, explica o processo humano de aprendizagem, mas não o próprio fato do conhecer mesmo. Conheço alguma coisa não porque entrei numa relação de causalidade com ela, mas porque tenho, na minha inteligência, a forma da coisa, que percebo que corresponde à própria coisa conhecida. Como veremos na própria resposta, conhecer é ter, intencionalmente, na inteligência, a mesma forma que, na coisa, está presente realmente. É esta equivalência entre a forma conhecida e a forma existente que configura o conhecimento. Ora, os anjos têm, intencionalmente, na sua inteligência, a forma dos outros anjos, como impressa ali por Deus em sua criação mesma. Ora, uma vez que esta forma equivale àquela dos anjos efetivamente existentes, um anjo conhece outro, embora não haja, entre eles, nenhuma relação de causalidade. Anjos conhecem outros anjos, mas não aprendem sobre os outros anjos, nem precisam ser apresentados a eles.
O terceiro argumento lembra que cada anjo é único em sua espécie. Assim, não há semelhança específica entre eles. Se só um semelhante conhece outro semelhante, a única semelhança entre anjos é a de pertencerem ao mesmo gênero, o que significaria que eles só têm, entre si, um conhecimento genérico, e não individual, do outro. Por outro lado, se o conhecimento de um anjo é causado no outro pela essência daquele anjo que é objeto de conhecimento, este conhecimento seria impossível entre os anjos, porque conhecer é ter a forma do outro em sua própria inteligência. Ora, se a forma de um anjo pudesse entrar na inteligência do outro para ser ali conhecido, então ele estaria literalmente dentro do outro, e teria acesso aos seus pensamentos, à sua intimidade, aos seus segredos mais íntimos, coisa que só o próprio Deus pode ter de suas criaturas. Se só Deus pode entrar no intelecto do anjo, então o anjo conhecido não pode estar no intelecto do conhecedor. Ainda que supuséssemos que é o anjo sujeito do conhecimento que é responsável por absorver ativamente em si a forma do anjo que é objeto do conhecimento, haveria outro paradoxo: o anjo, ao conhecer outro anjo, teria em si a sua própria forma e, ao mesmo tempo, a forma do outro anjo em sua inteligência. Ora, como o anjo é imaterial, as duas formas teriam que conviver imaterialmente no anjo conhecedor, o que seria impossível. Logo, os anjos não conhecem um ao outro, conclui o argumento.
Agora São Tomás vai nos dar uma aula de teoria do conhecimento. Um anjo conhece o outro porque a espécie do outro está na sua inteligência; mas não está aí de modo existencial, senão de modo intencional. Entre as coisas materiais, sabemos que, quando conhecemos uma pedra, por exemplo, esta pedra existe na natureza materialmente, e na minha mente a sua mesma species (espécie) existe imaterialmente, quando a conheço. Não se trata, porém, de mera existência material e imaterial. Trata-se da diferença entre a existência concreta, ontológica, da coisa em si mesma como criatura, e da existência intencional, da espécie da coisa na inteligência de quem a conhece. Os anjos existem em si mesmos como imateriais, mas, quando um anjo conhece outro, a forma do conhecido passa a existir na mente do conhecedor de modo intencional. Assim, um anjo tem a forma pela qual existe, que é a sua espécie, como existente ontologicamente; e todas as formas que ele conhece, inclusive as formas dos outros anjos, como existentes intencionalmente em sua mente. Por isto, por esta diferença entre a existência ontológica e a existência intencional, é que um anjo pode conhecer a si mesmo e aos outros anjos.
Por fim, o quarto argumento objetor diz que haveria duas maneiras pelas quais um anjo poderia conhecer o outro.
1) A primeira maneira é se ele recebesse de Deus diretamente, no momento da sua criação, as species de todas as coisas, impressas na sua mente, de tal modo que todo conhecimento estivesse como que pré-impresso nele. Ele não aprenderia, mas simplesmente saberia, porque todo o conhecimento foi depositado nele por Deus. Mas neste caso, diz o argumento, ele estaria impossibilitado de conhecer coisas novas, que surgissem após o momento da sua criação. Por isto, neste caso, ele conheceria apenas os anjos que fossem mais velhos do que ele.
2) A segunda maneira é se os anjos se dessem a conhecer uns aos outros, quando se encontrassem. Mas é preciso ressaltar, aqui, diz o argumento, que toda a teoria sobre os anjos nos mostra que são os anjos superiores que iluminam os inferiores; os inferiores, exatamente por serem inferiores, nada têm a dar aos superiores. Donde se conclui que, neste caso, os inferiores conheceriam os superiores, mas a recíproca não seria verdadeira: os superiores simplesmente nada saberiam sobre os inferiores.
Assim, o argumento conclui que os anjos não conhecem os outros.
Este argumento não tem razão de ser, diz Tomás. Os anjos conhecem-se reciprocamente porque Deus imprime suas razões nas mentes uns dos outros, assim como imprime as razões de todas as criaturas em todas as inteligências angelicais. Assim, a parte do argumento que nega que os anjos possam apresentar-se reciprocamente, com base na teria da iluminação do inferior pelo superior não se sustenta.
Por outro lado, Deus não improvisa a criação do universo. Quando ele lança as razões das coisas nas mentes angélicas, ele procede como aquele engenheiro que, planejando construir uma casa que possa ser aumentada a qualquer tempo, já faz os alicerces de tal modo que possa receber os acréscimos da construção. Assim é a mente dos anjos; na sua providência, Deus dá a eles as razões do que existe, existiu ou existirá.
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