No texto anterior, vimos a hipótese controvertida de que um anjo não pode conhecer os outros anjos, e quatro argumentos objetores no mesmo sentido; Agora, postos os termos do problema, vamos à resposta sintetizadora de São Tomás.

Ele vai iniciar relembrando qual a origem do conhecimento que os anjos têm sobre todas as coisas. De fato, os anjos não precisam aprender nada.

A inteligência divina, ou seja, o Verbo divino, concebeu em si todas as coisas, materiais e espirituais, desde a eternidade. Vale dizer, a razão de ser das coisas, sua estrutura, sua inteligibilidade, existe desde sempre como concebidas, no verbo divino. E existe ali antes e além de existirem no mundo criatural como entes concretos. É assim que Deus conhece em si mesmo tudo o que existiu, existe ou existirá. Ele não precisa olhar para as coisas para aprendê-las. Na verdade, as coisas existem porque ele as concebe primeiro.

A partir da inteligência divina, as coisas concebidas saem de dois modos: primeiro, para o intelecto dos anjos. Depois, para serem efetivamente criadas e existir.

Assim, Deus imprime diretamente no intelecto dos anjos as razões de todas as coisas que foram, são e serão criadas, inclusive as coisas espirituais como os outros anjos. E isso antes mesmo que essas coisas venham a ser criadas, de tal modo que as anjos as conhecem, mesmo que só venham a existir depois que os próprios anjos foram criados.

Há, aqui, uma peculiaridade dos anjos, quanto às suas formas. A forma do anjo existe nele como estrutura, porque ele é uma forma que existe, que subsiste. Mas também existe nele como conhecimento, porque ele é um ente que tem pleno autoconhecimento. Por isto, a mesma espécie que faz o anjo existir é, a um só tempo, impressa na sua inteligência de tal modo que é por ele conhecida reflexivamente. A forma do anjo existe nele: 1) realmente, como estrutura, e 2) intencionalmente, como conhecimento. E nos dois casos ela existe ali como infundida por Deus, tanto na existência quanto na inteligência.

E as demais criaturas? Todas as criaturas são concebidas em primeiro lugar na mente de Deus; isto é, existem em seu verbo (cf. Jo 1, 3). Em seguida, são infundidas como conhecimento na inteligência dos anjos. E existem em si mesmas como entes concretos. Portanto, elas são impressas por Deus como conhecimento no intelecto dos anjos, e existem ali intencionalmente, isto é, como coisas inteligidas. É por isto que os anjos não precisam aprender nada; recebem de Deus o conhecimento de tudo, ou seja, têm acesso prévio às partituras desta linda sinfonia que é a Criação.

No próximo texto veremos as respostas de Tomás às objeções iniciais.