No artigo anterior, debatemos o autoconhecimento dos anjos e vimos que a própria natureza dos anjos determina que eles tenham pleno autoconhecimento. Mas e quanto ao conhecimento recíproco? Como os anjos poderiam conhecer-se reciprocamente, isto é, como um anjo poderia conhecer outro anjo?
Isto envolve uma interessante questão: se os anjos são imateriais, são espíritos subsistentes, conhecê-los é conhecer seus pensamentos, sua intimidade, seus planos? Os anjos são transparentes uns aos outros? Como poderiam conhecer-se reciprocamente?
A hipótese controvertida, aqui, é a de que eles simplesmente não podem conhecer-se reciprocamente. Um anjo simplesmente não conheceria outro. São quatro os argumentos no sentido desta hipótese inicial.
O primeiro argumento parte da teoria do conhecimento aristotélico. Pensemos em lentes de óculos: quando vemos lentes verdes, na verdade trata-se de lentes que absorvem todas as cores, menos a cor verde; por isto, se olhamos por óculos de lentes verdes, enxergamos tudo verde. Assim, de certa forma, para que possamos conhecer as coisas, é preciso que sejamos capazes de distinguir todas as matizes, os aspectos daquela coisa, sem que alguma coisa em nós limite a percepção de determinado tipo de estímulos, como a lente verde faz com as frequências que não são verdes. Assim, é porque a língua não tem, por natureza, um gosto doce ou salgado, mas é neutra para o sabor da sua própria superfície que ela é capaz de sentir todos os sabores. Se a língua fosse doce, por exemplo, ela não conseguiria sentir os sabores salgados, amargos ou azedos. Por outro lado, é somente pelo fato de que nossa inteligência humana é imaterial que conseguimos conhecer intelectualmente todos os seres materiais. Se nossa inteligência fosse material, ela não seria capaz de discernir e conhecer todas as naturezas materiais intelectualmente, como um olho que tivesse a retina verde somente seria capaz de enxergar o verde. Ora, se as coisas são assim, diz o argumento, o fato de que o anjo tem uma natureza espiritual o impede de conhecer outras naturezas intelectuais, do mesmo modo que uma língua doce não conheceria os outros sabores, ou um ser material não teria conhecimento intelectual de outro ser material. Assim, o argumento conclui que um anjo não pode conhecer outro anjo.
O segundo argumento cita o Livro de Causas, para o qual toda relação de conhecimento pode ser reduzida a uma relação de causalidade (lembrando que a causalidade, no pensamento aristotélico e escolástico, tem muito mais dimensões do que admitimos hoje, e envolve a causalidade exemplar, a causalidade formal, a causalidade material, a causalidade eficiente e a final). Assim, conhecemos o que está acima de nós porque reconhecemos que ele é nossa causa – e este é o caminho que o próprio Tomás denomina de “as cinco vias”. Por outro lado, o que está ao nosso redor causa em nós o conhecimento, como causa formal, sendo a razão de nossa aprendizagem. E o que está abaixo de nós, ou seja, aquilo que nós mesmos fazemos, é por nós conhecido por ser causado por nós – pela produção, pela confecção, pela fabricação, enfim, por algum dos muitos meios pelos quais somos causa eficiente de outras coisas. O argumento conclui, no entanto, que não há relação de causalidade entre dois anjos diferentes; logo, não haveria maneira de um anjo conhecer outro, conclui.
O terceiro argumento tem o seguinte raciocínio: as coisas semelhantes conhecem seus semelhantes. Os órgãos dos sentidos são materiais, assim podem conhecer as coisas materiais. A inteligência humana é uma dimensão imaterial de um ser material, e pode conhecer as coisas imaterialmente a partir da abstração das coisas materiais. Mas cada anjo é, como foi visto em questões anteriores, o único de sua espécie. O gênero dos anjos, portanto, é composto de espécies com um único exemplar de cada. Assim, ele não tem anjos semelhantes a si, a não ser pelo gênero. Mas conhecer pelo gênero é conhecer genericamente; ora, o conhecimento genérico é um conhecimento comum, abstrato, não específico, e portanto não dá aos anjos, segundo o argumento, o conhecimento próprio a respeito dos demais anjos. Por outro lado, é da essência dos anjos serem imateriais. Mas o conhecimento intelectual é um conhecimento imaterial. Logo, para que conhecesse outros anjos, seria preciso que cada anjo tivesse, em si, a essência do outro que se tornou conhecido a ele. Mas o anjo tem uma essência imaterial dentro de si, que é a sua própria essência, pela qual ele é este anjo e não aquele. Se ele tivesse também a essência de outro anjo dentro de si, como conhecido, ele seria este anjo e o outro anjo, o que seria impossível; a única essência que pode estar presente num anjo a partir de fora é a essência trinitária de Deus. Logo, a própria individualidade essencial do anjo impede que ele conheça outro anjo, conclui o argumento.
Por fim, o quarto argumento apresenta duas alternativas pelas quais os anjos poderiam conhecer-se reciprocamente: 1) ou eles se conheceriam por meio de alguma espécie inata, isto é, da informação depositada por Deus em sua inteligência no momento da sua criação; mas, neste caso, diz o argumento, os anjos mais antigos não poderiam conhecer os mais novos, que houvessem sido criados depois deles, ou 2) eles se conheceriam por meio de informações que um adquirisse pela relação com o outro, isto é, por uma aprendizagem recíproca através da troca de informações. Mas neste caso, os anjos superiores não poderiam conhecer os inferiores, porque os inferiores são inferiores exatamente porque não têm nada a dar aos superiores. Disto o argumento conclui que os anjos não se conhecem reciprocamente.
O argumento contrário também cita o Livro de Causas, que afirma que é próprio de toda inteligência conhecer as coisas que não são corruptíveis; ora, os anjos não são corruptíveis, porque são indestrutíveis e não estão sujeitos a morte e aniquilação. Logo, conclui o argumento sed contra, eles são objeto próprio para a inteligência de outro anjo.
No próximo texto examinaremos a resposta sintetizadora de Tomás.
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