Para bom entendedor, meia palavra basta. Eis um velho ditado que poderia ser muito adequado para descrever esta resposta sintetizadora de São Tomás.
O que significa dizer que um ser é “superior” ao outro? Para Tomás, a hierarquia entre os seres se estabelece a partir da proximidade com Deus: quanto mais semelhante a Deus, tanto mais perfeito é um ente. Ora, no campo intelectual, sabemos que Deus sabe todas as coisas pela contemplação de si mesmo. Para ele, pois, trata-se de saber apenas uma coisa, ou seja, conhecer-se, e isto significa conhecer completa e perfeitamente todas as coisas.
Assim, quanto mais perfeita e elevada for uma criatura, mais o seu conhecimento será fundado em poucos fundamentos, já que, em Deus, basta conhecer uma coisa para conhecer tudo. Os seres humanos, para conhecer, dependem da informação fragmentada que chega aos seus sentidos; a partir da progressiva unificação dos fragmentos, adquire o conhecimento intelectual pelas espécies universais.
Os anjos inferiores, como não aprendem empiricamente, têm em si muitas espécies pelas quais conhecem, e os anjos superiores têm progressivamente menos espécies na medida em que sobem na hierarquia do ser e tornam-se mais semelhantes a Deus. Os anjos mais elevados precisam de menos espécies para conhecer todas as coisas. As formas pelas quais conhecem são mais universais do que aquelas dos anjos inferiores, de modo que, por menos espécies, são capazes de conhecer mais coisas. Como pode ser isto?
Lembremos daquele exemplo das partituras simplificadas que os professores de piano dão aos seus alunos iniciantes. Elas registram a mesma música que as edições completas, porém com menos riqueza de detalhes, de modo que, se usássemos tais partituras para acompanhar, digamos, a execução de uma grande sinfonia por uma orquestra, precisaríamos de dezenas, talvez centenas de partituras como aquelas para cobrir todos os detalhes de todos os instrumentos. A pequena partitura simplificada da criança omite a riqueza da variedade de instrumentos, omite a pluralidade de movimentos, a sofisticação de glissandos e apojaturas, de modo que, se quisesse acompanhar todos os movimentos de uma grande orquestra com tais partituras, certamente precisaria de muitas partituras para fazê-lo, de modo a cobrir todos os movimentos, todos os instrumentos, todos os detalhes.
O maestro, porém, tem apenas uma partitura à sua frente, e nela estão registrados todos os movimentos, todos os detalhes musicais, bem como a linha melódica de todos os instrumentos. Certamente com apenas uma partitura completa ele é capaz de reger a orquestra inteira, enquanto o pequeno músico, com sua partitura simplificada, se fosse chamado a tocar com a orquestra, sequer conseguiria tocar adequadamente a linha melódica do seu instrumento.
Mesmo entre os seres humanos ocorre algo análogo, diz Tomás. Um grande filósofo, a partir dos poucos postulados do seu sistema, é capaz de compreender muitas coisas que vem a conhecer, enquanto uma pessoa mais rude precisa receber uma explicação detalhada, cansativa, longa e detalhada para compreender as mesmas coisas.
Postos os termos capazes de resolver o debate, Tomás passa a enfrentar os argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento diz que a noção de universalidade é definida por oposição à concretude do conhecimento sensível próprio dos seres humanos; conhecemos os particulares e sensíveis, que são concretos e individuais e, por abstração, chegamos aos universais. Ora, prossegue o argumento, os anjos não conhecem por abstração, e assim não haveria ponto de referência para dizer que o conhecimento de uns é mais universal ou menos universal que o de outros. Disto o argumento conclui que não é verdade que os anjos superiores conheçam por formas mais universais do que os inferiores.
É preciso ter muita atenção aqui, diz Tomás. Há três modos de conhecer universalmente as coisas. Primeiramente, há o modo humano, que, deparando-se com as coisas concretas e interagindo sensorialmente com elas, retira da sua particularidade o conhecimento universal. Trata-se, pois, de um conhecimento que é sucessivo à inteligibilidade das coisas; quer dizer, ele é causado pelo fato de que as coisas são, em si mesmas, inteligíveis. Existem, porém, dois tipos de conhecimento que não são posteriores às coisas, mas de certo modo preexiste a elas. Trata-se do conhecimento angelical, que não se origina sensorialmente, mas existe na própria natureza do anjo, como participado do conhecimento de Deus, e de um modo anterior à própria inteligibilidade que está na coisa. Por fim, o conhecimento divino: conhecer, para Deus, é sinônimo de conceber e querer que exista. Deus conhece sendo causa primeira das coisas, tanto em sua inteligibilidade quanto em sua existência mesma. Assim, o conhecimento divino e o conhecimento angelical não são abstraídos das coisas, mas precedem à inteligibilidade delas, um como fundamento (o divino), outro por participação no conhecimento divino (o angelical). Assim, mesmo nos modos precedentes de conhecimento, há graus de profundidade, embora não haja a referência ao particular; não se pode dizer que algum anjo conheça os universais do modo que Deus os conhece. Portanto, não haveria nenhuma contradição em admitir que um anjo possa conhecê-los de um modo mais unitário, mais profundo, que outro anjo inferior.
O segundo argumento quer defender que aquilo que conhecemos de modo particular e especial é mais perfeitamente conhecido do que aquilo que conhecemos apenas genericamente ou universalmente, alegando que ter o conhecimento universal não é a mesma coisa que conhecer atualmente uma coisa concreta, mas apenas o meio caminho entre a potência para conhecê-la e o ato de efetivamente conhecê-la. Assim, continua o argumento, quanto mais universal, mais imperfeito e distante das coisas; por isto, conclui que não pode ser verdade que os anjos superiores conhecem por espécies mais universais que os inferiores, porque neste caso teriam um conhecimento mais imperfeito e já não seriam superiores.
Não é assim, diz Tomás. De fato, há duas maneiras pelas quais podemos dizer que alguém “conhece alguma coisa em universal”. Se falamos sobre o conhecimento concreto de alguma coisa particular, então o conhecimento universal sobre ela é, de fato, imperfeito, como seria imperfeito se eu simplesmente conhecesse, de outra pessoa, que ele é um ser humano. Por outro lado, há um conhecimento muito mais perfeito quando um ser inteligente que tem o conhecimento universal sobre alguma coisa vem a entrar em relação com ela concretamente; neste caso, ele a conhece muito mais perfeitamente do que alguém que não tem esse conhecimento universal, ou não o tem tão profundamente. É por isto que, por exemplo, um botânico tem muito mais capacidade para contemplar um belo jardim do que alguém que não conhece nada de plantas.
O terceiro argumento parte da ideia de noção própria. Cada coisa, em sua espécie e gênero, tem sua noção própria, que não compartilha com coisas que sejam diferentes dela, mesmo aquelas coisas que compartilham noções gerais com ela. Assim, um ser humano e uma lesma compartilham entre si a noção geral de animal, mas suas noções próprias são muito distantes. Portanto, diz o argumento, se uma mente inferior conhece muitas noções próprias, enquanto a mente superior só conhece poucas formas gerais, então a mente inferior conheceria mais perfeitamente as coisas que a superior, o que seria uma ideia absurda.
A resposta de Tomás já inicia com a admissão de que, de fato, seres diversos não podem adequar-se à mesma razão própria. Mas pode haver uma razão que, por ser muito elevada e rica, pode valer de analogante para as razões próprias de muitas coisas análogas. Tomás dá o exemplo da prudência humana: esta capacidade de discernir concretamente qual o melhor comportamento em determinada situação concreta, que nos seres humanos é iluminada pela inteligência, pode servir de analogante para a aptidão dos animais irracionais de discernir, com base em seus comportamentos concretos e instintos, qual o melhor comportamento em casos concretos, por exemplo, quando estão caçando e a presa reage de um modo inesperado. Por isto, aquele que conhece a razão mais elevada, que é a prudência humana, pode conhecer a razão menos elevada, que é a prudência animal. É assim que os anjos superiores precisam de menos razões para conhecer melhor e mais perfeitamente mais coisas.
Deixe um comentário