Quando meu filho começou a aprender a tocar piano, recebeu do seu professor um livro de partituras simplificadas, feitas por um autor chamado Mário Mascarenhas. Eu notei, à época, que as músicas, muito bonitas, não tinham a sofisticação do arranjo original, mas estavam bem preservadas na sua integridade melódica, de modo que era fácil perceber de que música se tratava. E isto ajudou muito ao aprendizado dele, já que ele se sentiu capaz de tocar, ainda que simplificadamente, músicas muito bonitas. E em certas passagens que ele, mesmo assim, tinha dificuldade para tocar, o professor, muito carinhosamente, completava as linhas melódicas a quatro mãos. Claro que, neste caso, o professor tocava a versão completa, sofisticada, da mesma música, enquanto ele seguia com a versão mais simples.
Esta imagem me ajudou a compreender este modo de conhecimento angélico, e até mesmo o processo de iluminação entre os anjos. Vimos, nos textos anteriores, que Deus conhece como autor, e os seres humanos, como estudantes que experimentam; os anjos seriam exímios maestros que receberam de Deus as partituras da grande sinfonia do universo. Mas será que todos os anjos recebem exatamente as mesmas partituras?
A inteligência conhece por espécies, como já vimos em artigos anteriores. O pensamento divino cria as espécies, os anjos as recebem e os humanos as aprendem. Nós vimos, também, que a marca do conhecimento intelectual, comparado com o conhecimento sensível que os humanos compartilham com os animais, é a universalidade. Um cão pode conhecer seu dono, saber seu cheiro, sua figura, sua aparência. Mas ele jamais vai adquirir a noção de que o seu dono é um ser humano, da mesma espécie que tem a esposa do dono e os filhos. Esta noção universal de espécie humana é um conhecimento intelectual, que está acima da capacidade canina.
Mas, além disso, podemos discernir que os humanos têm muito em comum com outros animais, de modo a poder dividir com eles o gênero animal. Ora, a noção de gênero é mais universal do que a de espécie. E mesmo a noção de espécie precisa ser muito bem compreendida: sempre houve quem quisesse excluir alguém da espécie humana, por exemplo, por pertencer a determinada raça ou etnia, ou até mesmo por estar ou não nascido, como é o caso do aborto deliberado. Sem dúvida, como a mesma música pode ter uma partitura simplificada para ser tocada por uma criança ao piano, e uma partitura completa para ser executada por uma orquestra, parece adequado imaginar que o conhecimento por espécies também pode comportar graus de universalidade.
Chegamos, assim, na hipótese controvertida deste artigo. Há uma hierarquia entre os anjos? E se o conhecimento universal por espécies é o conhecimento próprio dos intelectos, e portanto o conhecimento próprio dos anjos, poderíamos dizer que os anjos superiores conhecem por espécies mais universais que os anjos inferiores? A hipótese controvertida é a de que isto não seria assim, e que os anjos superiores não conheceriam por espécies mais universais que os anjos inferiores.
São três os argumentos controvertidos no sentido desta hipótese inicial.
O primeiro argumento diz que a universalidade do conhecimento é definida em comparação com o conhecimento do particular, do individual, com o qual os sentidos se deparam. O conhecimento sensorial é particular; mas, comparado com ele, o conhecimento universal é abstrato. Mas esta comparação só é possível no caso do processo de conhecimento humano, em que há uma aprendizagem que resulta da abstração, da universalização do conhecimento particular que chega ao sujeito pelos sentidos. Ora, os anjos não passam por tal processo de abstração, porque não conhecem por algum processo de abstração a partir dos particulares. Anjos não aprendem por exploração empírica. Assim, faltando o referencial do concreto, do particular, não se poderia afirmar, diz o argumento, que algum conhecimento angélico é mais universal do que outro.
O segundo argumento afirma que conhecer alguma coisa tanto abstrata quanto concretamente é um conhecimento mais perfeito do que conhecê-la apenas por algum conhecimento vago e universal. Conhecer apenas o universal de alguma coisa não é ainda conhecê-la perfeitamente, mas apenas estar a meio caminho entre o potencial de conhecê-la e o ato de relacionar-se diretamente com ela. Assim, digamos, mesmo que um cientista tivesse todo o conhecimento universal e abstrato de uma maçã, só se poderia dizer que ele a conhece efetivamente depois que pegasse numa maçã pessoalmente, cheirasse, comesse, enfim, depois que entrasse numa relação pessoal com ela. Ora, prossegue o argumento, se o anjo superior conhecesse por formas mais universais, essas formas seriam mais abstratas do que as formas pelas quais os anjos inferiores conhecem, e, portanto, menos efetivas. Assim, o argumento conclui que não poderíamos dizer que o anjo superior conheça por formas mais universais do que aquelas que dão o conhecimento aos anjos inferiores.
Por fim, o terceiro argumento afirma que duas coisas diferentes entre si não podem ter a mesma razão própria, mesmo quando têm a mesma razão universal. Um macaco e um cavalo coincidem na razão genérica de animal, que é bem abstrata e distante da concretude, mas nas suas razões próprias eles são radicalmente distintos. Assim, se os anjos superiores conhecessem as coisas por razões mais elevadas do que aquelas pelas quais os anjos inferiores conhecem, isto significa que eles, mesmo mais elevados, conheceriam menos claramente as razões próprias das coisas, e portanto seriam menos capazes de distingui-las do que os anjos inferiores, o que seria, segundo um argumento, um absurdo. Assim, o argumento conclui que seria inadmissível imaginar que os anjos superiores conhecem as coisas por razões mais elevadas do que aquelas pelas quais conhecem os anjos inferiores.
O argumento contrário traz duas citações do Pseudo-Dionísio, sem dúvida o escritor mais citado por Tomás neste assunto. Na primeira citação, ele afirma que os anjos superiores participam da ciência divina mais universalmente que os inferiores. Na segunda citação ele afirma que a inteligência dos anjos superiores conhece por formas mais universais do que aquelas conhecidas pelos anjos inferiores.
Colocados os termos do debate, estudaremos a resposta sintetizadora de Tomás no próximo texto.
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